GIRO DO HORIZONTE – DA AULA MAGNA AO LICEU CAMÕES – por Pedro de Pezarat Correia

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No GDH anterior em que anunciava o meu regresso e me limitava a enunciar um elenco de preocupações que poderiam vir a ser objeto de abordagens futuras, incluí, entre estas, a profusão grupúscular à esquerda, uma genética atração para o abismo e à qual se deve, em grande parte, a persistência de uma política de direita, seguida mesmo quando os governos têm apoio maioritário do PS. Eu estava ainda a recompor-me dos traumas de um sábado, 4 de Outubro, fértil em manifestações desta penosa realidade. Fui convidado para algumas delas e, compareci naquelas em que me foi possível, para corresponder aos convites, para rever amigos e companheiros e, até, para procurar fazer uma avaliação da vitalidade atual destas iniciativas, das quais tenho andado relativamente arredado. Confesso que não fiquei confortado.

            Apetece-me recuperar algo do que, nestas páginas da nossa Viagem, escrevi no GDH de 8 de Outubro de 2012, há dois anos, a propósito do plenário do Congresso Democrático das Alternativas que, no anterior e emblemático dia 5 de Outubro, enchera a transbordar a imensa Aula Magna da Universidade de Lisboa, com milhares de pessoas irmanadas numa manifestação entusiástica com a perspetiva que se desenhava de um amplo espaço de cidadania em unidade. Não escondia o meu otimismo e salientava a aprovação da Declaração assente num compromisso que era uma mensagem de esperança. Nela se afirmava que o Congresso não encerraria os seus trabalhos e se manteria ativo até que tenham sido criadas as condições para que, através de um sufrágio antecipado, se inverta esta política de desastre, de sacrifícios iníquos e inúteis, substituindo-a por uma governação alternativa que contemplaria objetivos bem definidos. A denúncia e consequente renegociação do memorando com a troika para reestruturação da dívida, a promessa de uma estratégia de desenvolvimento sustentável assente na valorização do fator trabalho e na salvaguarda do ambiente, a defesa do Estado Social e, num quadro mais genérico, a requalificação da democracia política e a revitalização do regime democrático, soavam bem e vinham ao encontro das nossas ansiedades.

            No passado dia 4 fui encontrar um exíguo auditório do Liceu Camões em que eram mais as cadeiras vazias do que as ocupadas por algumas dezenas de participantes, que ouviam melancolicamente um conjunto de comunicações de indiscutível qualidade e oportunidade, mas que não tiveram qualquer eco para o exterior daquelas paredes.

            O que se passara nestes dois anos? Como foi possível que, apesar de uma política desastrosa de um governo que, para além de afundar o país com uma estratégia de desastre assumida, que fez uma opção ideológica pelo capital contra o trabalho, que esmagou a grande maioria dos portugueses com uma austeridade cruel, que alienou a soberania nacional, que vende ao desbarato o nosso património ao mesmo tempo que se alheia de implosões fraudulentas de grandes empresas de referência, que empurra centenas de milhares de compatriotas ativos para o desemprego e a emigração, que fomenta clivagens entre as diversas camadas sociais, que abafa o funcionamento da democracia com o parlamento subjugado às manobras do executivo, que tem ministérios paralisados pela incompetência e obsessão dos respetivos ministros e secretários de estado, que tem vários dos seus membros mais responsáveis envolvidos em suspeitas de comportamentos escandalosos e pouco éticos e que mentem, mentem, mentem reiteradamente, como é possível que perante esta política perseguida por uma maioria de direita, a esquerda passasse da esperança convergente da Aula Magna à deceção residual do Liceu Camões?

Pelo caminho esfumou-se aquele grito de cidadania que, sem qualquer sinal de saudosismo passadista mas com os pés bem assentes na realidade atual e os olhos apontados para o futuro, atraíra militantes de todos os partidos de esquerda representados no parlamento, PS, PCP, BE e PEV, mas também outras forças políticas e muitos democratas sem partido, sindicalistas e estudantes, reformados e trabalhadores dos mais diversos ramos de atividade, intelectuais e militares de Abril, motivados para resgatar Portugal. Afinal, contrariando esta proposta de convergência, surgiram e multiplicaram-se divergências, culminando no anúncio de novos partidos sempre identificados com protagonismos pessoais. Anunciava-se o congresso do Livre centrado em Rui Tavares, a formação do Partido Republicano Democrático encabeçado por Marinho e Pinto, a provável emergência de um partido onde pontificarão Ana Drago e Daniel Oliveira. Do que restava no Liceu Camões pairava uma tendência que poderá estar na base de novo partido à volta de Carvalho da Silva.

E, afinal de contas, o que é que, no fundo, distingue e afasta os seus projetos políticos, uns dos outros e dos partidos com que rompem, o que é que ideologicamente justifica e torna inevitável a rutura, para além de eventuais ambições pessoais e alguns conflitos de personalidades? Não se sabe, nem se vê.

Então o que é que, verdadeiramente, os move? Ah, isso, eles dizem. Unir a esquerda!!!

13 de Outubro

3 Comments

  1. Falta uma liderança que una num COMPROMISSO HISTÓRICO os Partidos de Esquerda que nele se revejam e mais os Partidos emergentes – um COMPROMISSO de Projectos, Ideias e Líderes. Acontece que essa Liderança não só não surgiu como se mantiveram os ataques e acusações mútuas, e não há vislumbres de qualquer COMPROMISSO HISTÓRICO. A ‘democracia’ partidária está a dar cabo da DEMOCRACIA enquanto Projecto de Libertação das Escravaturas Financeiras, Militares e Geo-estratégicas conduzidas pelas Elites Anglo-Americano-Israelitas (para não dizer judaicas, mas os Rhostchild e outros mega-banqueiros são judaicos, não são israelitas). Não há que haver um Governo que inclua todos os candidatos a Governantes e todos os Partidos de Esquerda: há que haver um COMPROMISSO ENTRE O PS e aqueles Partidos e independentes que tragam propostas credíveis e realizáveis e não utopias saídas de leituras livrescas do Marx do século XIX. Dis-me uma deputada do Bloco que se governam por Princípios: são, pois Kantianos. Se vivessem no século XXI orientavam-se por OBJECTIVOS convergentes com as NECESSIDADES DE DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO (o que exige profundas transformações no mundo do trabalho, tecnologias avançadas e alianças na exportação para grandes mercados como os dos BRICS (a China, a Índia, a Rússia, o Brasil, etc.), com as EXIGÊNCIAS DE JUSTIÇA SOCIAL, com o fortalecimento do ESTADO SOCIAL, e com o contrôlo das negociatas corruptas (médico-farmacêuticas, da construção, militares, etc.) que exigem NOVAS LEIS E NOVOS PROCEDIMENTOS JUDICIAIS, céleres e drásticos: de um ponto de vista colectivo, OS CRIMES ECONÓMICOS SÃO OS MAIS GRAVES DE TODOS OS CRIMES (mais graves do que os crimes de sangue) e devem ser punidos enquanto tal. E o envolvimento de decisores e de políticos em crimes económicos é uma agravante, não uma ‘fatalidade’.

  2. Não acredito nestes politicos, eles dão-se muito bem lá em casa “PARLAMENTO” . 5 de Outubro já passa despercebido e ao 25 de Abril pode acontecer o mesmo, por vontade destes neoliberais.

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