Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A Espanha em sofrimento: porque é que deixar o euro é o menor de dois males
Michael Pettis, Spain in Pain: Why Leaving the Euro Is The Lesser of Two Evils: Michael Pettis
Pratclif.com
Agora, como há seis meses antes, não se discute na alta sociedade em Madrid a possibilidade que a Espanha possa deixar o euro e reestruture a sua dívida. A perspectiva era impensável e como muitas outras coisas não poderia sequer ser discutida. Mas talvez as coisas tenham mudado. Se os responsáveis políticos, conselheiros, a imprensa e o público culturalmente diferenciado estão na verdade a discutir e a debater o futuro do euro agora, um verdadeiro e aberto debate sobre as perspectivas da Espanha irá mover rapidamente o consenso no sentido de se abandonar o euro.
Normalmente não gosto de escrever sobre as perspectivas europeias a meio de uma fase muito difícil do mercado, porque nesse caso não há muito que eu possa dizer que já não tenha já sido dito. Acho que é mais útil esperar pelos períodos recorrentes em que os mercados recuperam e que aumenta o optimismo. Ainda, dada a conjunção da incerteza política em Pequim, dos números do baixo crescimento chinês e de uma nova ronda de degradação da situação na Europa, prefiro debruçar-me sobre um artigo a tentar delinear os possíveis caminhos que países como a Espanha deverão ter de encarar percorrer.
Durante vários anos tenho sucessivamente dito e redito que a Espanha deveria deixar o euro e reestruturar a sua dívida externa. Devo dizer que especifiquei a Espanha e não um outro qualquer país em situação semelhante porque é o país em que nasci e cresci e também porque é o país que melhor conheço. Quando digo Espanha, no entanto e na verdade, quero dizer todos os países periféricos europeus que, como a Espanha, são pouco competitivos, têm níveis elevados de dívida e sofrem de baixa taxas de poupança e em que estas têm sido forçadas a diminuírem na década passada para níveis altamente perigosos.
A Espanha tinha uma posição orçamental mais forte e bancos com posições financeiras mais saudáveis do que muitos dos seus pares quando a crise começou, de tal modo que qualquer argumento que se aplique a Espanha deve-se muito provavelmente aplicar com mais força de razão aos seus pares. Como um aparte, devo acrescentar que a França é para mim a linha divisória de entre os países que vão ser forçados a desvalorizar e à reestruturar a sua dívida e aqueles que não precisam – na minha opinião a França poderia cair para qualquer dos dois lados e teremos uma ideia mais precisa sobre isso depois do primeiro ano de Presidência de François Hollande.
Existem duas razões pelas quais estava e estou bastante seguro de que a Espanha não pode permanecer no euro (ou, o que equivale à mesma coisa, que a Alemanha deixará o euro em vez de o fazer a Espanha). A primeira tem a ver com a lógica da posição da balança de pagamentos da Espanha, e a segunda tem a ver com a dinâmica interna que orienta o processo de crise financeira.
Para analisar a primeira, começaria por referir que, graças à política monetária excessivamente laxista praticada principalmente pelas necessidades alemãs na última década, a Espanha tornou-se totalmente não competitiva nos mercados globais e passou assim a ter grandes défices na balança corrente durante quase toda a última década. O seu problema fundamental, por outras palavras, tem sido o processo pelo qual a sua taxa de poupança entrou em colapso, a sua estrutura de custos foi quebrada, distorcida, o seu nível de dívida disparou e por fim porque é que teve uma grande quantidade de investimentos canalizados para projectos, principalmente de imóveis, que não eram economicamente viáveis. Como tenho já discutido e com muita frequência em versões anteriores deste artigo, acho que todos esses problemas estão relacionados e representam um quadro de consequências automáticas do mesmo conjunto de distorções da política implementada em Espanha e na Alemanha.
Até que a Espanha mude a sua posição quanto à poupança e à sua estrutura de consumo e mude a posição da sua balança corrente de saldo negativo para positivo, que é o resultado que a inversão destas deformações acarretaria, deve ser bem claro que a Espanha continuará a debater-se com o problema do crescimento e continuará a ver os níveis da sua dívida aumentarem de forma insustentável. Mas o mecanismo da balança de pagamentos impõe restrições bem claras sobre o processo de adaptação. Nesse sentido, há realmente apenas três vias através das quais a Espanha pode recuperar uma suficiente competitividade para aumentar a sua poupança e inverter a situação da sua balança corrente:
A Alemanha e outros países do núcleo forte da União Europeia podem tomar medidas para inverter as condições que levaram à crise europeia. Estes países podem cortar fortemente nos impostos sobre o consumo e nos impostos sobre o rendimento a fim de reduzir a poupança interna e aumentar o consumo interno. Isto levaria a uma inversão dos excedentes comerciais alemães e a uma inflação mais elevada na Alemanha, uma combinação de efeitos que permitiria à Espanha inverter o seu défice comercial e recuperar a competitividade, neste caso através de inflação mais baixa em relação à da Alemanha e da existência de um euro mais fraco.
A Espanha pode forçar a austeridade e tolerar elevadas taxas de desemprego por muitos anos com salários que são lentamente levados a descer e com as diferenças de preços a desaparecerem. Também pode tomar medidas para reduzir os custos, tornando mais fácil a criação de novas empresas, reduzir os impostos sobre a actividade económica e melhorar as suas infra-estruturas, mas estes últimos proporcionam muito pouco alívio excepto sobre o muito longo prazo, especialmente tendo em conta a dificuldade que enfrentará a Espanha no financiamento das suas infra-estruturas e na redução dos seus impostos.
A Espanha pode deixar o euro e desvalorizar. Isso iria deixá-la com um problema de dívida designada em euros, cujo valor iria subir em relação ao seu PIB expresso agora numa moeda enfraquecida. Neste caso, a Espanha quase certamente seria forçada a suspender o pagamento da dívida e a reestruturar a sua dívida.
Quero salientar que estas são, falando de modo claro, as três vias para a Espanha voltar a ganhar suficiente competitividade. Há outras maneiras que poderiam em teoria também funcionar, mas estas são muito improváveis de poderem ser encaradas. Por exemplo seria admitir que o resto do mundo não-europeu – principalmente os EUA, a China e o Japão – tomariam medidas para estimular as suas economias nacionais e o suficiente para estimular o seu consumo interno e passar a haver neste trio de países grandes défices comerciais sobretudo para com os países europeus. Estes défices, cuja contrapartida seria um excedente comercial europeu muito grande, poderiam resgatar a zona euro como um todo gerando taxas de crescimento do PIB que excedam a taxa de refinanciamento da dívida.
Penso que a maioria dos meus leitores no entanto vai concordar que isto é muito improvável. O resto do mundo também está a lidar e a lutar contra o crescimento muito baixo e não tem pressa em ter grandes défices comerciais. Outra possibilidade é a de que de repente se assista a uma rápida e dramática mudança de rumo na União Europeia a caminho de completa União Orçamental na zona euro e em que a soberania, para todos os efeitos práticos, é integralmente transferida para Bruxelas (ou Berlim). Mas isso provavelmente não vai acontecer – a ascensão do nacionalismo em toda a Europa tem tornado esta perspectiva como improvável e cada vez menos provável.
Então ficamos principalmente com estas três formas a poderem ser utilizadas pela Espanha e levar a que esta alcance uma estrutura de custos que a torne competitiva e lhe permita amortizar a sua dívida enquanto simultaneamente está a crescer. Quem quer que seja que exclui duas destas três vias acima referidas deve automaticamente implicar que Espanha seguirá a terceira via. Então qual é a que vai ser seguida?
(continua)
________



2 Comments