Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Uma nova vaga de migrações 1ª PARTE
Quem quer a pele da Europa?
Pierre Le Vigan*, UNE NOUVELLE VAGUE D’IMMIGRATION, Qui veut la peau de l’Europe ?
Metamag , 26 de Setembro de 2015
Dezenas de milhares de imigrantes chegam à Europa e nomeadamente a França. Em certos dias, cerca de 10.000 pessoas passam a fronteira da Croácia, sem estar a falar de outras fronteiras da União Europeia (1). Média anual a este ritmo: mais de 5 milhões de novos “entrantes”. As nossas elites não se preocupam. Melhor ainda, congratulam-se. A Europa tem 500 milhões de habitantes, recorda um antigo director do Le Monde, Jean-Marie Colombani, de Slate.fr, um dos pilares da ideologia dominante. Que são 5 milhões mais?
É negligenciar que muitos dos actuais habitantes da Europa já não se sentem de forma alguma Europeus. O optimismo de Angela Merkel é a imagem dos outros líderes da UE. Aí está o défice demográfico, na Alemanha, que será pois resolvido. Como aquele que teria a França se este não tivesse já sido preenchido… pela imigração. Mas a imigração não responde somente a uma preocupação de demografia meramente quantitativa que prova a extraordinária redução da razão, nas nossas elites, ao cálculo aritmético. A imigração, é o exército de reserva do capital. Marx fala “de superpopulação relativa ou de um exército industrial de reserva” (2). A imigração, após o êxodo rural, é disso a forma contemporânea.
Para que serve este exército de reserva do capitalismo?
Para fazer pressão à baixa sobre os salários certamente, a dispor e em abundância de trabalhadores não declarados, permitindo-se lucros bem superiores ao custo de eventuais multas, desviar a cólera dos trabalhadores franceses – e de muitos imigrantes em situação regular – com razão incomodados contra as injustiças que representa a presença dos clandestinos e a impunidade de que beneficiam em muitos domínios (enquanto que nada de aquilo não seria possível sem a cumplicidade de toda a classe política LR-PS-Verts). Em suma, qual é o sentido desta imigração? Esta privatiza os lucros e estatiza os custos. As dificuldades de integração, o desmoronamento do nível escolar, a delinquência, os squatts, a americanização dos costumes, o niqab, (3) ou seja, lembremo-lo, o véu que só deixa aparecer os olhos, é para o povo da França. Os lucros, são para as grandes empresas que pressionam os seus subcontratantes que fazem eles mesmos recurso à mão-de-obra imigrada, regularmente regularizada de forma a gerar uma nova vaga migratória.
Os nossos povos, na sua imensa maioria, preocupam-se. Primeiro, na Europa do leste pouco habituada, tendo conhecido o comunismo protector, à sua maneira, às identidades nacionais e às vagas de imigração. E na Europa ocidental, onde, apesar da culpabilização sobre o crime que seria o não acolhimento “do Outro”, novos ícone, o não acolhimento recordaria “as horas mais sombrias da nossa história” – sem mesmo estar a falar da história do povo alemão – os nossos povos questionam-se se as vagas actuais de imigração, que se acrescentam a 200.000 entradas legais por ano apenas em França, e a uma demografia superior dos imigrantes em geral, não significaria o fim do nosso país. Direitos do homem e visão económica dos homens como sendo tão permutáveis como as peças de máquinas conjugam-se para gerar uma grande substituição de povo ou uma grande substituição. “Numa maneira de ver “ funcional” do ser humano, que um jovem Sírio ou um Somaliano substitua um Alemão de cepa que parte para a reforma numa cadeia de produção no fim mesmo da Saxónia, isso não põe nenhuns problemas”. “Somos todos seres humanos”, e tutti quanti…”, escreveu com razão Julien Rochedy (Pravda.ch, 22 de Setembro de 2015). “Ainda e sempre as fronteiras matam… Liberdade de circulação e de instalação!” exclama-se o jornal web de extrema-esquerda La Horde. O NPA diz mais ou menos a mesma coisa: “A sua Europa das fronteiras mata”. Parvos ou cúmplices? Quando se acredita na necessária uniformização do mundo e na ausência de real diferença entre os homens, é porque se está do lado do Capital. (O Capital é para Marx uma relação social. É o modo de produção capitalista e a ideologia que o acompanha ).
A ideologia dos direitos do homem serve a classe dominante
Karl Marx tinha, no entanto, demonstrado perfeitamente em A questão Judaica que o argumentário dos direitos do homem serve apenas os interesses da classe dominante. Na concepção burguesa dos direitos do homem, Marx tinha sublinhado que “o cidadão por conseguinte é declarado o servidor do ” homem” egoísta, que a esfera, onde o homem se comporta na qualidade de ser genérico, é abafada pela esfera onde funciona na qualidade de ser parcial, e que, enfim, é o homem como burguês, e não o homem como cidadão, que é considerado como o homem verdadeiro e autêntico “. Poder-se-ia substituir “o homem burguês”, que tinha ainda uma cultura, “pelo homem económico”, que já não tem nenhuma, mas a constatação de Marx não ganhou uma ruga, mantém-se perfeitamente actual.
Porque é que chegam tantos imigrados à Europa?
Porque os EUA e o bloco Atlântico desestabilizaram países que controlavam esta imigração: a Líbia, a Síria, o Iraque. Para não citar senão os principais. Porquê esta desestabilização (“o Novo Médio Oriente”, dizem os doutrinários americanos)? Por razões geopolíticas: não deixar senão Israel como uma forte potência no Médio Oriente, pôr a mão sobre o petróleo, fazer triunfar custe o que custar os seus interesses económicos, mas também por um comportamento visceralmente oposto à Rússia. Na Líbia e a Síria, a França esteve mesmo à frente dos atlantistas na destruição dos regimes existentes. Certamente, os países assim não apenas desestabilizados mas igualmente destruídos tinham enormes falhas internas. Mas nada devia levar, para um governo que estivesse preocupado com os interesses da França, a que se fizesse com que essas falhas se tornassem maiores ainda, e favorecer com isso os islamitas entre os rebeldes. Nada devia levar, excepto os interesses multinacionais, que se tribalizem nações para as enfraquecer e manipular ainda mais.
Nações enfraquecidas dão povos que se deslocam e pessoas que procuram a sua salvação individual. Ou em família. Para além do papel, geralmente deplorável, da NATO e da França reintegrada nesta máquina de guerra contrária aos nossos interesses e – o que é sem dúvida mais importante ainda – à nossa honra de povo livre da Europa, há ainda uma outra coisa. O quê? A ocidentalização do mundo e a mundialização. O mundo tornou-se plano, (Thomas Friedman, O Mundo é Plano — Uma História Breve do Século XXI) não há senão níveis mais ou menos avançados de “desenvolvimento”. Ou seja, o esquecimento de si-mesmo. Encontra-se os mesmos edifícios, os mesmos estabelecimentos “ Starbucks”, por toda a parte no mundo. Os imigrantes da última vaga dita síria têm todos as mesmas T shirts de inspiração americana. (Neste sentido, o crime está assinado). Os desfasamentos de civilização deram lugar aos simples desfasamentos horários.
A forma actual da mundialização, é a uniformização dos modos de vida e dos gostos, enquanto que as diferenças de rendimentos permanecem consideráveis ou estão até mesmo a crescerem. A americanização das mentalidades reina sobre o mundo. Aimé Césaire já no seu tempo se preocupava com isso : “ a americanização é a única dominação de que não se recupera .”
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