LIVRO & LIVROS – Livros desaparecidos – 5 – por Joaquim Palminha Silva

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  1. Margarida de Noronha (1554-1636), que foi condenada pela Inquisição como «embusteira e hipócrita», apesar de ter merecido rasgado elogio do considerado Duarte Nunes de Leão, nunca chegou a imprimir o manuscrito da «Vida da Prioresa Soror Maria da Visitação […]». De resto, embora considerado pelo monarca e por alguma nobreza, o próprio Duarte Nunes de Leão (1530-1608) terá deixado manuscritas duas obras, entretanto desaparecidas: «Vida de D. Sebastião» e «Tratado de Varões Ilustres».

No século XVI, parte importante da nobreza era pouco mais do que analfabeta, considerando que saber ler e escrever era coisa de clérigos, mulheres e… homens “efeminados”! Quanto ao povo, a arraia-miúda como lhe chamou Fernão Lopes, atenuaria a sua proverbial ignorância o “traquejo enciclopédico” da vida e do movimentado ambiente de aventureiros, fura-vidas, pícaros, mendigos, vadios, rameiras e tutti quanti… Nesta atmosfera apareceu Baltasar Dias, «homem pobre» e por “acréscimo” cego. Mas que teve de original este homem? – Esquisito artefacto da Natureza, segundo uns, enquanto de acordo com outros, misterioso desígnio de Deus, que fez de um cego, num Reino obscurecido pela Inquisição, um dramaturgo!

E dramaturgo com alvará régio de 1537, para poder imprimir e vender as suas obras, «assim em prosa como em verso», dado que vivia das poucas moedas que este trabalho lhe rendia. Parece que o seu lirismo era ingénuo, de cariz popular, com tendência para dramatizar temas religiosos, a que não faltava a exaltação mística. Pois o pobre Baltasar Dias foi vítima da Inquisição: – O seu Auto de Santo Aleixo, cuja 1ªedição terá vindo a lume em 1613, foi objecto de grosseira mutilação no Index de 1624. Mas não é tudo: dele se “perderam”, além do Auto da Feira da Ladra, hoje completamente desaparecido, mas que no século XVII teve duas edições, dois autos de tema religioso!

Uns mais famosos que outros, muitos autores foram vitimados com o desaparecimento de suas obras: – De Sá de Miranda (1490-1558?) desapareceu a tragédia «Cleópatra», de que só restam pouco versos em redondilha maior; Gomes Eanes de Zurara (1404?-1473?) “viu” desaparecer-lhe a «Crónica de D. Fernando», (conde de Vila Real); de João de Barros (1492-15?) perderam-se as seguintes obras: «Geografia», «Tratado das Causas» e o poema «As abusões do tempo».

Se a vida de escritor nunca foi fácil em Portugal, um suplemento inédito se lhe vem juntar quando algumas das suas obras, uma vez produzidas, ganham vida própria, por assim dizer, e inspiram medos, provocam conspirações para as silenciar, sobretudo quando impressas… Na verdade, o livro foi vítima das mais incríveis atribulações, tal e qual um ser humano. A infelicidade chega a atingi-lo para onde quer que vá. Pode “esconder-se”, fugir, permanecer clandestino, mas uma vez apanhado nas malhas da rede que os perseguidores lhe estendem, tem os dias contados. Tudo pode suceder a uma obra escrita: – Ser queimada “viva”, página a página, mutilada volume a volume se impressa, levar sumiço definitivo. A “lei da vida” para o livro foi, muitas vezes, a “lei da morte”! Eis exemplos que é fácil hoje empurrar para o domínio do psíquico, mas que no seu tempo foram repressivos actos de policiamento sobre pensamento…

Frei Bernardo de Brito, nomeado cronista-mor por morte de Francisco de Andrade em 1616, foi autor de uma «Crónica» de D. Sebastião que desapareceu… No século XVII, António Carvalho de Parada, escreveu a obra «Discurso político fundado en la Doctrina de Christo Señor, y de la Sagrada Escritura, si conviene al governo espiritual de las almas, o al temporal de la Republica aprovarse el modo de predicar, de repreender a los Príncipes, y sus Ministros», 1627… Repreender príncipes? Uma obra destas, só poderia perder-se! Por ordem da rainha D. Catarina, então regente do Reino, Fernão Lopes de Castanheda (?-1559) viu o volume 9º e 10º da sua obra «História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses» impedidos de serem impressos, enquanto o 1º volume veio a ser retirado de circulação e reescrito, devido à intervenção de fidalgos que se sentiam molestados ou pouco favorecidos nas descrições de seus familiares. D. Frei João de Portugal (1554-1629) não viu ser publicada a 2ª parte da sua obra, «Breve Sumário da Doutrina Cristã, Ordenada conforme ao Catecismo Romano» … pela censura da Santa Sé!

(continua)

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