JÁ NADA É COMO DANTES por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Já nada é como dantes, ouve-se, frequentemente.

Mas o que é o “nada” e o “dantes”?

O nada corresponde às mudanças sociais, como se vivia, no que se acreditava? E o dantes corresponde às nossas infâncias?Apresentação1

Ontem ouvi uma senhora de 68 anos que me dizia que tinha muitas saudades dos natais da sua infância. Era uma família que passava muitas dificuldades económicas, eram muitos irmãos. Ela começou a trabalhar aos 11anos numa alfaiataria por medida, passava com um ferro a carvão, o que era muito pesado para ela, “mas como era muito nova não me custava muito, tinha apenas dores nas pernas e nos braços”. Era uma alfaiataria muito conhecida pelos emigrantes e pelos taxistas, “porque eles tinham barrigas muito grandes. Não é de admirar, os emigrantes queriam aparecer na terra com fatos novos e os taxistas estavam sempre sentados”.

Hoje vive com o marido, com a filha e a com neta, para quem trabalha, pois a reforma é muito baixa “naquela altura não fazia descontos…”

Quando era criança nunca recebeu uma prenda de Natal. O Natal era reunir a família toda para quem a avó fazia as filhoses. Só comiam o bacalhau com batatas à meia- noite, depois da Missa do Galo. À hora do jantar “comíamos queijo com pão porque faltava ainda muito tempo para o bacalhau”.

A família continua a reunir-se no Natal. “É triste querer dar uma coisa a um neto e não poder…”. O ano passado ofereceram-lhe uma toalha de Natal…”nunca tive uma mesa tão bonita…”

Esta mulher quando vê o telejornal ou lê nos jornais as medidas de austeridade diz “são muito novos, não sabem o que é a vida”, “quanto mais dinheiro têm mais o pobre fica pobre…”

Que “nada” e que “dantes” querem essas pessoas?

Querem mais austeridade para que uns sejam mais ricos do que outros?

Querem que a democracia comece a ser ameaçada com requisições civis, com polícias de intervenção junto das escolas onde se realizam os exames para os professores? Querem que a democracia deixe de ser inclusiva para ser punitiva?

Este texto vai ilustrado com um Presépio de lapinhas, presépio tradicional de S. Miguel nos Açores.

O presépio transmite calma, doçura, esperança. A Árvore de Natal é resplendorosa, cheia de luz, com a estrela no cimo, com bolas coloridas e luzinhas a piscar. A Árvore de Natal representa uma vida agitada porque rodeada de presentes, alguns para compensar a falta de tempo que se teve com as crianças.

Será que abrir um dos muitos presentes que alguns meninos e meninas têm à volta da Árvore de Natal, escolhidos previamente pelo catálogo ou pela televisão, fará com que haja recordações sentimentais e serenas desta época?

As crianças que têm como presente a fome, a tristeza, a morte, onde se inserem?

no “nada” ou no “dantes”?

Choca ver as desigualdades sociais repartidas por tantas formas diferentes…choca saber que há crianças que não conhecem a festa do Natal, a não ser nas escolas…choca saber que no Natal se vai distribuir pelos pobres e pelos sem-abrigo o que lhes faz falta todos os dias!

 

Leave a Reply