
Seguramente seja o XIV o século mais turbulento da história da Galiza e o prelúdio do fim das estruturas económicas, políticas e sociais de caráter feudal que definiram por quase um milénio os ritmos e o relacionamento das elites e da sociedade galega; e que o século XV, com a consolidação das monarquias e a formulação definitiva dos estados como entes políticos associados a um trono, enterraria.
Pela Europa inteira, o aumento de população das duas centúrias anteriores, devida à expansão das cidades, vilas e burgos, aparelhara uma paulatina transformação do consumo e do comércio que pela primeira vez desde a queda do Império romano, era concebido à grande escala, com especialização regional de produtos, importações e exportações, circulação de capitais, transporte de grandes quantidades de mercadoria e de matéria prima, por mar e em menor medida por terra.
As cidades aumentam, os burgueses e entre eles os comerciantes, conformam uma nova classe emergente, na qual aparecem especializados ou associados os cambistas, os banqueiros e os letrados; com eles a documentação, as cópias, as línguas, as letras que simplificam as escritas na procura de universais, e o papel vão criando um sedimento no que emerge o humanismo. As cidades concorrem atraindo artistas e artesãos e os grémios fazem parte do cenário.
As taxas e impostos aumentam, o controlo das matérias primas, as feiras, os portos e os mercados passam a ser objetivo prioritário dos diversos senhorios eclesiásticos, nobiliárquicos e da Coroa. Os direitos sobre os portos, a circulação de mercadorias, o controlo do trigo, o vinho, o azeite, as conservas, as importações de países distantes, a ideia da África e as Índias enxerga-se com ideia de ouro, escravos e especiaria.
O incremento de riqueza e capital é exponencial. Enriquecerão casas, personagens e figuras; secretários, banqueiros, e tesoureiros passarão a desempenhar papéis de agentes políticos principais, modificando-se aos poucos os equilíbrios tradicionais, entre linhagens, famílias e as dinastias.
Entre 1309 e 1515, por toda a Europa esses centros irão formando redes de interesse e poder, que terminarão por criar, após uma fase de guerras nobiliares internas, das quais emergirão umas novas elites; sucedidas por guerras civis em que se decidirão as dinastias modernas e que terminarão por atingir em alianças de interesses, que implicarão a mesma Igreja, todo o continente, na consolidação dos primeiros teatros geográficos definidores das potências Europeias.
O confronto entre a França e a Inglaterra finaliza com a eliminação do espaço Normando-Burgundio, e o declínio, com ele, da poderosa Casa da Borgonha, afetará também a confomação política da Península. A Bretanha, a Aquitânia, a Normandia e a Borgonha, ficam fora do espaço Anglo-atlântico para entrar a fazer definitivamente parte da coroa francesa, convertida na maior potência da época. A Gasconha e a baixa Navarra ficam também dentro do espaço francês.
O império aragonês, em cuja expansão pelas ilhas do mediterrâneo e política familiar, chegara até à Itália, ameaçado pela França emergente, que lhe disputa o Rosillão e Itália, terminará, por causa dos interesses dos Trastámara, dinastia reinante após o compromisso de Caspe (1412) fazendo parte do espaço peninsular.
À morte do rei Fernando, ultimo da dinastia da Borgonha, Portugal, reforçará a sua independência com a Dinastia dos Avis. É interessante, integrar neste contexto o período de crise 1383-1385, e nele o papel das elites galegas e o ascenso e interesses contrários da nova e fundamental dinastia.
Em paralelo, a incorporação em 1370 do Senhorio de Biscaia na coroa castelhana, pela nova dinastia de Trastâmara (Henrique II, 1369), implicará um progressivo auge da nobreza cântabra, burgalesa e riojana, tradicionalmente, pro-navarra e pro-aragonesa, e um deslocamento do poder e interesses económicos para Aragão.
As consequências do achegamento de Aragão e Castela, neste cenário internacional em conflito de interesses geo-estratégicos, comerciais e dinásticos modificarão radicalmente os teatros políticos na entrada do Renascimento. O sul da França, perde peso em relação ao norte. O arco mediterrâneo, política, cultural e economicamente, de Valência a Itália, fica dividido em dous blocos, com a Provença deslocada e a Itália em disputa. Castela, aragonesiza-se, italianiza-se, política, linguística, cultural e militarmente, virando os olhos para o Mediterrâneo.
Portugal, anglófilo e atlântico, até daquela vinculado em interesses, famílias e dinastias a Castela, começa a ficar fora do novo espaço político peninsular. A antiga nobreza, que tomara voz por Castela [Leonor Teles, o Senhor de Andeiro] e saíra derrotada nesse confronto, concentrava-se nas regiões de Entre-Douro-e-Minho e Trás-os-Montes; na crise de 1383-1385 é no sul do reino que se contitui o partido vencedor.
A Galiza, com os mesmos interesses económicos, comerciais e geográficos, não encaixa na construção dos Avis nem dos Trastâmaras e vai se tornando periférica. Dividida a sua elite entre uma antiga nobreza, antitrastamarista e fortemente ligada à velha nobreza nortenha portuguesa, e uma nova nobreza que se achega progressivamente para os novos espaços de poder, também progressivamente deslocados a Sul e Leste.
A consolidação dos tronos ou a predominância dinástica associada a conflitos em espaços geo-estratégicos, cuja mais clara consequência é a chamada Guerra dos Cem Anos modificou definitivamente a imagem do mundo.
É neste contexto que o humanismo peninsular, na escola de Petrarca, e Boccaccio, no preciso momento que as línguas e as literaturas romances, como os próprios reinos, emergem cara a modernidade, em que os textos dos Enrique de Villena, o Marquês de Santillana, Fernão Lopez e Joam Rodriguez do Padrão revelam-se mui para além do carácter saudoso que se lhes apõe, destacando-se no seu triplo papel de agentes, profetas e testemunhas de um mundo novo.
[…] E despues fallaron esta Arte, que mayor se llama, et el Arte comun, creo en los Reynos de Galicia, é de Portugal, donde no es de dubdar, que el exercicio de estas sciencias, mas que en ningunas otras Regiones, et Provincias de la España, se acostumbró, en tanto grado, que no há mucho tiempo, qualesquier Decidires, ó Trobadores de estas partes, agora fuesen Castellanos, ó Andaluces, ó de la Estremadura, todas sus obras componian en Lengua Gallega, ó Portuguesa.
Acuérdome, Señor muy magnífico, siendo yo en edad no provecta, mas asaz pequeño mozo, en poder de mi abuela Doña Mencía de Cisneros, entre otros libros haber visto un gran volumen de Cantigas Serranas, Decires Portugueses, y Gallegos; cuyas obras aquellos que las leían, loaban de envenciones sotiles, é graciosas, y dulces palbras. [···] (cito por P. FR. MARTIN SARMIENTO: MEMORIAS PARA LA HISTORIA DE LA POESIA, Y POETAS ESPAÑOLES, T. I .- MAdrid, Ibarra imp., MDCCLXXV)
Texto atualizado em Proemio & carta, de Íñigo López de Mendoza, Marquês de Santillana, al ilustre sr don Pedro, muy magnífico condestable de Portugal.

Muito interessante este texto, sobretudo pelo quadro europeu no que insere a história galega. A decadência política galega vai coincidir com o final do seu esplendor literário. Para mim a cousa começou a se foder quando Fernando III arrebata o reino às suas irmãs dona Sancha e dona Dulce