MITO&REALIDADE – TERROR E MORTE EM LISBOA – 8 – por José Brandão

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A tarde estava a findar: pouco faltava para as seis horas Cunha Leal, Carvalho Santos e António Granjo tomaram como assente, pelo menos, a vinda do capitão Sousa Guerra. A aparecer Afonso de Macedo ou Virgílio Costa, confessar-se-ia a presença de Granjo e procurar-se-ia resolver a sua situação com a permanência dele ali e o seu compromisso de não hostilizar a revolução. Quando se falou nisso, o presidente do Ministério demissionário teve esta frase:

– Como é que eu, honestamente, poderei dar ordens ou fazer qualquer coisa?

O tempo corria com uma lentidão desesperadora. Era preciso entretê-lo. António Granjo contou o que havia acerca de Macau, explicando a atitude das potências. Depois, falou largamente sobre a crítica situação do tesouro. Enquanto falava, um dos filhos de Cunha Leal, o Zeca, brincava com ele, cabriolando por entre as suas pernas, O pai repreendeu-o, motivando as palavras seguintes, que definem um estado de alma:

– Deixe o garoto. Neste momento sinto uma grande necessidade de um pouco de carinho…

Chegou a hora de jantar. António Granjo foi lavar as mãos a um aposento cuja porta se abre para o corredor da entrada. Uma campainhada. Cunha Leal abriu a rótula e viu um cabo da GNR que lhe disse:

– Meu capitão, sou muito seu amigo. Queria evitar-lhe qualquer desgosto. Se o meu capitão quisesse, nós combinávamos a forma de entregar o Sr. Dr. António Granjo sem que ele suspeite disso…

– Parece impossível existir alguém que faça uma proposta dessas a um homem de honra. Isso não fica bem a uma criatura que veste uma farda! Isso é uma indignidade!

António Granjo, que apanhara a última frase no ar, perguntou, surpreso, a Carvalho Santos:

– Que indignidade seria aquela?!

O jantar, triste jantar de anos, ia começar. Antes, Agatão Lança perguntou telefonicamente o que havia. Cunha Leal respondeu-lhe:

– Julgam que eu tenho alguém escondido em casa e querem assaltá-la. Convinha-me a sua presença, já que eu, sem vir um oficial com mais galões do que os meus, não abro a porta.

Mas ouça: quer que eu vá já ou depois de jantar?

Agatão Lança ficou indeciso, porque Cunha Leal, inteligentemente, não deixara perceber, pelo telefone, do que se tratava.

A refeição decorreu animada. Contaram-se episódios revolucionários. Cunha Leal descreveu o assédio de Santarém. Carvalho Santos, perseguições do Dezembrismo. António Granjo também teve que contar. Riu-se, mas as gargalhadas tinham um som de moeda falsa. A certa altura, Cunha Leal, voltando-se para o leader liberal, disse-lhe:

– Você sabe? Minha mulher faz hoje anos.

Granjo fez uma vénia. Esteve silencioso um segundo. Depois, comentou, confrangido:

– Ora veja, Leal. Uma festa que você quereria fosse alegre, venho eu transformá-la num jantar fúnebre…

Brindou-se pela esposa de Cunha Leal, por António Granjo e pela República. Entretanto, entrava-se na noite. Reparou-se em que o capitão Sousa Guerra ainda não chegara, apesar de já terem decorrido duas horas desde que com ele se comunicara telefonicamente. Carvalho Santos sugeriu:

– Como o Guerra não aparece, vou eu ver se consigo falar com alguém da Junta, para arrumar isto de vez.

O alvitre foi aprovado. Carvalho Santos despede-se. Também ele é mordido pelo pressentimento das horas sangrentas do Arsenal:

– Bem, adeus, doutor. Ou até logo ou… eu sei lá até quando.

ISTO TUDO É POR ELE LÁ TER O GRANJO

Era já de noite, Carvalho Santos não viu ninguém. Reinava o maior sossego nas ruas vizinhas e até a porteira o avisou «de que os do cerco já se tinham ido embora». Avenida abaixo, ainda procurou tomar contacto com qualquer força que policiasse as imediações da residência do Sr. Presidente da República. Mas o Dr. António José de Almeida estava abandonado e à sua porta não havia sequer uma patrulha a garantir-lhe a vida. Em volta, era tudo uma grande massa negra de trevas; para as bandas da Rotunda, ouviam-se tiros isolados. Ficou indeciso. Chegou a falar ao telefone com Cunha Leal, comunicando-lhe que o perigo tinha passado, mas, depois do diálogo, reconsiderou e prosseguiu sempre na expectativa duma descarga dada a qualquer esquina, a caminho do arraial dos revolucionários desmandados.

No caminho apareceu um oficial. Pediu-lhe indicações e lá prosseguiu a marcha até encontrar a primeira linha de vedetas, que, dificilmente e após demoradas negociações, conseguiu forçar. Galgadas as terras do Parque, pouco lhe custou chegar às primeiras instalações do acampamento. Ali logo logrou falar com o capitão Martins, que não pôde providenciar por lhe ser impossível sair do local. Mas, dando-lhe um soldado por guia, mandou-o para o Quartel das Metralhadoras, onde funcionava a Junta. O capitão Loureiro, que dela fazia parte, atendeu-o. Homem cheio de rudeza objetou logo às primeiras palavras de Carvalho Santos:

– Está bem. Você tem razão. Mas isso tudo é por ele lá ter o Granjo… As tropas ainda nós aguentamos, mas os civis é o diabo. O melhor seria o Granjo concordar em vir para aqui, por exemplo, passando-se depois a busca à casa de Cunha Leal.

– Sim, mas isso é na hipótese de lá estar o Dr. António Granjo. Mas é que não está. O Leal até deseja que fosse lá alguém da Junta.

– Pois bem. Irei eu.

O capitão Loureiro desapareceu para só reaparecer daí a três quartos de hora. Não teve uma palavra para Carvalho Santos. Dirigiu-se para um automóvel e, só quando este já estava em andamento, é que o chamou:

– Olhe, venha atrás de mim.

Carvalho Santos teve de correr um bom bocado para agarrar o auto. Quando chegaram à porta de Cunha Leal, havia um outro em que se encontravam Agatão Lança, Afonso de Macedo e Jacinto Simões.

– Oh Lança, que é isto?

E o bravo oficial de Marinha, que só ao fim de imensos trabalhos conseguiu arranjar um meio de transporte, respondeu laconicamente:

– Já levaram o Granjo e o Leal para baixo num camion.

AINDA BEM, QUE É PARA LHE RECUSAR

A MÃO PELA SEGUNDA VEZ

Que sucedera? Pouco depois de sair Carvalho Santos, o guarda-portão do prédio, um homem chamado Costa, subiu a escada de serviço e veio dizer a Cunha Leal:

– O guarda da casa do Sr. Dr. António Granjo manda dizer que nas traseiras não há, agora, ninguém. Talvez a ocasião fosse boa para tentarmos passar o Sr. Presidente para qualquer casa.

– Desconfio disso – respondeu aquele parlamentar. – Andam obras na vizinhança e podem estar metidos nalgum esconderijo. Você vai pôr-se em observação. Se não notar, de facto, movimento nestas duas ou três horas mais próximas, venha dizê-lo.

E, já dentro de casa, disse a António Granjo:

– Eu dei esta resposta, porque desconfio de tanta fartura.

De facto, no dia imediato, o porteiro contou a Cunha Leal que, mal descera a escada, vira um indivíduo acocorado, com a espingarda pronta a fazer fogo.

Eram oito e três quartos. Apresentou-se um guarda-marinha chamado Benjamim Pereira, que, poucos dias antes, procurara Cunha Leal, a fim de obter a intercessão de António Granjo junto do ministro da Marinha para terminarem as perseguições de que dizia ser vítima na corporação. Introduzido na sala de visitas, ele apresentou os intuitos da sua vinda da forma seguinte: estando junto do major da GNR Arez e do capitão Sousa Guerra, ouvira pedir licença para assaltarem a casa de Cunha Leal e para matarem o Granjo. Invocava, pois, a sua amizade pelo antigo deputado popular e a circunstância do favor pedido ao presidente do Ministério para explicar a sua presença ali. Estava na intenção de evitar qualquer desacato de que resultasse a morte do leader liberal e vinha propor que o deixassem sair com ele, pois a sua honra responderia pela conservação dessa vida. Iria António Granjo para bordo do Vasco da Gama, onde permaneceria alguns dias, mas nunca na situação de preso.

O capitão Cunha Leal respondeu, pouco mais ou menos, da maneira seguinte:

– Eu acredito na palavra de honra de toda a gente. Mas não quero que António Granjo possa supor que o conselho que eu lhe der de seguir as indicações do Benjamim signifique o desejo de o pôr fora de casa, livrando-me assim de um hóspede incómodo. Portanto, exijo de você que me deixe acompanhar o presidente do Ministério, sujeitando-me a tudo por que ele passar. E, se o Benjamim, depois de prometer que nunca me separará de António Granjo, faltar à sua palavra, obrigar-me-á a queimar os miolos com uma bala.

Benjamim Pereira mostrou-se conforme com quanto ouvira. Cunha Leal foi, sozinho, informar António Granjo do que se passava, pedindo-lhe este que o não acompanhasse. Durante a ausência do seu hospedeiro, dissera para uma irmã, que nesse dia estava em casa:

– Se ao menos me deixassem ficar aqui preso, em casa do Leal…

Apresentado o guarda-marinha ao chefe do Governo demissionário e sendo-lhe oferecida uma chávena de chá e um cálice de licor, que não aceitou, aquele perguntou-lhe:

– Há alguém a bordo do Vasco da Gama que me conheça? Benjamim Pereira citou alguns nomes, entre eles o de Procópio de Freitas, observando-lhe Cunha Leal:

– Ainda bem que é para lhe recusar a mão pela segunda vez.

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