A QUANTITATIVE EASING DE DRAGHI: UMA SAÍDA DA CRISE OU O ÚLTIMO PREGO NO CAIXÃO DA EUROPA? – 10. O QUE É QUE VAI ACONTECER DEPOIS DO CHOQUE E DO ASSOMBRO CAUSADOS PELA QE ABRANDAREM? por ROGER BOOTLE.

Falareconomia1

 Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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O que é que vai acontecer depois do  choque e do assombro causados pela QE abrandarem ?

Somente quando os muitos  milhões dos desempregados de Europa e dos desapossados de tudo  encontrarem trabalho e a esperança  é que a crise estará ultrapassada.

Roger BootleWhat happens after shock and awe of QE subsides? Only when umpteen million of Europe’s unemployed and dispossessed find jobs and hope will the issue be over.

The Telegraph, 25 de Janeiro de 2015

O resultado das eleições gerais na Grécia  tem o potencial de ameaçar o euro. E o resultado da reunião de quinta-feira passada do Banco Central Europeu, a saber o desencadear de um enorme programa de recompra de títulos da dívida pública, tem o potencial de salvar o euro. Mas  será bem sucedido?

Até aqui, o BCE desistiu da utilização de um  programa qualquer dito de  quantitative easing (QE) na sua forma pura. Inicialmente, isto era porque não pensava  que a situação económica da  zona euro fosse tão grave  como agora considera que é.  Em particular, não viu o perigo da deflação que estava a ser visível  (mesmo tendo sido, como foi, sucessivamente advertido sobre esse perigo que estava a ser real  para muitos economistas, incluindo eu  próprio).

Mas acima e abaixo disto,  o banco central alemão, o Bundesbank, foi incapaz de travar a  QE. Viu-a como sendo uma violação do espírito, se não da letra, do mandato do BCE. Além disso, teme que isto faça aumentar a pressão  dos governos dos países periféricos relativamente às reformas e à redução dos seus défices e que  aumente  o perigo para o contribuinte alemão que está a ficar  aterrado com os custos financeiros do esbanjamento nos países do sul  e/ou os custos económicos e sociais de uma explosão da inflação.

O resultado da eleição geral grega tem o potencial ameaçar o euro. E o resultado da reunião de quinta-feira passada do Banco Central Europeu, a saber desencadear de um programa maciço do governo que compra, tem o potencial salvar o euro. Mas sucederá?

Até aqui, o BCE desistiu da facilitação quantitativa (QE) em seu formulário puro. Inicialmente, isto era porque não pensou que a situação económica da zona euro fosse tão séria como parece  ser agora. Em particular, não viu a vinda  do perigo deflacionário (mesmo que fosse advertida repetidamente sobre ela por muitos economistas, incluindo sinceramente).

Será que o facto do  BCE ter forçado a aplicação do programa de QE significa que este conflito foi resolvido? Não. O Bundesbank escolheu simplesmente não entrar numa luta aberta – neste momento. Sendo assim, isto significa  restringir  indubitavelmente o programa QE. O BCE estabeleceu limites na percentagem da dívida de um  país que pode estar nas suas mãos, impedindo assim e de forma inteligente   que o BCE compre  dívida grega, sem explicitamente citar a Grécia. Além disso, para 80 % dos activos a serem  comprados, o risco de crédito é assumido apenas pelos respectivos bancos centrais nacionais.

O programa QE pode realmente ajudar alguma coisa, e era a coisa certa a fazer, principalmente porque não  havia mais nenhum disponível. Mas não é um jogo que leve à mudança. Para começar, a quantidade anunciada  –  um milhão de milhões de euros–  soa forte, mas de facto tudo o que estas compras poderiam fazer é restaurar a dimensão do balanço do BCE ao nível de onde estava em 2012.

Isto significaria que desde o início da crise financeira, ou seja de  2008, teria  crescido  aproximadamente cerca de  150pc, quando comparado com 400pc para os E.U. Fed e sobre 300pc para o Banco da Inglaterra.

Além disso, a maioria das vias em  que a QE é suposto operar não funcionariam muito bem nas circunstâncias actuais. Esta política tornará os bancos extremamente abundantes em dinheiro líquido – mas estes, de qualquer maneira,  não tem tido problemas de liquidez. Forçar à descida os rendimentos das obrigações  deve reduzir o custo de financiamento  e subir   o preço dos activos, mas seja como for,  os rendimentos estavam já a bater no fundo e na  Europa, a maioria dos  empréstimos  é feita junto  dos bancos e  não dos mercados.

O principal canal,  através do qual o programa  QE irá   influenciar a economia, será o da  taxa de câmbio. Um  euro mais baixo – e já caiu quase por 10pc desde Agosto – aumentará directamente o preço dos bens importados e por esta via ajudará a combater a deflação  – pelo menos por um tempo – e simultaneamente irá ajudar a impulsionar as exportações e a reduzir as importações, tendendo desse modo a levantar o PIB em termos reais.  Mas é muito  improvável que este efeito seja  grande. As exportações da zona euro representam  20% do seu PIB. Em comparação,  o Reino Unido exporta aproximadamente 30% do seu PIB. Tanto quanto  a taxa de câmbio é a ferramenta principal do ajustamento  macroeconómico para a zona euro, isto é  profundamente irónico, porque esta taxa , naturalmente, é o instrumento de política económica que os membros da zona euro mantêm constante entre si.  Se o euro não existisse, então  o mercado desde há  muito tempo que teria desvalorizado fortemente as moedas dos países do sul e revalorizaria fortemente as moedas nacionais dos países do Norte.

Isto é  igualmente profundamente irónico dado o que aconteceu há duas semanas com o franco suíço, em que  este  subiu aproximadamente 20pc, uma vez que o banco central suíço deixou de fixar um limite superior para o valor do franco suíço.  A  Suíça tem estado a ter  um excedente na balança corrente na  ordem dos  13%  do PIB. Mas no ano passado, o excedente da  Alemanha era de 7%  do PIB, levemente menor proporcionalmente mas muito maior em termos absolutos. Os Países Baixos estão mesmo mais perto do caso suíço, com um excedente de 10% do seu PIB.

A deficiência da  procura agregada  na zona euro  é o que está na raiz dos seus problemas  e esta deficiência não tem só uma  causa mas sim duas.  Primeiramente, as economias do  sul estão a sofrer  de uma falta de competitividade via preços  e é o peso da despesa passada e do recurso aos empréstimos que inibe a despesa de ser o dinamizador da economia. Em segundo lugar, o núcleo nórdico está concentrado em tornar constantemente a sua posição financeira cada vez mais forte, em parte porque é a “boa coisa a fazer” e em parte “para encorajar os outros”

No fundo, o que está  errado  com a  União Monetária desde o início é  não somente uma discrepância nos custos e nos preços entre o Norte e Sul, mas igualmente uma profunda diferença na filosofia económica. Os alemães não estão interessados numa procura global interna. Não defendem a economia keynesiana.

Porque os alemães tendem a reagir aos bons e aos maus  tempos melhorando a sua  capacidade competitiva, puderam assim ultrapassar  (e  obscurecer) a sua própria falta de procura agregada utilizando  um outro canal económico  (gerando  excedentes comerciais). A Europa que existia antes do euro tinha sido concebido de forma  ordenada – talvez por acaso – e procurou  manter estas tendências sob controlo.

Os Alemães trabalharam fortemente, pouparam fortemente  e exportaram fortemente  – mas por outro lado o deutschmark deveria ter tido um valor superior relativamente às outras moedas que não fizeram as coisas tão bem, e este grupo de países  incluiu a  Itália, Espanha, França e, ouso dizê-lo, igualmente a Inglaterra. Esta válvula de segurança permitiu os alemães continuarem  a ser os alemães, [com a sua forma de ver a economia, isto é, sem Keynes]  sem nos estarem a empobrecer a todos nós.

Durante todo este  tempo, o euro era um projecto mal concebido,  impingido aos  banqueiros tecnocráticos centrais e ao grande  público   pelos políticos – por motivos políticos. Os banqueiros centrais fizeram o seu melhor para manterem o espectáculo mas estão a  chegar ao limite da sua capacidade em continuarem  de pé com o  que podem razoavelmente conseguir apenas com a política monetária. Esta crise tem o terrível hábito de se modificar  de uma forma de crise para outra. A nova fase  vai ser de natureza política  – em concordância com o que foi a origem a origem do euro-política.

Nos próximos dias, nós veremos se a Grécia e a Alemanha podem aplainar  as  suas diferenças. Mas mesmo que sejam capazes de o fazer, isto não resolverá o problema de fundo da UE. O problema de fundo da EU só será  resolvido quando os muitos milhões de desempregados e de desapossados de tudo encontrarem trabalho e a esperança.

Um milhão de milhões significa cerca de  €3.000 por pessoa na zona euro. Resolver  este problema vai, terrivelmente, custar muito mais que isto.

Roger Bootle:  What happens after shock and awe of QE subsides?

Only when umpteen million of Europe’s unemployed and dispossessed find jobs and hope will the issue be overThe Telegraph, 25 de Janeiro de 2015, texto disponível :

http://www.telegraph.co.uk/finance/comment/11368922/What-happens-after-shock-and-awe-of-QE-subsides.html

Roger Bootle is executive chairman of Capital Economics

roger.bootle@capitaleconomics.com

O que é que vai acontecer depois do  choque e do espanto sobre a QE abrandar ?

Somente quando os muitos  milhões dos desempregados de Europa e dos desapossados de tudo  encontrarem trabalho e a esperança  é que a crise estará ultrapassada

Roger Bootle

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