Num momento em que a bandeira americana volta a estar em foco pois há quem a queria fazer descer do mastro para a molhar de petróleo, lembrei-me como as palavras dos músicos da filarmónica da minha terra por meados dos anos cinquenta podem ser, hoje e agora, não uma corruptela mas um presságio
De facto os músicos da filarmónica da terra onde nasci não diziam «vamos tocar a marcha «Stars and Stripes for ever» mas sim «vamos tocar a marcha tripas a ferver». Eles não sabiam inglês embora muitos deles tivessem (como eu próprio e muitos de nós, quase todos nós) um tio na América ou um primo no Canadá. Eles não sabiam que a bandeira americana era a origem da marcha composta por John Philiph de Souza (com zê) ele próprio filho emigrantes madeirenses. Eles não sabiam que a bandeira americana tem estrelas e tem tiras, daí as tais «Stars and stripes» do nome da marcha. Eles não sabiam que um poeta faialense (Mário Machado Fraião) publicou um livro com o sugestivo título de «Todas as Filarmónicas perdidas». É o som dessas filarmónicas que todos nós procuramos não perder. Seja a marcha «Washington Post» seja a marcha «American Patrol», sejam todas as marchas pelas quais fomos atrás da música mesmo contra a vontade dos nossos pais ou avós nos dias de festa e arraial. Tantos anos depois a corruptela pode passar a presságio. Se a bandeira americana descer do mastro e se lançar sobre o petróleo do Iraque muitas bombas irão cair do céu e muitas tripas irão ficar a ferver. E o sangue atónito e inocente, sangue sem música nem resposta às lágrimas, irá correr na areia lado a lado com o petróleo.