Faz este ano dois séculos sobre o nascimento de Miguel Bakunine (1814-1876) e 150 anos sobre a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (1864-1872). A Primeira Internacional procurou agregar organizações trabalhistas e organizações revolucionárias europeias, com distintas configurações, tradições de luta e percursos ideológicos, num projecto comum assente em princípios classistas com o duplo objectivo mítico de emancipar socialmente os trabalhadores e de destruir a organização social que emergiu com o industrialismo, assente na divisão em classes de interesses antagónicos, através da eliminação dos seus sustentáculos: o sistema económico capitalista e os valores burgueses. A Primeira Internacional, porém, foi dissolvida um ano depois da malograda experiência socialista na Comuna de Paris (1871), como resultado da cisão que opôs Marx e os seus seguidores, entrincheirados no Conselho Geral, às federações operárias anti-autoritárias que, no Congresso de Saint-Imier (1872), consagraram os princípios do anarquismo e do sindicalismo revolucionário, quando defenderam a greve geral revolucionária como meio de luta privilegiado para a destruição do poder político. Estes episódios na história do movimento operário parecem hoje interessar de forma marginal às novas gerações que, no meio da actual crise civilizacional, persistem na busca instintiva de um presente e de um futuro que mereça ser vivido.
Apesar disso, os sinais de incerteza e de crise civilizacional do tempo presente contribuem para que o conhecimento da história dos movimentos sociais críticos e alternativos ultrapasse hoje o simples interesse memorialístico ou académico, merecendo a atenção daqueles que se preocupam com a actualidade (se não mesmo com a actualização) dos ideais libertários.
Assinale-se, pois, o interesse renovado por esta memória que encontramos nas recentes publicações, La Comuna de París. 1871 por Roberto Ceamanos (Madrid, Los Libros de la Catarata, 2014, em língua castelhana) e Negras Tormentas, por Alexandre Samis (o Federalismo e o Internacionalismo na Comuna de Paris, Rio de Janeiro, Hedra, 2011, 368 pp.; pref. por René Berthier), as quais vêm engrossar a extensa produção historiográfica internacional sobre a Primeira Internacional e a Comuna de Paris produzida desde o século XIX. Se é verdade que o leitor comum dispõe hoje de alguns textos de referência em portais na web conhecidos (Europeana, Jornal Oficial da Comuna de Paris, Associação dos Amigos da Comuna de Paris, etc.), sendo fácil o acesso a cópias digitais de fontes secundárias e primárias relevantes, a sua crítica interna exige, porém, uma erudição que a tecnologia não ultrapassa. Desse ponto de vista, quer a obra de Roberto Ceamanos quer a de Alexandre Samis, que justifica esta nota de leitura, constituem bons pontos de partida para quem queria conhecer os factos históricos e o debate intelectual que precedeu e acompanhou a formação da Primeira Internacional e a experiência revolucionária parisiense de 1871.
Ao contrário do que é comum hoje em trabalhos de cunho académico, o leitor não encontra nas Negras Tormentas de Alexandre Samis um enunciado teórico de uma problemática, que se adivinharia complexa, ou um conjunto de questões claramente identificadas. Através de descrições literárias memorialistas, somos introduzidos “no espírito do tempo”. Esses apontamentos imagéticos conduzem à narrativa dos factos históricos que, por sua vez, sustentam a explanação da construção intelectual que sobre eles foi feita através de diferentes doutrinas sociais. O leitor mergulha assim numa viagem pela história (narrativa), onde se pretendem apurar os factos e estabelecer as conexões que sustentam empiricamente as construções teóricas em que assenta o património intelectual do anarquismo. Para o fazer, Samis apoia-se na historiografia predominantemente francesa (onde pontuam os trabalhos de Robert Mandrou, Fernand Braudel, Maurice Aguillon, M. Volvelle), em historiadores do movimento operário como E. Dolleáns, Edward Hallet Carr, Eric Hobsbawn, Jean Maitron, enfim, em analistas e actores contemporâneos como Toqueville, Proudhon, Marx ou Bakunine. Os factos evidenciados sobre a Comuna de Paris assentaram essencialmente em trabalhos e testemunhos oitocentistas como os do socialista revolucionário Prosper-Olivier Lissagarrey (1838-1901), da communard anarquista Louise Michel (1830-1905) ou do biógrafo de Bakunine, James Guillaumme (1844-1916).
Tal como muitas obras oitocentistas sobre a Primeira Internacional, a narrativa do historiador brasileiro começa com a evolução política francesa no período da Restauração e com a reacção burguesa à tentativa de Carlos X para levar a França de regresso ao Antigo Regime. Neste processo os historiadores encontram a origem da Monarquia de Julho (1830), breve experiência revolucionária popular que levaria ao poder o rei-cidadão Luís Filipe. Até à revolução de 1848 (p. 47), o historiador brasileiro destaca a importância da greve dos operários tecelões de Lião, em Abril de 1833, esmagada por A. Thiers na Semana Sangrenta. A narrativa prossegue com as “Jornadas de Junho e a Assembleia constituinte” (p.55), com descrição da malograda experiência revolucionária de 1848. Ora, a evolução económica ulterior da França fez-se no sentido inverso ao das aspirações de 1848 (p. 93), sendo este o caldo de experiências sobre o qual Pedro-José Proudhon (1809-1865) desenvolveu a sua doutrina social. A sua experiência como deputado, irá levá-lo a distanciar-se d’ “esta insensatez do sufrágio universal [que] engana os tolos” (p.85), posição que é mais tarde reiterada também por Miguel Bakunine (1814-1876). O texto Da Capacidade Política dos Trabalhadores (1865) (p.84) surge assim como uma reflexão crítica sobre a experiência revolucionária acumulada pelos sans culotes parisienses. Samis subescreve, pois, a afirmação de Pierre Ansart (2002) que vê “o anarquismo como evidência teórica da prática viva da luta de classes” (p. 99). No essencial, Negras Tormentas é uma obra que procura fundamentar esta asserção.
No capítulo sobre a A.I.T. (p. 104), Samis documenta a criação dessa organização, mostrando como Marx influenciou a actuação do conselho geral. O âmbito e limites dessa influência não ficam, porém, claramente demarcados. Ora, se é verdade que os estatutos da A.I.T foram redigidos por Marx, não é evidente a marca marxista nesses estatutos que pretendiam ser abrangentes e consagravam as autonomias federais e das secções locais. Apesar deste aspecto não ter sido aprofundado, é interessante a forma como o autor passou em revista os temas em debate nos congressos da AIT (com destaque para os congressos de Genebra, Lausanne, Bruxelas) que referenciam o ideário socialista operário: uma educação laica e livre, integral, o anti-militarismo (a guerra às guerras dos Estados e a oposição aos exércitos profissionais), a luta contra os impostos. No Congresso de Bruxelas, mostra-se que as teses proudhonianas sobre as cooperativas, as mutualidades, o crédito mútuo popular, a instrução integral, a redução da jornada de trabalho, etc., têm pleno vencimento.
Ao contrário do carácter abrangente da AIT, o programa da Aliança Democrática e Socialista, onde pontuava o revolucionário russo, era distintamente libertária, definindo princípios ateístas, anti-estatistas e igualitários (nomeadamente, pela abolição do direito sucessório e pela igualdade entre os sexos). As ideias defendidas por Bakunine no Congresso da Paz e da Liberdade, em Genebra, quando considera a ideia dos Estados Unidos da Europa (1867), longe de se opor aos ideais federalistas e mutualistas de Proudhon, surge na linha de continuidade ditada pela experiência revolucionária europeia.
O capítulo sobre Comuna de Paris segue a narrativa cronológica dos factos políticos que a antecedem: um breve apontamento sobre a guerra Franco-Prussiana, o papel (secundário) da Internacional e a experiência da Comuna de Lião (p.201). No essencial, a narrativa do historiador sustenta, “explica” ou permite “compreender” a natureza dos debates e das clivagens ideológicas subsequentes. Daí que muita informação essencial carreada pela investigação histórica, como o grau de implantação da A.I.T. junto dos trabalhadores europeus e americanos, medida pelo número de quotizantes efectivos, ou a capacidade real de mobilização dos trabalhadores surja por vezes em apontamentos de nota de rodapé. Interessou mais ao autor a forma como Marx via a Internacional: uma organização que não passaria de uma etapa a favor da centralização política (p. 203); ou a oposição movida a Bakunine no Congresso de Basileia. Por isso, Samis realça as diferentes leituras de Marx e Bakunine face à guerra prussiana e as suas consequências: para Bakunine, a guerra seria principalmente uma oportunidade para o levantamento das massas; para Marx, seria uma oportunidade dos proletários alemães ganharem uma posição de domínio na A.I.T. e futuramente numa Europa comunista (pp. 206-207). Para ele, a emancipação do proletariado não subordina a nação (que estava reduzida à categoria de identidade cultural no programa da AIT) mas antes se dilui na nação. Surge-nos assim um Marx assustadoramente mais próximo de um socialismo nacional, de matriz republicana, que se realizou historicamente nas democracias populares do século XX, e que configura, na ordem internacional, num futuro comunista imaginado, uma hierarquia de diferentes nações proletárias. Em suma, a doutrina de Marx, com pretensa com base científica, encontra-se distante do humanismo revolucionário de Bakunine, que é um crítico da violência jacobina e da ditadura dos igualitários, e um adepto do federalismo, das possibilidades de auto-organização das sociedades a partir de princípios corporativos libertários. Temos, pois, duas perspectivas irreconciliáveis sobre o devir histórico e sobre a natureza das organizações operárias que “explicam” a cisão futura no seio da A.I.T. No entanto, ao contrário do que Samis afirma, não é evidente que a Internacional tenha sido destroçada pela guerra prussiana (p.220), visto ter ainda uma influência relevante durante a guerra civil em França e nos levantamentos urbanos. O facto do apelo da AIT, dirigido ao povo alemão, em 1871, para que retirasse do solo francês, não ter produzido quaisquer resultados nas hostes prussianas, sugere antes que a sua capacidade de influência era deveras limitada na sociedade alemã. A enorme redução nos efectivos ocorre depois das matanças de Paris pelas tropas de Thiers.
A última parte da obra incide sobre a Comuna de Paris (p. 229 e ss.) sendo a narrativa muito apoiada nas análises críticas feita por contemporâneos como Lissagarey, Gustave Lefrançais (1826-1901), por historiadores do movimento operário francês como Jean Bruhat (1905-1985), Maurice Dommarget (1888-1986), Henrich Koechlin (1918-1996), por testemunhos como a de Louise Michel ou por textos de Jules Vallés (1832-1885), que foi jornalista do Le Cri du Peuple, um dos jornais mais lidos no período da Comuna. A narrativa esclarece sobre o alcance socialista da política da Comuna no contexto da guerra civil (pp.269) bem como sobre as divisões no seio dos revolucionários que enxameavam os clubes de Paris, e que opunham os seguidores de Blanqui aos jacobinos. Atenta depois sobre a dimensão revolucionária da Comuna, dando destaque às organizações de mulheres, à federação dos artistas e dos camponeses (p. 293).
O final da obra é dedicado à violenta repressão do exército de Versalhes que se abateu sobre os revolucionários (“Prisões, tribunais e deportações”, p. 325) e à avaliação histórica dessa experiência socialista que foi a Comuna de Paris, feita por contemporâneos à esquerda após o seu malogro. Entre estes encontramos Vítor Hugo, Emílio Zola, Elisée Reclus, Carlos Marx, Frederico Engels (p.346), Miguel Bakunine, que viu nessa experiência “uma negação audaciosa, bem pronunciada, do Estado” (“A Comuna e o Socialismo Revolucionário”, p.339) ou, mais recentemente, Cornelius Castoriadis (1922-1997). Samis descreve a violência desencadeada pela burguesia contra os revolucionários de Paris, violência essa que, pela sua intensidade e dimensão sanguinária, iria caracterizar as guerras de classe que marcaram o século XX, desde a guerra civil russa (1917-1922) até à Revolução Espanhola (1936-1939). Marcou essa violência também a actuação internacional concertada das polícias políticas especializadas, entretanto criadas, com vista à manutenção da ordem pública, à eliminação das ameaças revolucionárias e à contenção do movimento operário como força revolucionária.
Alexandre Samis conclui a sua narrativa histórica, afirmando que a Comuna de Paris não foi o fim de um ciclo, menos ainda o início de outro; mas a fronteira, um marco que não se presta a transformar-se em linha de chegada ou partida, mas que definiu nas suas práticas concretas os elementos fundamentais da democracia popular do século XIX (p. 359). Deste modo, a sua conclusão faz-nos regressar ao terreno estéril dos velhos debates marxistas sobre a maturidade histórica das “manifestações de classe”, tomados como processos evolutivos que acompanhariam o desenvolvimento das forças produtivas. Apesar do que se disse, Negras Tormentas permite ao leitor inscrever e compreender as referências históricas doutrinárias do obreirismo socialista libertário no quadro, não de um panteão de pensadores iluminados, mas no conhecimento reflexivo que adveio da experiência histórica dos operários europeus e que alguns souberam talvez expressar melhor. Foi esta experiência marcada pela capacidade de sonhar a realização colectiva da felicidade na Terra, manifestou-se na rebeldia dos espíritos críticos, na resistência a todas as formas de autoridade, na rejeição dos valores burgueses da propriedade, da família e dos Estados-nações, emergiu acidentalmente na euforia dos breves momentos de libertação, mas nela se encontra também o sofrimento indescritível vivido colectivamente nos momentos de repressão