Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Kurt Von Schleicher : a última chance da República de Weimar contra Hitler (4)
Woyzeck, Kurt Von Schleicher : la dernière chance de la République de Weimar contre Hitler
L’Espoir, 21 de Junho de 2014
(CONTINUAÇÃO)
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Berlin
No dia da reunião em Colónia entre Hitler e von Papen a 4 de Janeiro, von Schleicher recebeu a visita de Gregor Strasser em Berlim. Strasser regressou a Berlim no final de Dezembro. Entretanto, o Chanceler e Strasser não puderam ter mais do que uma conversa por telefone, após a qual Strasser deixou uma impressão de mal-estar. Agora, ele escutava com alguma deferência as propostas de von Schleicher para se preparem para futuras colaborações quanto a uma posição de Vice-Chanceler e sem nenhuma confiança na sequência dos acontecimentos. Para o reforçar, von Schleicher concedeu-lhe no mesmo dia uma audiência junto do Presidente do Reich Hindenburg. Este último teve uma boa impressão deste convidado e informou von Schleicher que ele aceitaria a sua nomeação como Vice-Chanceler do Reich.
Em 11 de Janeiro, Strasser foi novamente recebido pelo Presidente do Reich. Devido a novos desenvolvimentos entre estas duas entrevistas, Strasser mostrou-se durante esta troca de palavras bem pessimista, tanto mais quanto a estratégia de grande fragmentação do NSDAP já se tinha mostrado ser impossível de realizar.
Hitler e Goebbels estavam naturalmente ao corrente destas trocas de opiniões de Strasser com o Chanceler e o Presidente Hindenburg, mas eles não viram nelas, então, o menor perigo. A atenção deles concentrou-se então sobre esta ‘grande oportunidade’ que representava as negociações com von Papen.
Von Schleicher teve de reconhecer que as condições que favoreceram a nomeação de Gregor Strasser, para o seu papel como vice-chanceler tinham desaparecido.
No mesmo período apareceu uma outra surpresa: o corte abrupto com os sindicatos. O seu líder, Theodor Leiparts tinha ainda, por ocasião do ano novo, enviado uma carta de votos de BOM Ano a von Schleicher convidando-o a trabalharem juntos. Quando o Chanceler lhe propôs participar num grupo de trabalho composto por um círculo maior de personalidades, Leiparts foi convocado pela Direcção Política do SPD. Foi nesta ocasião que Rudolf Breitscheid (Presidente do SPD, nota do Tradutor) em 6 de Janeiro, explicou que a liderança do partido recusava todo e qualquer trabalho em conjunto com o “reaccionário” von Schleicher e que a direcção do SPD esperava que Leiparts se posicionasse sobre a mesma linha.
Esta disputa foi fortemente condenada na liderança do SPD. Gustav Noske, na época primeiro-ministro da província de Hanôver, tentou sem sucesso alterar a posição da liderança do partido.
Nas suas memórias, Gustav Noske criticou fortemente os seus companheiros daquele tempo: “num ataque de fúria, que não me é nada desconhecido na história do partido político, as pessoas imaginaram-se que se podem tornar nos mestres do jogo e opuseram-se então à última possibilidade existente para preservar a sua posição e para preservar as instâncias do seu partido da catástrofe ameaçadora”. É assim que muitas vezes se tem criticado o facto de que – nesta situação extremamente tensa, que exigia de facto aos opositores ao nacional-socialismo que se entendessem contra um perigo comum, nem que fosse apenas temporariamente – o maior partido democrático não tinha podido responder para escolher entre a peste e a cólera, o menor mal.
O torpor que se apropria dos dogmas dos partidos políticos foi o contraponto da atitude de Ebert durante o ano de 1918, quando não hesitou, obedecendo assim à necessidade e sujeitando-se ao interesse superior de preservar a integridade do Reich, a concluir um acordo temporário com os seus inimigos políticos. Ainda, a recusa de Breitscheid permanece contudo condenável quando se considera que é a naturalidade de von Schleicher e o seu comportamento flexível que o poderia ter incomodado.
As palavras de Paul Sethe ressoam assim como um suspiro profundo de despeito: pudéssemos nós simplesmente sonhar e imaginar como o destino da Alemanha poderia ter sido bem mais feliz, se esta proposta de colaboração de von Schleicher tivesse sido aceite por Theodor Leipart!
Além disso, Breitscheid e outras luminárias do Partido Social Democrata de facto subestimaram e em muito a extensão do perigo que se estava a correr. Eles aceitaram sem pestanejar o facto de que Hitler poderia falhar rapidamente como Chanceler do Reich. Esta é a razão pela qual uma União de inimigos políticos em torno do Pacto de von Schleicher não foi possível. Não se terá feito outra coisa que não fosse lançar por este meio o descrédito sobre a credibilidade do partido em construir uma democracia
A primeira consequência que von Schleicher retirou desses eventos foi a renúncia à sua principal intenção de alterar a composição do governo. Assim, teve que renunciar a nomear Strasser e Leiparts para assumirem responsabilidades departamentais
(continua)
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Ver o original em:
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Ver a Parte III deste texto de Woyzeck, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, em:
KURT VON SCHLEICHER: A ÚLTIMA POSSIBILIDADE DA REPÚBLICA DE WEIMAR CONTRA HITLER – por WOYZECK – III




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