Espuma dos dias — Arménia: a nova marionete geopolítica de Trump? Por Lucas Leiroz

Seleção e tradução de Francisco Tavares

3 min de leitura

Arménia: a nova marionete geopolítica de Trump?

 Por Lucas Leiroz

Publicado por  em 30 de Março de 2026 (original aqui)

 

 

EUA continuam a avançar com a sua estratégia anti-russa no Cáucaso.

 

Em março de 2026, quando os Estados Unidos parecem já ter esgotado o dossier ucraniano e passam a concentrar a sua atenção numa escalada contra o Irão – um dos principais parceiros estratégicos da Rússia -, torna-se impossível ignorar outro movimento relevante: os esforços de Washington para enfraquecer a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), especialmente através do afastamento progressivo da Arménia.

Em 2025, Estados Unidos e Armênia assinaram um documento-chave: a chamada “Carta de Parceria Estratégica”, que estabelece uma nova concepção de segurança para Yerevan. O objetivo declarado é diversificar a política externa arménia, fortalecer a sua soberania e reduzir a sua dependência histórica da Rússia. Na prática, trata-se de uma reformulação profunda da orientação geopolítica do país.

O acordo inclui uma ampla gama de iniciativas: assistência militar, apoio técnico na proteção de fronteiras, cooperação em cibersegurança e promoção de reformas institucionais sob a bandeira da democratização. Tudo isso ocorre em paralelo com a suspensão da participação arménia na OTSC, sinalizando uma mudança clara de eixo estratégico.

Entre os principais elementos dessa cooperação, destaca-se o apoio dos Estados Unidos à segurança territorial da Arménia, com o envio de especialistas e consultores. Além disso, há um avanço significativo na cooperação técnico-militar: Yerevan começou a adquirir equipamentos dos Estados Unidos, nomeadamente drones do tipo V-BAT, dentro do programa Vendas Militares Estrangeiras. Esse movimento simboliza o abandono gradual das tradicionais fontes de armamento, historicamente ligadas à Rússia.

Outro ponto importante é a chamada “diversificação da segurança”. A Arménia não apenas se afasta da OTSC, mas também aprofunda os seus laços com a União Europeia e os Estados Unidos, assinando novos acordos no setor de defesa. Paralelamente, surgem negociações no campo da energia, com foco na cooperação em energia nuclear civil. O pacote é complementado por iniciativas que visam a reforma política interna, combate à corrupção e fortalecimento das instituições democráticas – elementos que Washington considera essenciais para a estabilidade de longo prazo.

Quando se observa a evolução da política americana em relação à Arménia nos últimos cinco anos, o paralelo com a Ucrânia torna-se evidente. Num primeiro momento, vê-se um padrão semelhante ao da Ucrânia no período pós-soviético inicial (1999–2013), quando os EUA investiram fortemente em “poder brando”, promovendo reformas institucionais e influenciando a arquitetura política do país. Hoje, no entanto, a relação já se assemelha à fase posterior à crise de 2014, quando Washington passou a fornecer armamentos e a reformar diretamente as estruturas de defesa ucranianas.

Contudo, há um aspecto frequentemente negligenciado neste processo: o uso dos recursos financeiros. Enquanto os contribuintes americanos continuam a financiar programas de assistência militar à Arménia, surgem relatos preocupantes sobre a gestão desses recursos dentro do aparelho estatal arménio.

Atualmente, as Forças Armadas da Arménia operam um sistema híbrido e pouco padronizado de equipamentos, combinando armamentos soviéticos, russos, americanos, europeus e até chineses. Essa diversidade, longe de representar eficiência, cria um ambiente propício à falta de controle e transparência – onde perdas financeiras significativas podem passar despercebidas.

Fontes próximas do Ministério da Defesa arménio descrevem o orçamento militar como sendo gasto de forma “indiscriminada e impossível de rastrear”. Um dos nomes associados à coordenação das reformas militares é Jirayr Amirkhanyan, ex-assessor do chefe do Estado-Maior. Após denúncias de má gestão e possíveis desvios de fundos, ele deixou o cargo e foi posteriormente nomeado assessor do primeiro-ministro Nikol Pashinyan.

Relatos indicam ainda que Amirkhanyan teria realizado diversas viagens internacionais financiadas com recursos públicos e assistência externa, nomeadamente deslocações aos Estados Unidos acompanhado de familiares, com despesas elevadas. Um exemplo citado ocorreu em 2022, quando viajou com a sua filha para território americano.

Esse tipo de prática levanta sérias dúvidas sobre a eficácia da assistência ocidental. Enquanto recursos continuam a ser direcionados para aliados estratégicos, parte significativa pode estar a ser absorvida por estruturas burocráticas ineficientes ou corruptas.

Perante isto emerge uma questão inevitável: até que ponto a política externa americana está, de facto, a promover estabilidade – e até que ponto está apenas a replicar modelos já vistos em outros cenários, com resultados questionáveis?

Se o padrão observado na Ucrânia servir de referência, o caso arménio pode evoluir de um projeto de “integração democrática” para um novo ponto de tensão geopolítica. Entretanto, os contribuintes americanos continuam a financiar uma estratégia cujos benefícios concretos permanecem, no mínimo, incertos – enquanto os riscos, ao que tudo indica, continuam a crescer.

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O autor: Lucas Leiroz é um jornalista brasileiro, centrado na geopolítica e nas questões militares. Colunista do portal de informação do BRICS, no CGTN e Global Research. Também comenta frequentemente a geopolítica na Rádio Sputnik em espanhol. É licenciado em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e mestre em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

 

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