Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Kurt Von Schleicher : a última possibilidade da República de Weimar contra Hitler (3)
Woyzeck, Kurt Von Schleicher : la dernière chance de la République de Weimar contre Hitler
L’Espoir, 15 de Junho de 2014
(continuação)
Continuamos a nossa série sobre Kurt Von Schleicher, o último Chanceler antes da ascensão ao poder de Adolf Hitler com este terceiro texto.
O castelo de Weimar
Von Papen permaneceu depois das suas conversações com Hitler algum tempo ainda na região do Ruhr, numa visita entre amigos e para se encontrar com alguns empresários dos seus conhecimentos para lhes falar sobre os seus novos projectos políticos. Na véspera do dia 4 de Janeiro ainda enviou uma carta a von Schleicher informando-o da sua conversa com Hitler, cujo conteúdo não conseguimos saber.
Mas até que esta carta chegue, as informações dos jornais de Zehler e os títulos alarmistas dos jornais de 5 de Janeiro tinham já fortemente irritado von Schleicher. Ele foi logo a seguir falar com o Presidente do Reich para protestar sobre o comportamento de von Papen. Schleicher propôs-lhe proibir von Papen de qualquer nova iniciativa deste tipo e que ele próprio estar presente no futuro em todas as entrevistas que o presidente quisesse ter com von Papen. Hindenburg acedeu a considerar todas estas hipóteses mas não lhe deu nenhumas garantias. Von Papen posteriormente argumentou que von Schleicher teria, além disso, convidado o Presidente Hindenburg a quebrar todos os contactos com Von Papen.
Von Papen visitou von Schleicher após a sua chegada a Berlim na manhã de 9 de Janeiro. Aqui temos falta de informações precisas sobre o conteúdo deste troca de opiniões de quase uma hora e meia e em particular sobre a atmosfera que nela tinha reinado. Não podemos confirmar as palavras de von Papen que esta maneira de resolver os mal-entendidos teria totalmente satisfeito von Schleicher.
Em todo o caso foi publicado no dia seguinte uma curta declaração oficial, segundo a qual esta troca de opiniões teria permitido esclarecer a inconsistência dos conflitos que a imprensa estava a considerar como existentes entre o Chanceler do Reich e von Papen. Este desmentido não enganava ninguém na opinião pública. Ninguém poderia acreditar um segundo que seja que von Schleicher alguma vez poderia aprovar o comportamento de von Papen. De forma mais credível, muitas vezes considera-se que o facto de que através deste comunicado oficial von Schleicher passou a ter bem em conta nas suas análises da situação como eram as boas graças de que beneficiava von Papen junto do Presidente Hindenburg e dos quais dependia evidentemente e nestas circunstâncias até a sua existência política. Foi esta razão, que ele teve que se abster de fechar a porta a von Papen, o que provavelmente muito o incomodava. Mesmo que ele nada pudesse fazer, então, a questão permanece em aberto se ele não deveria ter pelo menos imposto a von Papen nunca se encontrar com Hitler sem a sua prévia aprovação. Pode ser atribuído ao Chanceler naquela época um episódio de fraqueza, uma vez que ele deixou assim partir von Papen sem lhe fixar este requisito mínimo. No entanto não devemos esquecer que outras tentativas de von Papen para negociar unilateralmente com os nacional-socialistas teriam dificultado a capacidade de von Schleicher em governar e que minariam os seus projectos políticos de forma bastante ameaçadora.
“Não se pode compreender a autorização e o encorajamento que von Papen recebeu de Hindenburg, de continuar assim a conspirar com os nazis, evitando cuidadosamente o Chanceler, no entanto, o responsável pelo governo, senão como um erro grave e especialmente como uma violação da relação de lealdade que deve existir entre um chefe de estado e o chefe do governo.”
Von Papen apresenta também em 9 de Janeiro ao Presidente do Reich, o conteúdo da reunião em Colónia. Durante esta conversa, Hitler teria, portanto, renunciado ao seu pedido de assumir o comando de todos os poderes e ter-se-ia mostrado pronto a participar num governo de coligação com os partidos de direita. Com estas palavras, Hindenburg indicou a von Papen que continuasse a manter esse contacto de base “pessoal e estritamente confidencial” com Hitler.
Na sequência desta exposição, o Presidente do Reich confiou em seguida ao seu secretário de estado Meissner que desejava em breve formar um novo governo nomeando von Papen novo Chanceler do Reich, uma vez que Hitler não aceitava nas circunstâncias de então o governo de von Schleicher. Assim, sabemos de forma segura que von Papen omitiu de mencionar ao Presidente do Reich a vontade reafirmada de Hitler em participar no governo sob a condição de que ele seja nomeado Chanceler.
Não se pode compreender a autorização e o incitamento que von Papen recebeu de Hindenburg a conspirar com os nazis, evitando cuidadosamente o Chanceler, porém o responsável pelo governo, senão como um erro grave e especialmente como uma violação da relação de lealdade que deve existir entre um chefe de estado e o seu chefe de governo. Estas instruções claras e precisas e estas tomadas de posições assumidas pelo Presidente do Reich convidam-nos a termos muito pouco indulgência face ao que podemos considerar como índices de uma certa senilidade.
O Secretário de Estado Meissner recebeu como directiva do Presidente do Reich Hindenburg de rigorosamente manter em silêncio este arranjo com von Papen. O seu filho Oskar Hindenburg recebeu a mesma instrução. O Secretário de Estado encontrava-se, portanto, numa situação bem precária: nós temos o direito de nos perguntarmos se ele não deveria nesse momento estar a favor de von Schleicher, junto de Hindenburg apresentando contrapropostas que teriam facilitado a colaboração correcta nas mais altas esferas do Estado, tanto mais tendo em conta os longos anos de trabalho em colaboração estreita e genuinamente harmoniosa que Meissner viveu com von Schleicher.
(continua)
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Ver o original em:
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Ver a Parte II deste texto de Woyzeck, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, em:
KURT VON SCHLEICHER: A ÚLTIMA POSSIBILIDADE DA REPÚBLICA DE WEIMAR CONTRA HITLER – por WOYZECK – II



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