O desemprego é uma medida muito clara dos efeitos das políticas governamentais, e das opções a que estas conduzem. Como a quase totalidade das pessoas depende de ter trabalho remunerado para conseguir ter uma existência com alguma autonomia (assentemos em que ter casa, própria ou alugada, e meios para obter alimentação e vestuário com um mínimo de condições é uma base indispensável para uma vida com um mínimo de dignidade), quando os postos de trabalho diminuem a vida piora, quando aumentam a vida melhora. Elementar, é verdade, mas um facto muito concreto que nem sempre é tido em conta. E as políticas nacionais, internacionais, transatlânticas, europeias, asiáticas, etc., desde a época Margaret Thatcher/Ronald Reagan que têm assentado predominantemente na redução do custo do trabalho, e na opção pelo investimento financeiro, com raras excepções (energia, armamento)
Entretanto, aqui no nosso canto, mergulharam-nos numa discussão inextricável sobre como é que realmente se mede o desemprego. O eleitoralismo campeia, e o esclarecimento não abunda. É evidente que o número de postos de trabalho não tem aumentado, tem diminuído. As maquilhagens da situação não foram inventadas agora, mas tem sofrido bastante intensificação. Aparecem situações estranhas que permitem que quem esteja a receber subsídio de desemprego trabalhe sem remuneração, e outras igualmente complexas. Diz-se alto e bom som que a criação de emprego se deve ao sector privado (oiça-se o ministro Pires de Lima, que não parece ser gago), de onde se infere que o sector público não o tem feito. Arriscamo-nos a que, quando o Verão terminar, e vierem as eleições, de repente, sejamos sujeitos a um crescimento brutal da taxa de desemprego.
Apesar da crise bancária, o investimento em produtos financeiros parece continuar a ser elevado, em detrimento do comércio, da indústria ou da agricultura. E é de temer que a opção por obras faraónicas continue a ser a favorita de governos futuros, mais ciosos de cultivar a sua imagem, do que promover um desenvolvimento sustentável. Por outro lado, o fenómeno economia paralela/trabalho clandestino tem com certeza crescido, escasseando a informação sobre o que representa actualmente no conjunto da economia. E a pressão sobre os serviços públicos é cada vez maior, desautorizando o trabalho de entidades como o INE, o IEFP, e outros, de cuja capacidade de desenvolver um trabalho rigoroso, depende muito o êxito da recuperação do país.
Propomos a leitura de dois trabalhos de Eugénio Rosa, que abordam este tema tão actual. E também de dois artigos que também trazem ideias que serão de ter presentes:
http://www.cmjornal.xl.pt/nacional/politica/detalhe/mais_austeridade_apos_as_eleicoes.html

