Hoje um aparelho lançado por uma sonda espacial atingiu um cometa, algures entre a Terra e Marte. Trata-se de um notícia que julgamos importante, pois não nos inscrevemos entre os que acham que a exploração espacial é uma fantasia, ou uma inutilidade. Valorizamos o esforço feito para se chegar até aqui, reconhecemos a importância do conhecimento que foi preciso adquirir e pensamos que é preciso continuar e ir mais longe neste capítulo.
O que lamentamos é que noutros campos da vida humana não se façam avanços semelhantes. A começar pela saúde, onde todos os dias se esbarram com factos que levantam dúvidas sobre se se está a fazer tudo o que é possível para ultrapassar grandes flagelos como a malária, a tuberculose e outras doenças que atingem grande número de pessoas. A pouca resposta à epidemia de ébola, uma ameaça terrível já reconhecida há várias dezenas de anos, e entre nós, a insegurança que se percebe em quem está envidando esforços para combater o surto de legionela, demonstram bem a pouca importância que tem sido dada a este capítulo, a não ser quando se proporciona a obtenção de lucros por determinadas entidades, que exercem forte influência sobre governos e organizações internacionais. Mas não se fica por aqui. A questão da Palestina ameaça reacender-se novamente, e noutros lados do mundo, como no Sahara Ocidental (aqui perto de nós), continuam a haver povos oprimidos. Litígios como os da Coreia, de Cachemira, da Ucrânia e da Irlanda do Norte perduram, sem que se possa formular uma ideia mínima sobre quando terão fim. A Europa está numa curva descendente, o fanatismo religioso cresce em várias partes do mundo, a corrupção, apesar de muito falada, cresce, e a pobreza aumenta, derivada de políticas ditas de austeridade, mas que se sabe visarem na realidade a defesa de interesses sectoriais. Entretanto, passou mais de ano e meio sobre a catástrofe do Rana Plaza, que causou mais de 1100 mortes, e afectou a vida de dezenas de milhares, sem que vítimas e suas famílias sejam indemnizadas devidamente, e continuando a persistir a ameaça de catástrofes semelhantes, não só no Bangladesh, como em muitos outros países (propomos que vejam o link abaixo).
Seria talvez esta a visão de Francisco de Quevedo (1580 – 1645), quando compôs o poema Juicio moral de los cometas, que nos permitimos, nesta época de incertezas, apresentar aqui, pedindo a vossa compreensão, com uma palavra especial para os nossos amigos do reino espanhol:
Ningún cometa es culpado
ni hay signo de mala ley,
pues para morir penado,
la envidia basta al privado
y el cuidado sobra al rey.
De las cosas inferiores
siempre poco caso hicieron
los celestes resplandores;
y mueren porque nacieron
todos los emperadores.
Sin prodigios ni planetas
he visto muchos desastres,
y, sin estrellas, profetas:
mueren reyes sin cometas,
y mueren con ellas sastres.
De tierra se creen extraños
los príncipes deste suelo,
sin mirar que los más años
aborta también el cielo
cometas por los picaños.
El cometa que más brava
muestra crinada cabeza,
rey, para tu vida esclava,
es la desorden que empieza
el mal que el médico acaba.

