BISCATES – “O salvador e o ditador” – por Carlos de Matos Gomes

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Todos os dias, ao longo da nossa vida, somos aliciados por salvadores. Salvadores religiosos que prometem a nossa salvação depois de mortos, salvadores políticos que nos prometem o céu na terra, a salvação enquanto vivos.

Só existe uma condição, a mesma que o diabo apresentou a Fausto, tenho de lhes entregar a minha liberdade.

Os salvadores têm sempre um kit de salvação pronto a usar. O problema é que são totalitários: só o entregam completo, sem compromissos. O kit religioso que dá entrada no Paraíso e o Kit político que promete uma nova ordem, um homem novo não admite dúvidas, nem reclamações, nem, muito menos, devoluções.

Os que se arrependem e querem entregar o Kit da salvação são apóstatas religiosos e traidores ao Partido.

As igrejas são sempre por natureza totalitárias. Assim tem de ser. Só nos salvamos acreditando no seu Deus e não noutro. Os deuses são sempre verdadeiros, mas só para os seus crentes. Não pode haver compromissos, não há deuses partilhados. É-se de um e contra os outros. Admitir outros deuses é admitir que nos podemos salvar sem nos submetermos absolutamente ao nosso.

Na política, a salvação segue o mesmo princípio totalitário. Os Partidos da Salvação têm um programa único, só eles possuem a chave para a sociedade perfeita. Acreditar que outros também podem, que diabo, oferecer uma esperança, uma possibilidade, é admitir a dúvida, essa venenosa semente da Liberdade!

Os partidos da salvação funcionam como as igrejas: só te salvas comigo! Todos os outros são infiéis. Ora, como muito bem dizia o professor Marcelo Caetano a propósito da proposta do general Spínola de estabelecer conversações com Amílcar Cabral, do PAIGC: com terroristas não se negoceia!

Não há volta a dar contra a incompatibilidade entre salvação e privação de liberdade. Nem existem diferenças essenciais entre os salvadores: Todos querem a nossa salvação! Todos querem a condenação dos infiéis e opositores. Os imãs xiitas, os sunitas, Hitler, Estaline, todos queriam e querem a salvação dos seus. Também querem a liberdade dos seus e a sujeição dos que são contra.

Todas as propostas de salvação assentam na dualidade irremediável: existe um céu e um inferno. Nós e os outros.

Todas as propostas de salvação são totalitárias: só te salvas abdicando de ti. Por isso são igualitárias e colectivistas.

Todas as propostas de salvação são mortais, porque só na morte somos todos iguais.

Daí que possamos glosar a conhecida tirada de Almeida Garret – Foge cão que te fazem barão – dizendo: Foge cão de quem te promete a salvação!

Carlos de Matos Gomes

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