Embora a Grande Guerra fosse um choque de impérios[1], para os Aliados ela podia passar por justa, em particular para os franceses, porquanto a Prússia invadira a França em 1870, ocupara a Alsácia e a Lorena, voltaria a invadir a sua terra; tratava-se de a defender. Mas Portugal travava então outros combates: não menos decisivos para o nosso futuro. A república fora implantada quatro anos antes, o país encontrava-se dividido e endividado, não havia indústria nem agricultura produtivas, o povo sofria com fome, andava roto e descalço, não tinha escolas nem hospitais nem água potável… E o País não possuía armas modernas, nem sequer de meios de transporte: o C.E.P. embarcou em navios ingleses e combateu com armas inglesas.
Aquela era uma guerra de superpotências e Portugal não fazia parte do clube; por outro lado a vitória dos Aliados também não dependia do nosso Corpo Expedicionário maltrapilho, esfomeado, abandonado… Afonso Costa e Bernardino Machado limitaram-se a fornecer aos ingleses carne portuguesa para os canhões alemães. Limitaram-se a enviar concidadãos para o “açougue”[2] – palavra que um revoltoso emprega. Com isto pouparam decerto milhares de vidas inglesas… Very nice men.
Luís Alves de Fraga enumera seis razões que poderão ter conduzido o governo a entrar na Grande Guerra[3].
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Defesa das colónias que tanto os ingleses como os alemães cobiçavam. (Tinham, antes da Guerra, assinado um pacto para a partilha de Angola e Moçambique.)
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Redução do espaço de manobra da Espanha na anexação de Portugal ao seu território.
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Legitimidade do regime – república recente – perante as monarquias europeias.
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Hegemonia do Partido Democrático (Afonso Costa) resultante da união dos portugueses perante um inimigo externo.
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Posicionamento em relação à Grã-Bretanha (que exercia um domínio – apresentado como “aliança” – político, diplomático e económico em relação a Portugal).
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Aumento das trocas comerciais com os Aliados.
A maioria destas razões parece-me contudo discutível:
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Enviando mais de 55.000 homens para a Flandres, o Governo reduzia a capacidade de defesa na África; por outro lado, mantendo-se neutro, teria podido negociar com os seus dois adversários: Alemanha e Grã-Bretanha. Sabemos hoje que, se perdesse Angola e Moçambique, Portugal poupava uma guerra colonial: segunda geração de rapazes não sacrificada. Afonso Costa não podia adivinhar que, sessenta anos mais tarde (entre os quais doze de uma guerra com milhares de mortos, deficientes, traumatizados), Portugal daria independência às colónias, mas conhecia de certeza esta realidade: o País não dispunha então da logística nem da finança necessárias para entrar na Grande Guerra.
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Os milhares de mortos na Grande Guerra modificariam o apoio à Espanha se este país ocupasse Portugal? Interrogação ingénua. Em tais circunstâncias apenas contam os interesses económicos e geo-estratégicos de cada estado; e a perda da soberania portuguesa interessava à Inglaterra que, a partir dali, mais facilmente se aproveitaria das nossas colónias.
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Que importa a etiqueta – monárquica, republicana – de quem lança o País numa guerra desnecessária e mal pensada? Para quê ter direitos teóricos e ser levado para o “açougue”? Para quê uma república que não dê prioridade às condições de vida do cidadão (Sérgio Godinho viria a enumerá-las: paz, pão, habitação, saúde, educação)?
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Cálculo errado. Terá sido a motivação principal, mas obteve o resultado inverso: o descontentamento gerado pela guerra contribuiu para a queda da 1ª república.
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Com efeito a participação na Grande Guerra através de um Corpo Expedicionário Português subordinado ao 1° Exército Britânico representou uma escandalosa submissão à Grã-Bretanha.
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As trocas comerciais podiam do mesmo modo intensificar-se caso Portugal mantivesse a neutralidade.

