CARTA DE VENEZA – JARDINS NUMA CIDADE DE PEDRA – por Vanessa Castagna

carta de veneza

 

Jardins numa cidade de pedra

 

Venezia è un pesce (“Veneza é um peixe”) é um livrinho brilhante e competente de Tiziano Scarpa sobre Veneza, cujo título remete para a forma da cidade lagunar. Uma das metáforas interessantes que o autor sugere para este lugar encantado é a da carapaça, sobretudo em virtude da sua “casca de pedra” e das suas estradas calcetadas de traquito. A sensação de uma cidade pétrea é dada também pela densidade de edifícios que se justapõem de todas as formas, com fachadas rebocadas ou, muitas vezes, em tijolo ou com revestimento de pedras vindas outrora de fora, no caso dos palácios. Tirando pequenos retalhos de verde urbano, pode-se aproveitar um amplo espaço arborizado só no “rabo do peixe”, que Napoleão quis dotar de jardins públicos. De facto, Giardini é o nome atribuído a essa área, que abriga o núcleo central da exposição da Bienal de Arte e Arquitetura.

Mas a cidade tem os seus encantos segredos e, por trás de portões e muros habitualmente guarnecidos de ameias (indício da presença de um jardim), escondem-se inesperados oásis particulares, um verdadeiro luxo para os venezianos. Neste começo de outubro, quase na reta final das exposições internacionais que todos os anos atraem visitantes do mundo inteiro, decorre um festival que se destina principalmente a quem mora na cidade. Trata-se do Festival dos Jardins Venezianos, que durante três dias (2-4 de outubro) organiza visitas e passeios guiados pelos jardins da cidade e das suas ilhas, proporcionando a possibilidade de descobrir espaços pouco conhecidos que não costumam estar abertos ao público.

A iniciativa é completamente a cargo da associação sem fins lucrativos Wigwam Club Giardini Storici Venezia (http://www.giardini-venezia.it/), empenhada em projetos de valorização e promoção dos jardins históricos, um património que abrange a botânica, o meio ambiente, a arquitetura e a arte. Em tempos de crise, os jardins, tradicionalmente símbolo de prestígio social, tendem a ser abandonados ou descurados, registando-se nas últimas décadas uma perda de saberes e de competências num ofício tão complexo como o de jardineiro. Itália é um país que no passado contribuiu de uma forma notável para a história do jardim, a par de outros países, como França e Inglaterra, cada qual com a sua tradição e o seu estilo, e os esforços de associações como a acima referida revelam uma progressiva consciencialização e uma crescente demanda de recuperação dos espaços verdes para a cidade. No caso de Veneza, nos últimos anos também se destaca a publicação de muitos livros dedicados aos jardins históricos que a laguna esconde.

O interesse pelas visitas organizadas nesta edição do Festival dos Jardins Venezianos é enorme, tanto que os lugares disponíveis esgotaram muito rapidamente. A procura de um lugar de sossego e meditação, onde a perícia do homem orientou a natureza numa obra de arte de que se pode usufruir num contacto experiencial, parece caracterizar boa parte da população que vive em cidades de pedra, ou de cimento, com ritmos de vida cada vez menos humanos. Para além de criar e revitalizar parques e pulmões verdes nas áreas metropolitanas e seus arredores, seria desejável valorizar as pequenas ou grandes jóias que correm o risco de se ofuscar.

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