DE BRUXELAS, ONDE REINAM A IGNORÂNCIA E A MALDADE, À REALIDADE DOS PAÍSES EM IMPLOSÃO – 5. SE A COMISSÃO RETOCASSE O ORÇAMENTO DE 2015 DA FRANÇA, por CORALIE DELAUME

Falareconomia1 

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

europe_pol_19935. Se a Comissão retocasse o orçamento de 2015 da França

 

Coralie Delaume, Si la Commission européenne retoquait le budget 2015 de la France….

Blogue L’Arène Nue, 6 de Outubro de 2014

commission-européenne

 

Outrora, dizia-se  que o consentimento ao  imposto era o princípio da democracia. Da mesma forma, nesses tempos recuados, enquanto  se  andava ainda a  cavalo, os príncipes encantadores lutaram ainda contra os dragões e utiliza-se  a rede  Minitel para dragar  on-line, muitas pessoas acreditavam que a votação do orçamento do Estado  era  uma das principais prerrogativas dos representantes da nação, ou seja, do Parlamento.

Mas isso, como se pode agora dizer, era  dantes.

Agora é diferente. Modernizaram-se estas velhas práticas  porque  com elas já se sentia o pó assente em camadas.  Estas práticas não eram muito divertidas,  não eram muito wizzz, elas não eram muito « my government is pro-business ». Por acaso, veio a União Europeia, que nos ajudaram a pôr fim  a estes factores de rigidez.

O six-pack (oh sim) e  two- pack (come on babe) são uma série de textos aprovados pelo Parlamento Europeu em 2011 e 2013, e que em grande medida aumentaram as prerrogativas da Comissão Europeia em matéria orçamental. Na base destas  directivas e regulamentos, esta Comissão pode agora  projectar o seu olhar aveludado de jovem corça  sobre os  projectos de lei de finanças dos  diferentes Estados Membros, mesmo antes de tais  projectos serem  examinados pelos parlamentos nacionais. Isto é, cada um fique com as suas duvidas ou certezas,  trata-se aqui de  um grande passo a favor da “democratização das instituições europeias”  e ” da aproximação entre a União e os cidadãos”’ tudo isso sendo bastante desejado pelos defensores de  Bruxelas.

É este o  joguinho  pouco intrusivo que actualmente pratica  a Comissão. E é na base destes poderes a brilharem de novinhos em folha que, dizem-nos, ela deve exigir à França que:

– corrija  o seu projecto de orçamento,

– na ausência de resposta,  pague  uma multa  de 4 mil milhões de euros,

– e, finalmente, pan – pan,  cucu, um supositório e fazer ó-ó.

Felizmente, em termos de afronta, a França tem podido beneficiar de um treino preventivo feito à medida: primeiro teve que implorar para conseguir colocar  um francês – Pierre Moscovici – numa pasta económica no actual executivo europeu. Depois teve  que aceitar que este seja ladeado por dois   superiores hierárquicos (1), ambos conservadores e, respectivamente, dos países bálticos e do norte da Europa. A França talvez o venha a ver a reajustar-se,  apesar de tudo, depois deste se ter prontificado a uma audição face aos deputados do Parlamento europeu considerada pouco convincente por estes. .

Naturalmente, isto não passa de ninharias em comparação com o impacto que teria uma  censura do projecto de lei de finanças, sendo certo que esta seria caracterizada como uma violação das prerrogativas do Parlamento francês. Que este projecto seja  tácita e antecipadamente aceite e por todos, e o facto de que não nos lembramos de alguma vez ter ouvido algum  protesto contra a adopção dos packs  Six e Two,  não muda nada a esta questão. A humilhação seria total.

Acima de tudo, seria uma magnífica  prova da aplicação da regra “dois pesos, duas medidas” quanto à forma como  os peritos contabilistas  de Bruxelas conduzem as suas expedições punitivas. Com efeito, a Comissão não pretende punir apenas os défices, mas o conjunto de todos os  desequilíbrios macroeconómicos. Os excedentes excessivos obviamente pertencem a este conjunto uma vez que eles também contribuem para desestabilizar a economia da zona  euro. Em princípio, é pois proibido, portanto, a  um país membro apresentar um saldo nas suas contas  externas atuais superior  a 6% do seu PIB durante  mais de três anos.

Um país, no entanto,  não tem respeitado esta regra, na maior das alegrias  e desde há muito tempo. Trata-se, é claro, da Alemanha, que detém – à frente ainda da  China – o recorde dos  excedentes comerciais no mundo e que deverá apresentar  um excedente actual na casa dos  7,2% do PIB este ano. Um valor que alarma muitas pessoas porque os Estados Unidos se mostraram muito sensibilizados já em 2013, seguido depois  pelo Fundo Monetário Internacional. Até o austero Presidente do o Banco Central alemão, Jens Weidmann, parece ter defendido uma vez que se deveria “alisar”  a competitividade relativa alemã,  pois  que ele próprio  propôs em Julho passado que os salários alemães fossem aumentados de  3% no seu país.

A Comissão Barroso, por sua vez, considera de um modo  furtivo  aplicar  sanções contra Berlim. Desde então, não há notícias, ao ponto de sentirmos  necessidade  de nos atrevermos a esta questão:  “onde estão, as sanções, onde estão?

Chatice,  não podemos ter nenhuma dúvida  de que Jean-Claude Juncker, que deve o seu cargo de Presidente  da Comissão a Angela Merkel, tal  como já lhe devia também a possibilidade  de ter sido candidato (2),  se aventure a abrir este espinhoso dossier. E nós questionámos-nos  novamente: onde está a imparcialidade, onde está ela?

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1. Os dois superiores hierárquicos de Pierre Moscovici são o Finlandês Jyrki Katainen, doravante Vice-Presidente da Comissão encarregado do emprego e do crescimento, e o Letão Vladis Dombrovskis, Vice-Presidente encarregado do euro e… do diálogo social (se, se….).

2. Angela Merkel primeiramente  impôs  que Jean-Claude Juncker seja o candidato do PPE ao cargo de  Presidente da Comissão porque não queria de modo nenhum  Michel Barnier. Impôs, em seguida,  que Juncker fosse efectivamente  nomeado, apesar da violenta oposição da Grã-Bretanha.

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Ver o original em:

http://l-arene-nue.blogspot.fr/2014/10/si-la-commission-europeenne-retoquait.html

 

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