A CANETA MÁGICA – “Querença” – uma ficção de Fernando Correia da Silva

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Imagem4Em pé, da esquerda para a direita: Rosa Feldman, Helena Loures, Manuel Simões; sentado, Fernando Correia da Silva (Porto Santo, Verão de 1999).

Num artigo anterior contei como descobri Fernando Correia da Silva, como, por que motivo e em que circunstâncias, li de um fôlego o seu Mata-Cães. Aquele livro veiculava (passe a contradição) uma forma literária tradicional e inovadora. Na verdade, não me foi difícil enquadrar aquele tipo de escrita numa linhagem alicerçada nos romances medievais, no colorido das crónicas de Fernão Lopes, na linguagem viva das personagens dos autos de Gil Vicente, nas comédias novelescas, nos romances picarescos. Na abordagem da história recente, ao jeito de Fernão Mendes Pinto, realidade e ficção entrelaçavam-se de forma perfeita. Uma escrita, vigorosa e impressiva, constelada de modismos e de expressões populares, nada tinha a ver com alguma coisa que eu tivesse lido nos últimos anos. Mais de vinte anos depois de Abril, libertos da repressão policial com que explicavam os seus textos enviezados, a literatura que se escrevia e a crítica aplaudia, eram malabarismos de sentimentos e palavras, viagens em torno de umbigos. Salvo excepções (como os livros de Saramago) muito  do que se incensou e continua a incensar é lixo perfumado. O Mata-Cães destoava positivamente, como um saudável palavrão gritado no meio de uma missa. Uma escrita nova, uma escrita que, como António José Saraiva,  «é muitas coisas, mas o que não é decerto é um tranquizante

As aventuras de Francisco Mata-Cães na ilha de Palmira, entre as bruxas antropófagas, na luta contra o Lord Canibal, sequela de Mata-Cães, foram o tema do livro seguinte – interessante, mas menos conseguido. E chegamos a uma obra capital na bibliografia de Correia da Silva – Querença.

Servido por uma estrutura ficcional muito simples – uma jovem jornalista encarregada de entrevistar um tal Júlio Vera, escritor e profeta – compõe um retábulo complexo – com Júlio Vera, iluminado por premonições, demanda um tempo perdido e, na Lisboa dos anos 40 e 50 se cruza com Alexandre O’Neill, Agostinho Neto, António Maria Lisboa, Joaquim Pinto de Andrade… e com figuras de ficção cuja correspondência na realidade é fácil descortinar – Maria Caldas, a escritora refugiada política no Brasil e o poeta surrealista Mário Albertini…

Para se orientar no labirinto de situações complexas que o mundo actual coloca, Júlio usa o passado como guia, pois pormenores aparte, a natureza humana mantém-se inalterável e, como diz o profeta Júlio Vera, «enquanto mandar o dinheiro, não há paraíso possível». Ou seja, enquanto o ter prevalecer sobre o ser, o homem não recuperará a sua humanidade e continuará a evoluir como animal racional – cada vez mais racional, mas sem perder a animalidade.

Francisco Mata-Cães e Júlio Vera, sátiros bondosos, mas não distraídos, atravessam as ficções, como Fernando Correia da Silva atravessou a vida – abrindo caminho a golpes de um bom-humor onde por vezes emergia raiva pelo impudor, hipocrisia e maldade; amargura, sobretudo, pelo colapso de uma utopia que não podia ser já protegida com muros e que, demolidos estes, se refugiou nos corações dos que, como o Fernando, sabem que o futuro passa por esse território, pela utopia de uma igualdade fraterna, vivida em liberdade.

 

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