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«A Memória dum pintor desconhecido é a versão-poema do “Conflito e unidade da arte contemporânea”, cuac cuac», disse uma delas. Os outros dois olharam de soslaio. Seria? Estaria Mário Dionísio a pôr em verso aquilo que tinha dito sobre pintura numa conferência? E estaria Mário Dionísio a pôr nos seus quadros aquilo que tinha dito nos poemas, que tinha já dito numa conferência? E o que é isso de um retrato? Será que havia outros poemas, outros retratos, de outras pessoas que lembrassem o que andou a ser feito no século XX contra a força de inércia da maioria dos seus contemporâneos? Este «Direis que não é poesia» parte da gravação da leitura de Luis Miguel Cintra do «Conflito e unidade da arte contemporânea» (feita na Casa da Achada, no mês passado) para testar a hipótese. Com pinturas ao vivo, poemas lidos ao desbarato, da teoria ao origami, porque se tem de tentar fazer as coisas para perceber o que elas são. Na sexta-feira, dia 19 de Fevereiro, às 18h30, com a Diana, a Mariana e o Toni. — «Direis que não é poesia» é uma rubrica de espectáculos que já teve doze sessões diversas na Casa da Achada. Desafiámos e desafiaremos pessoas e grupos de pessoas para não fazerem, a partir da poesia de Mário Dionísio, simples recitais mas sim criarem novos objectos: música, dança, vídeo, leituras encenadas, pintura… |
Após seis anos de abertura ao público, as pinturas de Mário Dionísio que têm estado penduradas nas nossas paredes podem acabar por nos passar despercebidas. Já não reparamos naquele rectângulo branco sobre aquele amarelo em A fera no fojo, naquele pormenor azul sobre o cinzento em Recordando a praia.
No sábado, dia 20, às 16h, encontramo-nos com o artista plástico João Queiroz para nos desanuviar, iniciar ou continuar o olhar para a pintura de Mário Dionísio. «Quer isto dizer que, se é à capacidade pessoal de sensibilidade, de imaginação e de destreza manual do artista que devemos os caprichos da arte, a responsabilidade última destes caprichos não lhes cabe inteiramente, mas a todos nós. Todo o público colabora com o artista, sem o saber, na mais profunda elaboração das várias novidades que tantas vezes o ferem. E se um dia vem em que as aceita, é porque, com mais ou menos demora, ao cabo duma maior ou menor relutância, acabou por reconhecer-se nelas, por nelas descobrir, por vias daquela espécie particular de secreta felicidade que há em todo o convívio artístico, a sua parte de responsabilidade no sucesso. Sim, cada vez que descobrimos a força de autenticidade e de beleza de uma presença que até então ignorávamos – ou desprezávamos –, cada vez que, de facto, ouvimos uma mensagem que nos era dirigida há tanto tempo e a que até então só tínhamos sabido corresponder com a ofensa da indiferença, é um problema de consciência que se põe. O problema da nossa responsabilidade pessoal em tudo o que se faz ou se deixa de fazer na vida.» |
Durante o mês de Fevereiro, vamos abordar o retrato de maneiras muito diferentes. A começar com a fotografia e acabando com textos, passando pela foto-novela e pela modelagem.
// 21 de Fevereiro, 15h30 // 28 de Fevereiro, 15h30 «Como os retratos se alteram! Como eles se complicam! Como eles mudam e nos mudam! Como eles vão perdendo ou recuperando a nitidez do perfil, o rigor anatómico, o respeito pelas aparências! Se no Marat, de David, o zelo da verdade objectiva é evidente, na Grande Odalisca de Ingres, toda a gente se apressa a apontar algumas vértebras a mais. Na Condessa d’Haussonville ou no Banho Turco, feito no entanto aos oitenta anos, uma sensualidade manifesta ri-se de toda a anatomia. Ingres arredonda, insiste, sublinha o objecto do seu prazer. Nas tantas cabeças da mulher de Cézanne, cada uma mais sugestiva que as outras todas, é o jogo dos planos geométricos que conta. Matisse dispensa os olhos, o nariz e a boca da Jovem Inglesa para nos dar toda a sua adolescente graciosidade. O público procura com dificuldade os contornos do corpo de Vollard no célebre retrato de Picasso e verifica, atónito, a distorção do rosto de Jaime Sabartès. Depois, é a cabeça de Ana D. que se esfuma na arquitectura brandamente colorida de Villon. E, numa patética composição de Hartung, onde não há naturalmente a menor alusão à configuração física dum homem, estou certo que é ainda de retrato que se trata.» Para todos a partir dos 6 anos. Máximo de participantes: 10. |
Ao fim da tarde de segunda-feira, dia 22 de Fevereiro, pelas 18h30, continua a leitura comentada, com projecção de imagens, de A Paleta e o Mundo de Mário Dionísio. Vamos na 3ª parte, «Os primeiros pintores malditos». Quem lê o 4º capítulo, «Um pássaro preso na Primavera», é António Lourenço Farinha.
Mais tarde, às 21h30, inserido no ciclo «Rupturas no cinema», projectamos o filme O mundo a seus pés (1941, 119’) de Orson Welles, apresentado por João Rodrigues. «O que a arte moderna nos mostra na sua acidentada evolução é o desaparecimento do assunto ou apenas uma deslocação, aliás profunda, do conceito de assunto? É verdade que a arte dos últimos oitenta anos deixou progressivamente de narrar. Mas terá ela deixado de dizer? Haverá arte que não diga?». Mário Dionísio, na conferência Conflito e unidade da arte contemporânea, falava das artes plásticas. E no cinema? Também foi esse o caminho? Propomos, para estes três meses, um percurso pela história do cinema (bastante mais curta que a da pintura ou da escultura) que tenta mostrar filmes que representam rupturas, avanços ou mudanças, sejam técnicas ou estéticas. Não seria possível pretender ser exaustivo num tema destes. Por um lado, o cinema evoluiu de forma célere ao sabor dos avanços da técnica, mas também e muito das mudanças nas sociedades, nas políticas, nas vidas. |
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