CARTA DO RIO – 75 por Rachel Gutiérrez

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Escrevo no sábado, 31 de outubro, “dia das bruxas” ou Halloween, essa importação da América do Norte, que pouco ou nada tem a ver com a nossa cultura. Mas sendo sábado é também o dia em que o jornal O Globo publica artigos de dois de seus colaboradores que muito respeito e admiro: o senador Cristovam Buarque e a escritora Ana Maria Machado.

Buarque, nosso infatigável defensor da educação, começa seu artigo denunciando o maniqueísmo dos que clamam pelo impeachment da presidente sem atentar para “os custos institucionais” de um tal procedimento e dos que ao defender o status quo “ignoram o esgotamento da credibilidade do atual governo e sua presidente, desmoralizada por falsas promessas, incompetência na gestão da economia e contaminação pela corrupção ao redor.” O impasse é,  sem dúvida,  assustador, paralisante. E o diagnóstico implacável do senador mostra que por serem imediatistas ambas visões deixam de perceber “os riscos de o Brasil ingressar em um período de decadência, seja em função da continuidade de um governo que já nasceu condenado por seus erros, seja devido a um governo com nome novo mas sem novidade para os rumos do Brasil.”

Por seu lado, Ana Maria Machado, a propósito do fechamento da Plataforma, churrascaria do Leblon que Tom Jobim costumava frequentar quase diariamente, evoca algumas definições “provocadoras e divertidíssimas” do nosso país, que o querido músico “amava com toda a dor do seu coração”:

o Brasil é um país úmido demais, e nele tudo se estraga fácil, mais depressa que qualquer fruta: pode às vezes passar logo do promissor para o podre sem chegar a amadurecer.

Ou: O Brasil é um país de cabeça para baixo. É só olhar no mapa pra ver. Aquela coisa enorme, tentando se equilibrar numa pontinha fina.

Como diz a escritora: “São infindáveis os exemplos desse país de pernas pro ar.” (…) “De tanto plantar bananeira, vamos acabar virando uma triste Banana Republic.” Sobre o Presidente da Câmara, Eduardo Cunha, suspeito de corrupção no processo da Lava Jato que investiga a Petrobras, e acusado de manter várias contas (descobertas e comprovadas) em bancos da Suíça, lembrou que “uma reunião para tratar da cobrança de propina teve de ser interrompida porque naquele momento, {Eduardo Cunha} teria um compromisso religioso. Pasmos, aprendemos ainda que o presidente da Câmara não apenas é um homem com Jesus, mas também põe seus carros de luxo em nome da empresa Jesus.com. Que fim levou o mandamento de não usar Seu santo nome em vão?”

Felizmente, nem só de notícias sobre o nosso deplorável quadro político se alimenta a inteligência de Ana Maria Machado. Ela acaba de publicar um romance cujo título já é um amável convite: Um Mapa Todo Seu, que logo me remete a A Room of One’s own, que a grande Virginia Woolf publicou em 1929, um quase manifesto em defesa da independência feminina, no qual a inglesa estimula as mulheres de seu tempo a construírem um espaço só seu onde possam se expressar e se desenvolver com liberdade e autonomia. Por coincidência, ou não, a personagem histórica e heroína do romance da nossa acadêmica, é Eufrásia Teixeira Leite, uma das primeiras empresárias do país, mulher extraordinariamente avançada para o seu século, o XIX, que viveu uma história de amor com o político, escritor e diplomata Joaquim Nabuco, um dos principais abolicionistas da nossa história.

Graças a um amigo livreiro, do posto 6 de Copacabana, recebi há pouco um exemplar desse romance, que se anuncia tão interessante quanto o que Catherine Clément escreveu baseada na história de amor entre a condessa Edwina Mountbatten, mulher de Louis Mountbatten, o último Vice-Rei da Índia, e Jawaharlal Nehru, sucessor de Gandhi e  primeiro-ministro daquele país  de 1947 a 1964.

No romance brasileiro, os protagonistas chamam-se Quincas e Zizinha, oriundos de “províncias e famílias distintas. A dela, rica e francamente aristocrática. A dele, sempre enfrentando dificuldades financeiras, mas de prestígio e presença marcante na política, havia três gerações.” E tudo começa numa viagem de navio em que os dois belos jovens embarcam para a Europa no ano de 1873.

Lembro que foi na década de 1870 que a romancista norte-americana Edith Wharton (1862-1937) situou sua história tão bela e triste de A Época da Inocência.  E Henrik Ibsen (1828-1906), o celebrado dramaturgo norueguês, escreveu sua peça engajada na luta pela emancipação das mulheres,  Casa de Bonecas, em 1879.

É, portanto, inacreditável que ainda hoje, em pleno século XXI, Ana Maria Machado precise fazer esta pergunta em seu artigo: “Como explicar que o projeto do mesmo (Eduardo) Cunha restringindo o direito ao aborto em caso de estupro seja defendido pelo deputado Evandro Gussi, do PV (Partido Verde) , partido que se orgulhava de ter a cidadania feminina entre seus valores? E ainda negue que mãe solteira constitui família com seus filhos…” O país continua machista e as mulheres sofrem violências de inúmeros tipos, que vão do insulto ao assassinato. Mas esse é assunto para outra Carta.

Para finalizar, ouçamos o Senador Cristovam Buarque, que após abordar vários dos nossos problemas, insiste: “Cada um (…) exige reformas profundas, mas todos eles dependem de educação de qualidade para todos.” E, voltando ao tema do impeachment: “A continuação ou interrupção do mandato da presidente Dilma não será suficiente para trazer saída à crise e evitar a decadência, se não entendermos que, para o Brasil: ‘É a educação, gente!’” Precisamos admitir que só um povo mais bem educado será capaz de eleger melhores representantes.

E fica para a próxima semana uma resenha do livro de Ana Maria Machado Um Mapa Todo Seu.

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