Em página quase inteira do jornal O Globo da última terça-feira, 23 de setembro, lemos a notícia do discurso, na ONU, da jovem atriz inglesa Emma Watson, a conhecida “bruxinha” Hermione da série de filmes Harry Potter, que surpreendeu a muitos ao convocar os homens para o combate à desigualdade entre os sexos. No rodapé da mesma página, a surpresa era outra: Alunos daUniversidade Federal de Minas Gerais cantam música de apologia ao estupro e geram revolta. Isso levou a direção da universidade a afirmar em nota oficial que “desaprova qualquer tipo de comportamento discriminatório, seja ele de caráter machista, sexista, racista, entre outros que desrespeitem a dignidade humana.”
Também na semana que passou, tomamos conhecimento das trágicas mortes de duas mulheres que se submeteram a abortos clandestinos por não contarem com a assistência da saúde pública, tema que a campanha eleitoral deixou de abordar com a coragem necessária, a não ser pelos postulantes que não têm qualquer chance de chegar à presidência, como a candidata do PSol, Luciana Genro e o médico Eduardo Jorge, do Partido Verde. Este defende com veemência a descriminalização do aborto que, segundo ele, é praticado por 700 ou 800 mil mulheres, por ano, em nosso país.
Emma Watson convocou os homens na tentativa de incluí-los na luta pelos direitos das mulheres e nessa luta é oportuno lembrar que jamais são mencionados os homens na questão do aborto. Não me refiro aos médicos, mas aos parceiros sexuais das mulheres, aqueles com os quais elas deveriam contar na hora de escolher um método contraceptivo. A gravidez resulta de um ato de duas pessoas: de um homem e de uma mulher. Por que só ela continua a arcar sozinha com as consequências do descuido, do esquecimento ou do acidente causado pelo não uso ou falha do contraceptivo? Por que só ela é criminalizada? E onde está o homem nessa hora crucial em que a mulher se vê obrigada a praticar o aborto, uma decisão tão dolorosa em todos os sentidos?
Outra estatística estarrecedora no Brasil é a das mães adolescentes: chegam a meio milhão. Onde estão os pais que não esclarecem suas filhas e principalmente seus filhos, para que não sejam predadores sexuais, mas verdadeiros parceiros e amigos de suas namoradas ou parceiras eventuais. É preciso alertá-los porque como já disse um poeta, “nas profundezas tudo se torna lei” e as leis da natureza são fortes, inexoráveis. A educação sexual, temos repetido incansavelmente, é indispensável para que a vida se torne mais consciente, responsável, livre. Não pode haver liberdade na inconsequência, na irresponsabilidade.
Voltando, mais uma vez, à convocação da jovem Emma Watson, que se diz chocada ao ouvir dizer que “as feministas odeiam os homens”, nós que lutamos há mais de 30 anos, percebemos que apesar de tantas conquistas, o caminho continua longo. Discriminar a mulher é, queiram ou não, uma forma de racismo. E que é o racismo senão uma espécie de cegueira, uma incapacidade de ver a totalidade? Sim, porque ver o negro como negro e não como ser humano (por acaso de cor negra) é uma abstração muito pouco inteligente. Explico: a cor da pele é um mero pormenor de um ser humano igual a todos os outros seres humanos. Pensar no outro, definindo-o pela sua cor é não enxergá-lo além do que ele tem de mais superficial. Os sexistas também abstraem do ser humano mulher a sua própria humanidade. E convenhamos, não é sexista ou machista apenas aquele que espanca ou maltrata a mulher, é também o que tenta explicá-la para ela mesma e a inferioriza sistematicamente no plano psicológico, no tratamento condescendente ou patriarcalista, aquele que sem agredi-la, aparentemente, no fundo não a respeita como sua igual e isso transparece nas suas atitutes e no seu comportamento. Aristóteles e Santo Tomás acreditavam que a mulher é um ser inacabado. E Freud atribuiu a nós “a inveja do pênis”, sem perceber que sendo seres históricos, como os homens, aspiramos apenas à igualdade de oportunidades, aos direitos iguais e ao reconhecimento, pois somos todos semelhantes e equivalentes.