Amadeu Ferreira é um caso muito especial na cultura portuguesa. Conheço-o nos vários domínios da sua intensa actividade, e sempre me habituei a admirá-lo como profissional do Direito de primeira água e como cidadão empenhado e activo, com uma excepcional capacidade de trabalho e um entusiasmo transbordante, que é sempre um exemplo para todos. Naturalmente que, sendo oficiais do mesmo ofício no campo do Direito Económico e Financeiro, devo, antes do mais, e muito sucintamente, exprimir a minha muita admiração pela sua competência e rigor, que constituem fontes permanentes de ensinamentos, nacional e internacionalmente. No entanto, para meu gáudio pessoal, tenho tido com o meu Amigo Amadeu Ferreira um permanente contacto pessoal no âmbitoda sua paixão e do seu militantismo cívico e cultural, como o primeiro e mais relevante dos cultores contemporâneos da língua mirandesa.
Como Presidente do Centro Nacional de Cultura, tive o gosto e a honra de poder contar com a sua participação activa em diversas iniciativas ligadasà defesa e salvaguarda da língua mirandesa. Além disso, temos usufruído no nosso sítio na internet de diversos textos em mirandês de sua autoria. Este companheirismo cultural tem sido da maior valia, uma vez que Amadeu Ferreira é, antes de tudo, um extraordinário e profícuo pedagogo das línguas da cultura portuguesa. Recordo diversas sessões realizadas no CNC, com ampla participação,em que a língua fundamental de comunicação foi o mirandês – e não esqueço o episódio em que um amigo meu ao entrar na sala, sem que estivesse à espera da língua usada, se sentiu por momentos transposto para a Idade Média na corte do rei de Leão… De facto, o mirandês é a reminiscência em território nacional do asturo-leonês, com as especificidades próprias dos regionalismos, e Amadeu Ferreira tem-no afirmado com muita clareza, tornando o mirandês uma língua moderna e não apenas a projecção nos dias de hoje de uma língua muito antiga. Esse é o desafio fundamental a que tem procurado responder com grande generosidade e conhecimento. Desde Os Lusíadas até à banda desenhada, do que se trata é de tornar o mirandês uma língua viva, com expressão cultural e literária. Este esforço fundamental tem, pois, como objectivo dar expressão contemporânea à língua.
Amadeu Ferreira tem, assim, compreendido que a língua portuguesa sópode ser devidamente entendida e valorizada como língua de várias culturas ecultura de várias línguas. Este multilinguismo lusófono obriga a uma concepçãodinâmica e inovadora do diálogo entre línguas e dialectos na galáxia riquíssimada língua portuguesa. O mirandês não está só, relaciona-se com o galego, com os crioulos, com a recordação do papear cristão (a língua franca de quinhentos de expressão universal), com os dialectos raianos, como o barranquenho…
Permito-me, por isso, elogiar a atitude do estudioso incansável e do divulgador,já que, para si, o mirandês apenas se afirmará com toda a pujança no relacionamento permanente com as múltiplas manifestações da língua portuguesa.
Uma língua viva enriquece-se em cada momento no intercâmbio com outras línguas e com a evolução dos vocabulários do progresso cultural, económico,técnico e social. Daí a estratégia adoptada de abranger os mais diversos camposda criação cultural. Só assim poderemos garantir que o ensino da língua mirandesa não se torne ou uma manifestação folclórica (no sentido pobre do termo) ou a transmissão de uma língua adormecida… E o caso da língua no território português europeu merece uma especial atenção pela sua homogeneidade, queé fruto no meltingpot ou cadinho de várias influências e muitos movimentos internos de intercâmbio nesta miniatura de continente, segundo a expressão feliz de Orlando Ribeiro. O mirandês insere-se nesse caleidoscópio e assim deve ser entendido.
Amadeu Ferreira é, assim, um benemérito das línguas da cultura portuguesa, que tem tido um contributo decisivo não apenas no culto do mirandês, mas no enriquecimento da própria língua portuguesa, na compreensão das suas raízes, e na projecção futura do seu desenvolvimento, como factor essencial do «humanismo universalista», de que falaram Jaime Cortesão e Agostinho da Silva. Nunca teremos palavras suficientes para lhe agradecer!