Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Fianna Gael – As diferenças quase invisíveis entre os dois maiores partidos na Irlanda
Por Connor Lenihan
Revista Village, 2 de Março de 2016
Link para o original:
http://www.villagemagazine.ie/index.php/2016/03/fianna-gael/
O ex-Primeiro ministro Albert Reynolds disse uma vez que na Irlanda as eleições gerais eram uma série de 41 circunscrições por eleições. Os caprichos do nosso sistema de representação proporcional significam que numa eleição irlandesa moderna podem-se obter todos os tipos de resultados. A paisagem da política irlandesa tem sido lançada numa incerteza ainda maior com a extraordinária destruição do Fianna Fáil, que perdeu três quartos dos seus assentos em 2011 (passando de 78 para 20).
“Embora para mim Fine Gael seja mais conservador, tudo o que eu posso responder é que Fianna Fáil era um partido da burguesia empresarial e Fine Gael o partido da burguesia comercial”.
A narrativa para esta próxima eleição geral já é bem conhecida. O primeiro-ministro Enda Kenny está agora a procurar obter o mesmo tipo de mandato que Fianna Fáil conseguiu nos primeiros anos. A retórica da estabilidade, uma vez implantada pelo Fianna Fáil, está agora a ser utilizada pelo Fine Gael. Kenny apostou na sua terra com o slogan, “deixe a recuperação avançar”, ao mesmo tempo que queria mostrar-se com humildade em face do eleitorado que ele atraiu prometendo a melhoria económica. O Taoiseach joga, compreensivelmente, com a ansiedade dos eleitores sobre a possibilidade de reversão económica se o seu voto levar a um governo de coligação frágil compreendendo partes díspares à esquerda e à direita com pouco ou nada em comum.
Na verdade 1977 foi a última vez que um partido irlandês ganhou uma maioria absoluta e os governos que não dispunham de uma maioria parlamentar provaram estar entre os mais bem sucedidos. Lemass governou o país sem maioria na década de 1960 e Haughey fê-lo novamente na década de 1980. A coligação de três partidos liderada por John Bruton, ideologicamente com muito pouco em comum, governou sem grandes dificuldades a partir de 1994.
Parece que tanto o Fianna Fáil como Fine Gael recentemente mostraram que governam melhor quando estão sob o olhar atento de partidos menores.
É evidente que vai ser uma coligação. No entanto, o verdadeiro dilema para o eleitorado é de que há uma grande probabilidade de Enda Kenny vir a reocupar o cargo tanto quanto a probabilidade de Fine Gael regressar em coligação com o Labour seja insignificante. É mais provável que Renua e outros independentes consigam obter os votos previstos.
Tradicionalmente tem havido um líder da oposição que poderia apresentar uma coligação em alternativa face aos partidos no poder. Um verdadeiro e eficiente líder da oposição deve indicar de forma credível ao eleitorado dele (ou dela) qual é a sua possibilidade de se tornar Taoiseach. Os números de agora, e desde 2011, não permitem a Micheál Martin ter este tipo de pretensão. A única maneira como ele poderia aspirar a ser primeiro-ministro depois das eleições seria a de assumir que pode formar um governo contando com o seu próprio partido, o Sinn Féin e os independentes variados ou pequenos partidos da esquerda e de direita.
Na verdade a decisão de Martin para afastar a hipótese de formar governo com ou sem Sinn Féin tem permitido a Gerry Adams afirmar inteligentemente que as eleições para o Fianna Fáil são irrelevantes. Adams argumenta que uma vez que o Fianna Fáil quer ser governo mas sem o Sinn Féin nem o Fine Gael, então é inútil para os eleitores darem-lhe o seu voto.
O Sinn Féin é provavelmente o único partido no sistema político, juntamente com os partidos radicais de esquerda, que poderia, se quisesse, afirmar abertamente que está a disputar as eleições mas não a fim de entrar para o governo. No entanto, não parece disposto a abraçar este tipo de jogada de particular alto risco. No entanto, uma vez que o Sinn Féin parece estar a jogar um jogo de alcance muito mais largo, o Fianna Fáil terá muito pouco de que se queixar se o Sinn Féin, na verdade, não passar nestas próximas eleições gerais.
Alternativamente, se os eleitores considerarem que não há alternativa ao regresso de Fine Gael ao poder, eles podem interpretar isso como dando-lhe de facto “um voto livre”. Este podia ver a criação de uma ala esquerda do Sinn Fein como oposição ao status quo mas que, quando confrontado com os desafios de Sinn Féin estar no governo não haja dúvida, recuaria tal como tem feito no Norte.
Seja qual for o resultado o mais provável é que este será aberto para as lideranças de ambos, quer de Fine Gael quer de Fianna Fáil, com uma enorme reticência para se formar uma grande coligação. Esta possibilidade intrigante tem os seus defensores em ambos os partidos políticos. É de notar que um bom número dos que estão à frente no Fianna Fáil são em particular defensores desta hipótese caso os resultados eleitorais o tornem possível. No lado do Fine Gael, as figuras casa como Simon Coveney têm sido explícitas em não descartar esta hipótese. Seria, claro, significar o fim para ambos, para Enda Kenny e Micheál Martin. Talvez seja por essa razão que os membros mais jovens, mais ambiciosos, de ambos os partidos andem mais agitados, mais vivaços.
Isto significa que há então muito em comum entre os dois grandes partidos. Na verdade, as diferenças são notoriamente difíceis de vislumbrar.
A revista The Economist, em 2011, descreveu Fine Gael como um partido de centro-direita, o Labour como sendo de centro-esquerda e Fianna Fáil como um partido nacionalista, e, claro, os dois maiores partidos foram criados a partir de posições opostas durante a guerra civil. Além disso, a alcunha de Fianna Fáil é “O Partido Republicano” e foi durante algum tempo um tanto antipático na perspectiva britânica.
Na sua história de Fianna Fáil, o ‘Partido’ (1986), Dick Walsh observou que Fianna Fáil era tanto um movimento como um Partido e sempre atraiu tanto as pessoas ricas como Fine Gael, como muitas pessoas pobres como no Labour. Donal O’Shea ’80 Anos de Fianna Fáil ‘define-o como um “partido agarra todos … atraente para todas as classes”. Walsh disse que as suas políticas sempre desafiaram as definições e citou De Valera como aconselhamento, “mantenha sempre a política debaixo do seu chapéu”.
Quanto à diferença, um jornal francês uma vez perguntou-me a mim, enquanto ministro, o que é que significava e quando fui quase que forçado a dar uma resposta o que pude responder era que Fianna Fáil era um partido da burguesia empresarial e que Fine Gael tendia a ser um partido dos membros da burguesia comercial. A Seán Lemass foi-lhe feita a mesma questão e, em vez de responder à questão, surpreendeu o interlocutor com a curta mas solene afirmação – “Estamos no poder”.
Ambos Fianna Fáil e Fine Gael são frequentemente descritos como pró-UE e como partidos conservadores pró-empresariais, mas para mim Fine Gael é o mais conservador. O meu velho partido tem a capacidade de se mover tanto à esquerda como à direita, mas tem tradicionalmente feito melhor quando se situa com firmeza ao centro. Fine Gael está mergulhado num conservadorismo profundo e na década de 1930 evoluiu para o seu nome atual através de um breve ligação com as ideias corporativistas e fascistas – os camisolas azuis eram uma pálida imitação dos seus equivalentes continentais mas no entanto caminhavam na mesma direção. Fianna Fail pode, de forma credível, afirmar que a sua inclinação natural é para a esquerda como Micheal Martin o tem procurado fazer ao longo das semanas que antecederam as eleições. É essencialmente um movimento republicano ou nacionalista com as suas raízes nos valores sociais democráticos, mas sem a tendência para o socialismo ou o comunismo.
Kevin Byrne e Eoin O’Malley (2012) consideram que as diferenças entre os dois partidos evocam diferentes tradições nacionalistas (Irish Enlightenment e Gaelic Nationalist).
Na verdade, a maior diferença durante anos foi a realidade bem simples que foi o Fine Gael que teve de fazer coligação com os trabalhistas para colocar Fianna Fáil de fora. Tem havido agora uma clara inversão de papéis. Fine Gael é agora o grande partido do poder.
O que é aqui notável é a divisão fundamental, a da guerra civil, expressa como tal pelos partidos políticos ter sido capaz de sobreviver tanto tempo. Essencialmente os eleitores irlandeses têm-se mostrado notavelmente imuno-resistentes às origens tóxicas tanto da extrema esquerda como da extrema- direita. Neste sentido, o país está situado ao centro tanto política como culturalmente.
A verdadeira decepção, do ponto de vista do eleitor, é que muito poucos partidos, se é que há algum, colocam nestas eleições a questão da necessidade de uma reestruturação profunda quanto à maneira como o nosso governo funciona. Ainda terá que haver muito provavelmente uma outra eleição antes que seja possível mudar e fazer alterações dinâmicas do próprio sistema.
As pessoas que estão quer no Fine Gael quer no Fianna Fáil estão apreensivas sobre o que pode acontecer pós eleições entre os dois partidos uma vez que acreditam que os resultados irão permitir que o Sinn Fein se possa catapultar, da noite para o dia, para a posição de maior partido da oposição e, inevitavelmente, a ser governo num espaço de tempo relativamente curto. Alguns dentro de Fianna Fáil estão prontos para darem um apoio condicionado a um governo Fine Gael desde que o Fianna Fáil mantenha o seu estatuto de principal partido da oposição. Isto tem sido descrito como uma retoma da Estratégia de Tallaght que Alan Dukes anunciou no final de 1980 para apoiar as políticas de austeridade e de retoma da economia de Haughey.
A mais recente sondagem do Irish Times expôs uma diferença sócio-económica intrigante entre os dois partidos. Fianna Fáil, apesar do seu menor número de eleitores continua a ser o único partido no sistema que atrai igualmente gente de todo o espectro de grupos de rendimento. Fine Gael, pelo contrário, é desenhado mais exclusivamente como tendo fundamentalmente gente da classe média e dos grupos de rendimentos mais altos. Isso define Fianna Fáil como um partido diferente e permite que efetivamente venha a constituir uma plataforma social democrática no futuro. O recente referendo sobre igualdade no casamento viu o partido a apoiar entusiasticamente o movimento de liberalização.
O partido não vê como boa política que seja descrito como um partido que esteja do lado das forças mais conservadoras do pais.
Revista Village, Fianna Gael, The elusive difference between our two biggest parties. Texto disponível em:
http://www.villagemagazine.ie/index.php/2016/03/fianna-gael/

