CARTA DE PARIS – Menezes Ferreira – tenente na Grande Guerra – VI – por Manuela Degerine

carta de paris

Quando, a partir de janeiro de 1918, os alemães intensificam os ataques, os soldados do CEP[1] continuam nas primeiras linhas, onde correm em permanência o risco de morrer e em permanência suportam o stress da guerra: “são mandados marchar dum repouso fictício para render na frente outros camaradas tão martirizados e exaustos como eles”[2]. Os que se encontram em “repouso”, a três quilómetros da primeira linha, em aldeias arrasadas e desertas, espalhados “pelos portais dos edifícios desmantelados”[3], por não haver ali outros acantonamentos, acham-se ainda mais expostos aos bombardeamentos do que nos parapeitos, os quais menos protegem do que as trincheiras fundas[4], sendo estas aliás – como sabemos – um espaço de sofrimento e morte para os combatentes… A guerra pode a qualquer instante subverter tais distinções (e tudo explode a 9 da abril na batalha de La Lys) porém, quando as linhas inimigas se situam a poucos metros de distância, como acontecia na Flandres, para não correrem os risco de matar – o que muitas vezes sucedeu – os seus próprios soldados, os canhões apontam para além da primeira linha, por isso o narrador sublinha: “João Ninguém” ajuizadamente pensa que é preferível “gozar” os bombardeamentos no parapeito, a dois passos do Boche, do que em noites de “Gothas” andar de cave em cave de enxerga na mão”[5]. Para os portugueses retidos nas primeiras linhas, o “repouso” pode assim tornar-se mais perigoso e desgastante do que o serviço, não passando afinal de um artifício da língua-de-pau militar: uma tentativa de mistificação que não impede os soldados de “ajuizadamente” pensarem.

Menezes Ferreira omite a falta de motivação (por que pátria morrem os portugueses na frente inglesa da Flandres?) tal como os motins e deserções, não convindo decerto a um oficial de carreira fazer-lhes publicidade, contudo a evocação (repetida e enfática) do brio e bravura de João Ninguém, “orgulho da nossa raça”[6], “sofrendo sozinho e resignado todos os horrores de uma guerra sem precedentes”[7], “sendo bastas vezes elogiado nas ordens do dia do “Camóne”, correndo a sua fama do norte ao sul da França”[8], leva o leitor a concluir que, se motins e deserções houve, só o abandono e o desespero em que os combatentes foram mantidos os podem explicar. Também o historiador Luís Alves de Fraga, tendo analisado as principais revoltas ocorridas antes da batalha de La Lys, deduz que uma foi causada pela injustiça das ordens e a outra pelo esgotamento das forças; “o que sobressai é o apego à vida por exaustão”[9]. E acrescenta: “O tempo e as circunstâncias não permitiram, na época, tirar conclusões das revoltas dos soldados portugueses ocorridas em 1917 e 1918, todavia, acreditamos que os Exércitos modernos não esquecerão as experiências passadas e os conhecimentos adquiridos.”[10]

Testemunha das falhas, injustiças, contradições que definiram a participação de Portugal na Grande Guerra, o capitão Menezes Ferreira conclui o texto com uma prece solene:

“Ó mães de Portugal, mulheres de uma só fé, que de Norte a Sul educais os vossos filhos nas heróicas tradições da nossa raça, ensinai a amar essa humilde figura de soldado que sustentou em África e na Flandres as mais rudes pelejas, porque assim, perante a Ingratidão Humana, conseguireis depor, no eterno Panteão da Memória dos vossos filhos, o cadáver de “João Ninguém”, esse “Soldado Desconhecido” de uma grande nação desconhecida”[11].

A imagem faz lembrar um sacrifício humano (“o cadáver de “João Ninguém”) num templo bárbaro (“Panteão da Memória”)… Por nenhuma das outras razões habitualmente evocadas ser convincente, resta uma apenas para explicar o envio de tropas para a Frente Ocidental: Afonso Costa procurava o benefício – para o seu partido – da união dos portugueses perante um inimigo estrangeiro. Ora o Estado só deve exigir o sacrifício de uma geração para defender o território nacional… Seria ainda justificável – no início do século XX – que as tropas fossem enviadas para as colónias, porém a partida do CEP para a Flandres reduziu o contingente mobilizável para a África; afinal os portugueses reforçaram as posições inglesas, pouparam milhares de baixas à Grã-Bretanha: morreram pelo império britânico. Que não menos do que a Alemanha cobiçava as colónias portuguesas… E é no Panteão do interesse político malogrado que o cadáver de João Ninguém há-de para sempre jazer. Porém – neste texto ilustrado com desenhos – o capitão Menezes Ferreira dá a conhecer as penas, riscos e glórias que fazem de “João Ninguém” um herói moderno: fabrica-lhe um memorial de papel e tinta que ainda hoje podemos visitar.

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[1] CEP: Corpo Expedicionário Português.
[2] MENEZES FERREIRA, “João Ninguém – soldado na Grande Guerra”, 2ª edição, ed. Folhas e Letras, Lisboa, 2003, pp. 48-49.
[3] Idem, p. 49.
[4] Aquela zona é quase sempre tão pantanosa que não podem cavar trincheiras, restando o recurso de empilhar sacos de terra formando muros mais ou menos resistentes: os “parapeitos”.
[5] MENEZES FERREIRA, op. cit. p. 49.
[6] Idem, dedicatória.
[7] Idem, p. 13.
[8] Idem, p. 43.
[9] FRAGA, Luís Alves de, “Guerra e Marginalidade, O Comportamento das Tropas Portuguesas em França, 1917-1918”, ed. Prefácio, Lisboa, 2003, p. 67.
[10] Idem, p. 68.
[11] MENEZES FERREIRA, op. cit., p. 58.

 

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