A política de desenvolvimento de Portugal nos últimos 40 anos tem um rumo certo, ao contrário do que dizem alguns críticos. A partir da implantação do novo regime em 25 de novembro de 1975, após o período transitório de 18 meses a que chamaram depreciativamente «o PREC», os dirigentes democráticos souberam sempre para onde iam e os objectivos que prosseguiam. É aqui que estamos e foi aqui que eles deliberadamente quiseram que chegássemos.
Pode ser de difícil compreensão para um observador estrangeiro que os portugueses se mantenham tão alheios e discretos sobre a data que a historiografia oficial apresenta como a do ato regenerador da verdadeira democracia, do progresso, da vitória dos mercados sobre o perigo comunista, a data em que as genuínas forças livres salvaram a pátria da ditadura de sentido contrário à anterior, como se dizia na altura. O 25 de novembro é, na verdade, para o bem e para o mal a data da fundação do actual regime. Devia ser condignamente celebrado. As causas da apagada e vil tristeza em que é vivido o dia maior do regime deviam merecer uma reflexão. Elas revelam a nossa identidade. Aqui vai a minha modesta contribuição. A de um reconhecido vencido.
Em primeiro lugar, a ausência de celebração confirma, na minha opinião, que somos um povo macambúzio, cheio de pudores, de reservas de intimidade, pouco dado a manifestações exuberantes, incluindo na cama. Estudos credíveis (garanto eu) de sexologia revelam que, para os portugueses, em termos eróticos, a importantíssima data do 25 de novembro é idêntica à da primeira ejaculação nocturna para os homens e da primeira menstruação para as mulheres: eles e elas sabem que nesse dia ganharam outra condição, a de procriadores, mas não andam pelas ruas a celebrá-la aos gritos, com bandeiras, discursos e feriados, que podiam ofender os paizinhos e, neste caso, a Alemanha.
A segunda causa para o apagamento do 25 de novembro como dia nacional tem a ver com a nossa vetustez. (Gosto da palavra vetusto.) Ora, Portugal é uma nação vetusta, respeitável pela idade. A idade traz sabedoria. A vetustez deu aos portugueses uma sabedoria histórica. Os portugueses reconhecem que o seu presente, por mais extraordinário que apareça numa esquina do presente, é sempre o resultado de um sem fim de velhas e experimentadas soluções. Nada aqui acontece de verdadeiramente novo. Não custa por isso admitir que para os portugueses o 25 de novembro de 1975 transmita a ideia do déja vu. Os heróicos dirigentes da nova democracia trouxeram-lhes a mesma ideia de grandeza e progresso dos velhos aristocratas: é pela riqueza da corte e dos cortesãos que se vê a grandeza do reino! Aí temos uma carrada de novos ricos do 25 de novembro, é só fazer correspondências com nomes badalados do comércio aos tribunais, da banca aos offshores, e encontramos com facilidade novos Braancamp, Sobrais, Cadavais, Carias, Farrobos, como os do tempo da regeneração, do cabralismo. Aí temos a nova velha Sociedade Lusa de Negócios, a SLN, mãe do BPN, o banco dos novos barões, como imagem de marca do novo regime!
Em terceiro lugar, o 25 de novembro é, para os portugueses, uma fatalidade, o que muito bem se coaduna com a sua índole, como escreveriam os românticos do século XIX. O 25 de novembro resulta de um fado antigo. Não se pode fugir ao destino. Após um tempo de excesso, que ganhou em Portugal a designação que devia ser patenteada de PREC, vêm do estrangeiro tropa e ordens para os portugueses se manterem na ordem e portarem bem. E eles aceitam com mansidão. Vem um cônsul do império e as elites locais reúnem-se à sua volta, em vénias e de mão estendida. Na idade contemporânea, foi assim com Junot na invasão francesa, foi assim com Beresford na ocupação inglesa, foi assim com Carlucci, o embaixador americano, na normalização de 25 de novembro de 1975. Os portugueses entendem estas vindas como normais, não sofrem de frémitos de orgulho ofendido. São tão avessos ao conceito de desonra como de glória. Têm a sabedoria dos velhos, a da resignação. Acabou-se o «preque» é uma frase politicamente correta desde o 25 de novembro de 1975. Os pais gritam-na aos filhos traquinas. Os patrões aos empregados sindicalizados. O governador do Banco de Portugal gritou-a ainda há pouco ao doutor Ricardo Espirito Santo, por exemplo.
Por fim, e em resumo, o 25 de novembro é uma vulgar data de outono e o outono vai bem com a alma dos portugueses, o céu é cinzento, as árvores desfolham-se, as pessoas esfregam as mãos, encolhem-se, batem com os pés no chão para os aquecer; os que podem comem castanhas e bebem água-pé. Excelentes condições meteorológicas para os portugueses desabafarem: é assim… eles é que sabem… o que se há-de fazer?
O azar, o único azar do 25 de novembro, foi não ter calhado a 11 de novembro, o dia do velho São Martinho… mas nessa data havia a independência de Angola… e essa era a causa que tudo ofuscava, não era? Os executores nacionais do 25 de novembro não podiam celebrar ao mesmo tempo o São Martinho, obedecer aos seus longínquos grandes senhores, deixando-lhes Angola para se entreterem, e mandarem o Jaime Neves enterrar o dito «preque» da desordem interna. Para o magusto que se pretendia realizar eram castanhas demais ao lume.


Nada como um observador externo, é da sociologia.
Para mim, é mais da natureza humana, que até inventa ideologias transitórias, ideais, no princípio era o verbo, para logo as colocar ao serviço dos mais ‘empreendedores’.
Tipo ‘porreiro pá’: no Circo de S. Bento, ou nas semanas curtas em Bruxelas.
“O quinto império”
Mal chegou, Clément compreendeu a razão de ser de Portugal, precisamente a de não ter nenhuma (39)
… nós somos púnicos, parecemo-nos com os mercenários de Amílcar e todos esses matreiros do mediterrâneo. Nós somos girinos… (49)
Em português, as palavras são um simples meio de simpatia, ou o seu contrário. As pessoas perdem assim horas em conversas inúteis, só com o fim de garantir a sua estima recíproca (95)
Como bom português, sentia-se fascinado pelo desastre e caminhava para o abismo (118)
Um conquistador não é um promovido pela antiguidade e pelos concursos; Filipe Pétain não teve ânimo para ir a Argel em 1942, Kaúlza para mandar a barraca aos ares em 1973. O poder exige uma alma de Al Capone, sem rei nem lei (178)
As revoluções, quem quer que sejam os seus autores, não mudaram nada. Conduzem aos mesmos abismos. A dificuldade é mudar o homem (192)
Uma das particularidades portuguesas: o gosto da pequena polícia, a que mantém relações sentimentais como povo. A sua arte de bisbilhotar, de procurar por trás, de inventar razões e causas, a um tempo teima de funcionário e regressão à inteligência infantil. Ou bem que os portugueses não fazem nada, ou bem que vão até ao último pormenor e, chegados aí, largam tudo como de costume (196)
Cada cinquenta anos, o país sonha ser a primeira sociedade liberal avançada do mundo. Cada cinquenta anos, o libertário volta à superfície. Procura-se então um banqueiro ou um professor de economia capaz de casar meio século de bordel com O Espírito das Leis (223)
Sem endereços e todos com o mesmo nome, obedecendo a dois ou três pequenos princípios, entre os quais o de inventarem títulos… (302)
As revoluções, quem quer que sejam os seus autores, não mudaram nada. Conduzem aos mesmos abismos. A dificuldade é mudar o homem (192)
Dominique de Roux (1977, Paris)
PS: em verdade verdade, sem ‘celebração’; na calçada da Ajuda, Regimento de Lanceiros, a fechar em Janeiro 2015 dC; com os chefes dos indígenas incapazes de ali criar uma Polícia Militar das FA, a PM para o campus da Amadora.
Boa celebração de Novembro.
Naturalmente falidos, mas com os eleitos a bom recato: Bruxelas, Luxemburgo, Suiça, ilhas Man and so on.
Lamentável, o insucesso transitório, dos empreendedores das vitalícias. Viva Couto Zapata Lello.
Gosto do texto. Para o ler já valeu ter escrito o meu.
A minha inimizade para com o 25 de Novembro obriga-me a festejar o texto, aliás excelente, dos “Biscates”. Com o 25 de Novembro matou-se uma experiência sócio-política inédita e com pernas para andar – foi o que assustou os donos do mundo – para optar-se por um rumo cujos resultados mais indesejáveis, agora à vista, foram antevistos – só não viu quem não quis – logo no inicio desta caminhada “musculada” para, triste fim, acabar-se, como estamos, um Povo colonizado e sem ver, dentre quantos devem, quem queira dar um passo libertador. CLV