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Para o João Lombardeiro, cronista sagaz do quotidiano delirante.
É famosa a frase que se atribuiu ao grande poeta Eduardo Pondal na hora da morte: “destes-me uma língua de ferro, devolvo-vos uma língua de ouro”.
Eduardo Pondal, imaginámo-lo sempre de céltico tatuado mas fardado de Hoplita espartano, numa mão o Ossian de Macpherson, na outra o Tirteu de Duruy, no meio de duas arrebatadas inspirações, ambas românticas e nacionais, como bem representava aquele busto nos jardins da Crunha entre um pinheiro retorto céltico e um outro lançal helénico, hoje já desaparecidos.
Autor da letra do Hino galego, senhor de um universo poético e estético que abrange do exótico e remoto Oriente até as terras do Sol-por além do mar, contribuiu como poucos para a reconstrução não apenas de uma Literatura culta em língua galega quanto para a fixação histórica e política do imaginário basilar no momento e contexto histórico; é, com Rosalia de Castro e Manuel Curros Henriquez, um dos mestres indiscutíveis daquela geração que protagonizou o movimento de restauração linguística, política e cultural, na segunda metade do XIX, a que chamamos Rexurdimento.
Depois, e com fases diversas, perseguições, diminuições, polémicas, trunfos e hesitações, a língua galega literária foi-se criando, primeiro verso, a seguir prosa breve, teatro e mais tarde prosa plena em romance. Evolução que a Guerra Civil, o exílio distante e o franquismo cultural quebraram sem que o autonomismo soubesse restaurar, mas que – quando menos em breve prosa e verso – continuou, mesmo como referente a última, até hoje, no âmbito peninsular.
É indubitável que a tradição lírica galega, a “poesia soberana” da que nestas páginas falava a Iolanda Aldrei, é sólida, constante e referência, e que hoje por hoje, mesmo em ausência de um mercado literário consolidado, o sistema, a criatividade e a originalidade reborda as margens e brilha, em momentos possíveis, com certo esplendor áureo, na prosa breve e romance.
Temos, pela mão dos poetas e prosistas, atuais e devanceiros, uma língua de ouro, trabalhada em filigranas e levantada sobre restos cultos medievais; sobre clássicos portugueses e castelhanos; sobre uma tradição de caminhos, experimentos, restauros, invenções, erros afortunados e experiências; e sobre um conjunto de falas populares que conservaram uma rara dignidade de estilo e um mundo próprio e sonoro de recursos léxicos, morfológicos e sintáticos.
Deram-nos, com esforço e orgulho, uma língua de ouro, corresponde aos nossos tempos contribuir para poder devolver uma língua culta comum, de plástico e fibra de carbono, necessária para dia-a-dia.
