CIGANOS NA ESCOLA por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Os ciganos, que vão para a escola, são cidadãos portugueses com os mesmos direitos e deveres dos outros alunos.

Quando comecei a dar aulas, nos anos 80 do século passado, no bairro para onde fui colocada como professora viviam muitas famílias ciganas com famílias não ciganas.

Todos, com diferentes origens culturais, viviam como é possível viver quando não se tem o mínimo de dinheiro para sobreviver.

 Era um bairro onde havia pessoas que eram marginais, lutavam na rua e no café, roubavam nos autocarros, vendiam droga… era um bairro em que os habitantes se sentiam marginalizados pela sociedade e que se auto excluíam.

Quando cheguei à escola havia poucos ciganos e os que havia faltavam tanto que quase não se dava por eles.

Os Ciganos não dão o mesmo significado à escola como os restantes portugueses. As crianças ciganas pertencem a uma etnia ágrafa, em que as tradições culturais são transmitidas oralmente.

As crianças aprendem a tradição da comunidade cigana, ouvindo os mais velhos que lhes merecem o maior respeito. Ler e escrever para quê?

Nesses anos 80, através de um projecto com o Ministério de Educação “Ir à escola” surgiram mediadores culturais que foram visitar o bairro para se saber quantos meninos ciganos não iam à escola e porquê.

Na realidade havia muitas crianças, em idade escolar, na rua ou nas feiras. Não iam à escola porque, entre outros motivos, não tinham Cédula de Nascimento, não tinham Boletim de Saúde, não tinham nenhum interesse em ir para a escola. Acabaram por ir aparecendo com o apoio dos mediadores e a vontade da escola em os receber.

Nos anos 80 foram criadas pelo Ministério de Educação as condições necessárias para todas as crianças que estavam nesta situação e que abandonavam a escola, engrossando assim, a taxa de insucesso escolar. O projecto que sustentava estas condições tinha como lema “dar mais a quem tem menos”, era o TEIP (Território de Educativo de Intervenção Prioritária).

Graças ao esforço de todos os intervenientes, a situação escolar e de competências sociais melhoraram consideravelmente.

Não nos podemos esquecer que os ciganos e a comunidade dominante têm-se pautado por um afastamento recíproco que tem na sua origem factores endógenos e factores exógenos a estas comunidades.

A escola e a sociedade têm um conhecimento estereotipado das duas culturas dentro da mesma cultura portuguesa. Mostram-se incapazes de trabalhar com a diferença, sendo que a comunidade maioritária é quem faz e aplica as leis, sentindo-se superior, por isso dominadora e repressiva.

A compreensão educativa e sociológica desta relação, desta interrelação, que se quer democraticamente intercultural, envolvem o conhecimento e a compreensão dos processos sócio-culturais, complexos e multidimensionais, que estão na sua origem.

As crianças, sejam elas de que origem cultural forem quando entram na escola transportam consigo os seus códigos culturais que muitas, mas muitas vezes, não coincidem com a cultura de escola, da sociedade maioritária.

A falta de conhecimento aliada a uma cultura rígida com salas, professores e alunos entram em conflito com facilidade.

O conflito de que mais se fala é o conflito com os meninos ciganos, mas nos esqueçamos que são portugueses, como os meninos açorianos ou algarvios que também têm as suas especificidades.

Se houver respeito pelas suas individualidades, se a comunidade de origem cigana for convidada a ir à escola, da mesma maneira que todas as outras, para que lhes enalteçam o esforço que estes meninos fazem para aprenderem o que lhes é totalmente desconhecido, então teremos uma porta aberta para que os conflitos se atenuem, porque há respeito mútuo.

1 Comment

  1. Não existem “etnias ágrafas”, existe uma grande heterogeneidade (um doutorado, um Mestre, um Presidente de Câmara reeleito não são “ágrafos”; existem ricos, uma classe média de feirantes, os que vivem de expedientes, marginalizados, e os forçados ao nomadismo (sem acesso a habitação e forçados pela GNR a mudar de concelho todas as 24 horas) e uma longa história de racismo nacional (registado em toda a Europa do Sul) e do Leste), que convém não ignorar. E existe o racismo institucionalizado e ignorante, nem sempre subtil, a ciganofobia, da grande maioria do povo português, da Assembleia da República, dos autarcas, das polícias, da Igreja Católica e até mesmo do ACIDI. A experiência de uma dada relação escolar, vivida, não substitui a pesquisa e bibliografia (ignorada) não falta (por exemplo, dois livros de que sou responsável: “Sintrenses Ciganos”, Câmara Municipal de Sintra, 2007; Portugueses Ciganos e Ciganofobia em Portugal, Lisboa; Colibri e FCSH-CRIA, 2013).

Leave a Reply