* (Elias J. Torres Feijó, é Professor de Literaturas de língua portuguesa e metodologia na USC, Diretor do Grupo Galabra, Presidente da AIL e diretor da revista Veredas)
Na mina opinião, a mais determinante questão em relação à língua, à sua codificação, usos, perceções, etc., que @s galeg@s deveríamos resolver quanto antes é se somos um resultado ou um processo. Eu acho que a melhor opção, por mais correta e produtiva, é que é um processo. Toda a língua é um processo, eu sei: muda de quadros de posição e função, interna e externamente, nos usos e nos modos de uso. Mas o que pretendo dizer é que, se recuperarmos um sentido, o mais coletivo e consensual possível, de que estamos em processo, talvez tenhamos ganhado alguns passos de utilidade e satisfação.
Que quero dizer com processo? Que o que ela pode ser de modo o mais comum possível (digamos, standard…) está em construção e também as suas periferias…; que está em processo o que é de mais ou menos importante nela, que está em processo o seu papel ou os seus papéis na comunidade galega e nos seus diversos setores, que está em processo a hierarquia que ela ocupa nos instrumentos, referências e símbolos na sociedade galega… Somos, assim, umha comunidade alegadamente milenária… em transição. A isto nos conduziu a vida e as suas circunstâncias. Isso, por exemplo, explica muitas atitudes de pessoas de comunidades de língua portuguesa em relação a galegos e galegas e de muit@s destes/as em relação a essas comunidades: se a nossa mensagem for que estamos em processo, o olhar pode ser mais simpático em relação a nós; e talvez ajude a galegos/as a interpretar melhor os modos de relacionamento e as impressões que recebem de portugues@s, as pessoas mais próximas geograficamente… Se a afirmação for, do ponto de vista reintegracionista, estarmos em processo e, no ritmo que possamos e tenhamos, caminharmos para a confluência com as outras normas da língua portuguesa, em que nos sentimos inserid@s: esperem, ajudem e desfrutem, o caminho será mais confortável e provavelmente mais feliz…
Talvez seja boa ideia trabalhar as questões linguísticas unidas a outras questões da cultura. Somos umha comunidade percebida, dentro e fora, como singular e diferencial. Muitas pessoas ficam bravas quando dizem de alguém de nós que é “Mui galego”, ou apelam para o “pior sentido” de ser galego, porque é cauto, porque não se sabe se sobe ou desce (ela sabe), polos modos de estar, fazer… Na verdade, seria bom que atrás da indignação (que não comparto, eu fico feliz, mas isso é cousa minha) vinhesse a reflexão dum modo de ser, dumha identidade bastante consensual, com independência dos modos particulares de cada quem. A nossa relação com a terra, a comida, as pessoas, tem marcas próprias. A língua faz parte desse nosso modo de ser, de como vemos e organizamos o mundo, de como nos relacionamos e atuamos nele. Talvez, recuperarmos ou impulsionarmos olhares e usos sobre o território mais sustentáveis, horários de atividades e refeições, próprios seja um benefício, saudável física e mentalmente. Explorar a língua do ponto de vista relacional, unida à nossa persistência (por benéfica) de continuarmos sendo galeg@s, seja umha boa ideia. Já agora, boas excursões ao norte de Portugal estou certo que darão pistas do que, em alguns casos, fomos e estamos perdendo, para a nossa insatisfação (a comparação cultural entre a Galiza e o Norte de Portugal seria um projeto de pesquisa verdadeiramente atrativo e, provavelmente, o que mais nos poderia informar sobre como fomos e somos, urbanamente, ruralmente, na costa ou no interior).
Será bom ouvirmos as excêntricas: aquelas pessoas de idade que viverom umha Galiza e um mundo com cousas boas que vamos perdendo e que não ocupam lugares centrais de poder ou de influência (sim, camponesas, por exemplo); e aquelas pessoas, hoje, por diferentes razões, fora do país, que podem deitar um olhar extraordinariamente pertinente sobre o que é ser galego/a e para que serve… (espero ter espaço na vida para fazer isto…)
Certamente, aceite este provável princípio do processo, a questão passa a ser quanto de alargado ele é em objetivos e conteúdos e para quem, e aí aparece, claro, o conflito; mas o conflito (depende do seu volume, modo e intensidade) é o motor da evolução das sociedades, em muitos casos para melhor… : para muitas pessoas haverá resultado onde para outras haverá processo: e para as pessoas que estimam que há processos, os alvos e os caminhos podem ser díspares… O conflito é fonte positiva de caminhar para melhor se ele é assumível pola comunidade sem apresentar fraturas ou quebras drásticas, se é suficientemente amplo para o debate e restrito para as soluções. Em termos de língua, há quem pensará que o urgente é a oralidade, outros a escrita; há quem pense que o sufixo –ção é legítimo e outras pessoas aporão –çom ou –ción, ou –zón; há quem julgue que a língua é o principal elemento da identidade galega; e haverá quem não… Há quem pense que deve avançar-se em determinado caminho normalizador e há quem recuse esse conceito de normalização, sem acordo nas razões… Há quem considera que a aproximação e confluência na escrita com @s utentes da que seria língua comum é básico; e há quem julgue que, tratando-se de duas línguas diferentes ou não, as cousas estão bem substantivamente com a norma RAG… A inteligência coletiva, se se permitir funcionar (isso que agora está interdito na Galiza em termos de língua), dará os melhores frutos de coesão e possibilidades. Provavelmente, o consenso sobre se processo ou resultado como elemento geral ajude a entender as perspetivas em jogo e os modos de vivê-las… Claro que o correlato poderia ser que todas as hipóteses tivessem possibilidade de materializar-se em, ao menos, determinados âmbitos, em situação de igualdade, mas não vou enveredar por aí…
Na sequência destes apontamentos, interessa-me formular algumhas perguntas que são dúvidas (há aqui um trabalho empírico forte: aí seriam pré-hipóteses de trabalho…):
- A língua não representa para o conjunto do povo galego o que representa para determinadas suas elites culturais e políticas: nem é o principal traço, sentido e vivido, da sua identidade nem é identitário do modo que as elites julgam: é um veículo de comunicação que apresenta traços de relação afetiva e referencial bastantes distantes dos oferecidos por essas elites; não funciona como instrumento político para muitas pessoas duas utentes. Mas
- A língua é mui importante para todas as pessoas da comunidade; só que não sabemos para quais grupos e, fundamentalmente, em qual nível e em qual hierarquia: nacional, comarcal, familiar, de classe?
- Enganamo-nos (precisamente por preconceito derivado do influxo da pressão anti-galeguista que queríamos combater) ao dar um valor secundário à oralidade (sotaques, pronúncias, prosódias, entoações…), que é umha parte forte e certa das pessoas utentes de sempre da nossa língua, ao dar preeminência ao meio escrito, o que colocou maior distância entre utentes e propostas/imposições (por exemplo, na escola ou nos meios de comunicação)
- Compatibilizamos e identificamos pouco a língua com outros elementos socialmente relevantes em termos de identidade e de afetividade identitária (família, amig@s, aldeia, vila, gastronomia, território, paisagem…)
- A insistência no uso como parte do processo normalizador tem gerado problemas com setores utentes da língua, que se sentem distantes da perspetiva adotada sobre a língua por algumhas elites e por outros que, sendo partidári@s do “apoio ao galego” não concretizam esse apoio no uso (setores da juventude urbana, por exemplo e fundamentalmente: aqueles seriam setores esquecidos; estes sobrelembrados (e talvez abandonando o apoio mais explícito ou intenso para não se sentirem ou aparecerem como incoerentes ou, pior, traidor@s…)
- Num quadro relacional com as restantes comunidades de língua portuguesa, não temos determinado bem ainda (e agora escrevo mais apuradamente dumha posição reintegracionista: já agora, era bom desenganar o pessoal de que, com a atual norma, tem limpo acesso aos mundos de língua portuguesa…!), que elementos do nosso repertório linguístico ou exclusivos ou em desuso nessas comunidades vamos manter. Aqui, parto de que os nossos modos genuínos podem ser ativos relacionais importantes, mas conviria saber quantos e como…
- Ainda que há realizações intuitivas notáveis, pensamos pouco coletivamente no papel da Galiza no quadro lusófono; duas posições e funções, bastante interrrelacionadas, podem ser nucleares: ponte e policentrismo. Quero dizer, a Galiza como elemento relacional e distributivo de interesses de países ou comunidades de língua portuguesa na Europa ou na América, por exemplo; e a Galiza como novo ponto no quadro de língua portuguesa reforçando o policentrismo; o policentrismo é básico para a geração de dinâmicas de avanço, sendo, aliás, que nós não temos contenciosos históricos de classe nengumha com os outros países de língua portuguesa, cujo modo relacional não é fácil tendo em conta assimetrias de habitantes, economias, possibilidades e os processos de des/colonização da metrópole portuguesa, muitos deles ainda recentes. A Galiza, galegas e galegos, de dentro e de fora, tem no policentrismo político, cultural, geográfico, de língua e de sotaque um papel verdadeiramente forte.
- Provavelmente, haja que fortalecer mais projeto coletivo e ação conjunta daquelas pessoas que propomos a via reintegracionista (que é cultural, não apenas linguística) como a mais genuína e, ao mesmo tempo, capaz de poder reforçar continuar sendo o que historicamente temos sido, recuperando alguns dos nossos traços fundamentais, hoje estropiados ou preteridos, alguns, nucleares, em risco de desaparecimento real. Ação conjunta não significa fazermos tod@s tudo. Significa deitar mão dos ativos que temos em cada momento para atingir objetivos; significa abrir espaço para a promoção de outras pessoas ou grupos, evitando algumha tendência para o individualismo de procurar um particular lugar ao sol; pensar que o melhor lugar ao sol é comparti-lo e facilitar a outras pessoas obtê-lo pode ser bem melhor; enfim, compatibilizando com a sombra…!
Um dos problemas que as pessoas ativistas culturais têm é o de não ver resultados da sua ação; ao lado de ser útil elaborar indicadores para medi-los, partir dumha atitude transitiva pode ser verdadeiramente satisfatório, harmonizando objetivos e resultados previstos. A transição e a sua modulação de acordo com as possibilidades das pessoas e dos grupos é umha boa via para avançar com satisfação. E, na medida em que essa ideia pode ser alargada, mais pessoas podem aderir a um programa como esse. Conceber a ação como processo e transição implica dar muito valor ao caminho a percorrer e, ao mesmo tempo, ao caminho que se vai construindo no avanço, aos seus lugares e aos seus marcos. Isso fornece força e possibilidade de cumprimento de objetivos modestos mais plausivelmente, o qual é, mais umha vez, oportunidade de satisfação e combustível anímico para continuar à procura de novos lugares, marcos e satisfações.
Elias J. Torres Feijó
