
A “PESTE GRISALHA” E A “PROPOSTA” DE JONATHAN SWIFT, por Luís Reis Torgal
Para o meu amigo Dr. Fernando Martinho, humanista e um dos mais experientes e melhores cirurgiões dos hospitais de Coimbra, que, numa sessão comemorativa da Casa dos Estudantes do Império, criticou a leviandade de quem intitula de “peste grisalha” as mulheres e os homens da nossa geração
Só agora — em intervenções em colóquios e em sites — se ouviu falar (pelo menos foi o meu caso) de um artigo do jornal I, publicado no já longínquo dia 10 de Janeiro de 2013, intitulado “Portugal de cabelos brancos”, em que o seu autor, um deputado do PSD, Carlos Peixoto, decidiu falar sobre a importância do debate acerca do problema da natalidade reduzida que se verifica em Portugal e que o vai transformando a pouco e pouco num “país de velhos”. Acabei de ler o texto.
O jovem advogado ou apenas talvez licenciado em Direito (não sei que causas defende, além das causas do seu partido, e em que Universidade se formou) usou então uma expressão infeliz, cuja autoria inicial desconheço. Falou então da “peste grisalha” (sem aspas) para se referir, como se disse, aos idosos em excesso existentes na sociedade portuguesa, com absoluto desrespeito, pelo menos aparentemente (na sua retórica governamental, nem terá notado talvez o seu lamentável lapso), pelas gerações mais velhas, aquelas que lutaram para que seja deputado de uma democracia (em crise) ou, pelo menos, aquelas que viveram com sacrifício o tempo do autoritarismo do Estado Novo, entre as quais as que sofreram a longa guerra colonial. Alguns milhares nem chegaram a ver o 25 de Abril, trespassados por uma bala ou atingidos por um estilhaço de granada ou pelo rebentamento de uma mina dos movimentos que, legitimamente, lutavam pela independência, ou por um qualquer acidente frequente nas picadas de África. Esqueceu-se também que essas gerações “grisalhas” — com exclusão daqueles que se aproveitaram de momentos e leis propícias para se reformarem ou aposentarem com poucos anos, num oportunismo inqualificável ou discutível — trabalharam muitos anos (30, 40, 50), dedicados à causa pública (mesmo trabalhando em empresas privadas), descontando para as respectivas caixas, com a garantia de que receberiam uma pensão que lhes possibilitasse ter uma vida descansada.
Mas isso não importa a alguns governantes e deputados, sobretudo àqueles que viveram sem dificuldades ou têm a garantia de que a sua carreira pouco tem a ver com um trabalho conseguido e vivido com as dificuldades próprias de quem sabe que a profissão pode ser um prazer, mas também é um ofício duro. Sintomaticamente, como já recordava o meu professor Sílvio Lima, demitido durante alguns anos por Salazar, a origem da palavra “trabalho” é o substantivo tripalium, que era um instrumento de tortura para animais e escravos. O que importa para eles é que sejam pagas as dívidas contraídas não sei por quem (o Senhor deputado saberá…), que nos têm colocado em dificuldades, sem que haja explicitamente culpados.
Todos sabemos que sem uma indústria, uma agricultura e um comércio vivos — que os próprios governantes e deputados das maiorias se têm esforçado por matar — não é possível mantermo-nos desafogadamente, mas também sabemos que muitos dos que falam assim, contribuíram para criar o consumismo, que leva a adquirir os últimos modelos de automóvel, de apartamento, de televisão, de telemóvel, de tablets, de iPads, iPods e não sei que mais …, sem o mínimo interesse pelos problemas sociais. O objectivo foi trabalhar para estatísticas, aquelas, por exemplo, que multiplicaram em pouco tempo os nossos licenciados. Alegres por serem “doutores” e tristes por não terem emprego compatível, com a excepção dos jotas e quejandos, a par de muitos outros que nunca passaram por escolas superiores, lá acabam eles e elas nas caixas de “grandes superfícies”, nos call centres ou a caminho da “estranja”, não por vontade própria, mas sim pelas necessidades da vida. E assim vão diminuindo as estatísticas dos desempregados deste país e a população jovem. Quase sempre — diga-se — sem um protesto público ou a participação num movimento de luta contra este “admirável mundo novo”.
É oportuno que se deva falar da necessidade do aumento do nascimento de crianças, para não sermos no futuro um “país de velhos”. Será possível, porém, que tal possa suceder sem a estabilidade familiar, que hoje de todo não existe? Não. Pois então o melhor será inverter a figura criada polemicamente por padre Jonathan Swift (o da fábula de Gulliver), pensando na Irlanda do século XVII, na sua sátira política A modest proposal, Uma proposta modesta (1729). Em lugar de os pais comerem os filhos para acabar com a fome, como aludia numa imagem propositadamente irónica e trágica, será melhor matar os velhos, alguns que já estão semi-mortos, com as palavras de falta de incentivo dos deputados Peixotos ou porque as famílias os tiveram ou os obrigaram a instalar-se em certos lares da terceira ou quarta idades. Alguns desses lares que até têm nomes condicentes, como aqueles que vou coleccionando: “Cantinho dos Nossos Velhos” ou “Eterno Paraíso”! Que me diz senhor deputado? Assim terminaria de vez com essa tal “peste grisalha”, de que tão levianamente fala e de que virá um dia porventura a fazer parte (assim sinceramente o espero).
* – Ver:
http://hsacaduracabral.blogspot.pt/2013/02/a-peste-grisalha.html

