LITERATURA DA GUINÉ-BISSAU/2 – por Maria Estela Guedes

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EXOTISMO E ENDOTISMO

NA LITERATURA PÓS-INDEPENDÊNCIA

 

N´misti durmi

 nha Guiné

 nha terra

 nha mamê

 nha dunu

 nha kassabi

nha sabura

 pidin pan finka udju nel

i kil gora N´na

 sintinela ka ta durmi…

 

Didinho, Sintinela ka ta durmi[1]

 

  1. Dos florilégios lineanos à introdução fatal de espécies  

No que ultimamente tenho lido sobre a literatura da Guiné-Bissau, vem por vezes à tona a questão do exotismo, por duas razões principais: primeira, o exotismo é um recurso retórico reprovado à literatura colonial; segunda, decorrente porventura da anterior, nessa qualidade retórica, ele é rejeitado pela literatura pós-independência.

O conceito de exotismo aplicado à arte assume enorme importância semântica e ideológica porque atinge o “tchon” (nha tchon: meu chão, minha terra), mas é muito confuso. “Na skinas di Tchon di Papel”, escreve Atchutchi, referindo-se mais restritamente à ilha de Bissau, terra da etnia papel[2]. Exótico é o estrangeiro por oposição à terra natal, ao local de nascimento, por isso à pátria, termo aliás oculto atrás da mais frequente identificação do “tchon” com a mãe, “nha mamê”, no fragmento de poema de Didinho (Fernando Casimiro) que escolhi para epígrafe. A temática mais forte da literatura pós-independência é essa mamé, a terra-mater, dona e amada. Ao contrário da habitual proteção que a mãe dispensa aos filhos, Didinho fala da mãe como sendo a protegida. Ele bem queria dormir, mas tem de manter vigília permanente. Os assaltos do inimigo exigem que fique de sentinela toda a noite. E é bem provável que os inimigos, neste poeta, sejam filhos da terra, os bissau-guineenses responsáveis pelo descalabro no país. A mesma ideia fora expressa anteriormente por Tony Tcheka, e de modo tão penetrante que a vigília vem a dar título ao livro: Noites de insónia na terra adormecida. De modo geral, todos os poetas pedem à terra que acorde.

Num gesto geograficamente mais universalista, também Vasco Cabral invoca a terra-mater:

 

Mãe África!

Vexada

Pisada

Calcada até às lágrimas!

Confia e luta

E um dia a África será nossa![3]

Exotismo e endotismo constituem um par de termos opostos que na literatura se carregam muito mais de energia telúrica do que de ornamentação estética. O que interessa aqui é o “meu chão”, por oposição ao “teu chão” (chão está tão perto de chez: chez moi, como nha tchon, significa meu país, minha pátria), terra do soldado invasor que veio do Senegal, v.g.. Tomemos o seguinte exemplo de exotismo em Odete Semedo, na pessoa de soldados estrangeiros, arrogantes e destruidores:

Esse homem sem cabeça

coração na planta dos pés

que a todos leva ao sepulcro

a sete pés

debaixo da terra

pisou o meu chão

calcou a minha gente

não precisava de um pelotão

apenas ter ambição nos olhos

ódio nas mãos

e tocar o bombolon da morte[4]

Em sentido propriamente biogeográfico, o conceito de exotismo, aplicado aos estudos literários, abre portas à exegese dos textos, mas gera desnorte se não for assimilado. Temos para já uma evolução na História que desvalorizou o conceito, e não só por reação à ideologia de grandeza que ele manifestava. Rapidamente se verificou que os recursos naturais não são inesgotáveis, que há perigo de extinção e muitas extinções já consumadas, acrescendo a tudo isso o impacto do paradigma darwinista, que vem chamar a atenção para o oposto do exótico: o endémico, as espécies próprias apenas de dado local, por vezes tão limitado que a população endémica que o habita conta com poucos indivíduos, donde a sua raridade, e com ela o seu altíssimo valor científico.

Então creio que os conceitos de exotismo e endotismo são frutuosos, se aplicados à arte, mas é preciso ultrapassar a ideologia do exótico do século XVIII, ligado à exposição de riqueza conquistada ao outro.

O exotismo não é um carácter distintivo de dada produção da natureza, seja a espécie conhecida vulgarmente por jagudi (Necrosyrtes monachus). O que o exotismo contempla é a situação dos jagudis em dado território, e de acordo com o ponto de vista de quem estabelece a oposição entre dentro e fora, indígena e alienígena, meu e teu, eu e outro. Ou seja, perante a história de um jagudi, abutre que aparece em quase toda a África a sul do Saara, uns dirão que a espécie é exótica e outros que é endótica, consoante o lugar de onde fala o relator (europeu ou africano), e consoante o lugar onde vive o indivíduo que representa a população de jagudis – em Bissau ou num jardim zoológico americano.

Acresce, entre mais motivos de ambiguidade, que em geral, nós, leigos em matéria de fauna e flora, ignoramos o que é endótico e exótico em dado local, circunscrevendo o termo “exótico” apenas na esfera do ornamental – exóticas são as plantas de kiwi e as araras que escolhemos para embelezarem o nosso jardim, aqui, na Europa, mais concretamente em Portugal. Porém daqui a cem ou duzentos anos essas plantas de kiwi podem estar tão naturalizadas como os pinheiros importados da Suécia por D. Dinis, para fixarem as areias do litoral, e araras, periquitos, papagaios e outras aves estranhas já nidificam em Portugal, nada garantindo que daqui a cem anos não tenham constituído populações estáveis, ficando por isso naturalizadas, e passando assim a ser referidas nos catálogos faunísticos. Os camaleões introduzidos no Algarve, talvez em finais do século XIX, já não são exóticos, já fazem parte da fauna de Portugal.

Tentemos um historial mínimo, começando pela asserção de que os homens são nómadas. Nas suas migrações, levam com eles o que era característico do local antes habitado, espécies eventualmente endémicas, isto é, só ali encontráveis: plantas e animais, sobretudo. Porque também existem espécies minerais, também representantes delas se transportam para locais onde não existem, porém, tanto quanto sei, tal circunstância não oferece melindres, visto que um par de diamantes, plantado no meu jardim, não gera uma população de diamantezinhos… Diamantezinhos suscetíveis de devorarem todas as outras espécies do meu jardim, de rubis a pérolas, e de xisto a granito. Por isso os problemas gerados pelo exotismo envolvem apenas o mundo vivo, o das plantas e dos animais.

Com as viagens entre continentes, com as migrações, com os processos de colonização, com as tecnologias agrárias, pecuárias, piscícolas, etc., as espécies começaram a viajar e por isso a prosperar em lugares estranhos, a um ritmo que, em certos casos, é hoje incontrolável. Sabemos que pode ser fatal introduzir espécies exóticas porque, não encontrando no novo habitat os predadores que tinham no seu mundo de origem, podem expandir-se livremente, ocupando o habitat das espécies indígenas e predando-as. É assim que muitas extinções se devem à introdução de espécies exóticas. Não há muito tempo fiz uma reportagem fotográfica em que referi o total desaparecimento de anfíbios – rãs, sapos, salamandras, tritões – de uma lagoa do Parque das Serras de Aire e Candeeiros, devido à introdução criminosa do achigã, uma espécie exótica (canadiana) de peixes de água doce[5].

Na sequência dos Descobrimentos, e em especial quando a História Natural, via Systema Naturae, de Lineu, acolhe nos museus e jardins da Europa, para estudo e inventariação do mundo vivo, as produções de terras longínquas e desconhecidas, nesta época é positivo o valor do exotismo. Exótico é aquilo que pertence a mundos distantes, o que não se conhecia e agora se passou a conhecer. É muito importante para a ciência a descrição das novas espécies, e é positivo o seu valor de coisa rara nos museus. O produto exótico funcionava ainda como sinal exterior de riqueza e poder, quando embelezava parques, palácios e jardins de aristocratas, onde se exibia como imagem da vastidão e riqueza do império colonial.

Hoje, no domínio das ciências naturais, falar de espécies exóticas já não envolve nenhuma conotação positiva, pelo contrário: quando se fala de espécies exóticas em dada região, o mais natural é ficarmos em presença de alguma calamidade. A introdução de espécies é proibida, e nem sequer podemos transportar animais e plantas vivos de um país para o outro. O que agora tem valor para a ciência é o endemismo, a espécie que só existe em dado local e em mais nenhum do mundo. E o valor é tanto maior quanto menor o território habitado. Por isso são raras, valiosas, célebres, as espécies, vegetais e animais, de certas ilhas pequenas, e acontece até um conjunto de arquipélagos, por deter muitas espécies próprias, ser considerado região biogeográfica. A Biogeografia, uma entre centenas de ciências mais recentes, esclarece os assuntos relativos a endemismos e exotismos e demarca o território habitado pelas populações vegetais e animais. No mapa da distribuição geográfica das espécies, as ilhas do Atlântico – Cabo Verde, Canárias, Açores, Madeira – constituem uma região particular, muito cobiçada pelos cientistas, a Macaronésia. A Guiné-Bissau faz parte da Região Afro-Tropical, que abrange a África subsaariana, parte da qual é o espaço que Tony Tcheka privilegia nos seus poemas. O Norte de África, a Europa e o Norte da Ásia pertencem à velha e grande Região Paleártica. Salvo alguma exceção que me escape, e salvo o caso das espécies cosmopolitas, as espécies da Guiné-Bissau não fazem parte da flora nem da fauna de Portugal, e vice-versa, porque os dois países se situam em regiões biogeográficas diferentes. Transportar espécies de um país para o outro poderá dar então lugar à ocorrência de populações exóticas (periquitos e onças pintadas na mata de Monsanto, em Lisboa, p.ex.), o que já sabemos ser ato punível por Lei, a menos que a introdução ou reintrodução tenha origem institucional. Não existe quase nada na situação que mereça apreço e louvor, estamos face a anormalidades que, a terem sido premeditadas, constituem crime. Aquilo que na literatura se rejeita por ser exótico costuma ser outra coisa. Vejamos uma imagem como a da mulher a pilar arroz com o filho às costas: a imagem é icónica, podemos até considerá-la um lugar-comum, mas não corresponde aos conceitos já apresentados.

[1] Em:  http://www.didinho.org/apoesiadefernandocasimiro.htm

[2] Atchutchi, “Badjuru”. In: Kebur – Barkafon di poesia na kriol.

[3] Vasco Cabral, “África! Ergue-te e caminha!”. In: Antologia poética da Guiné-Bissau, 1990.

[4] Odete Semedo, “E o poeta falou”. Em:

 http://www.triplov.com/guinea_bissau/odete_semedo/poemas/poeta.htm

[5] Maria Estela Guedes, Parque Nacional das Serras de Aire e Candeeiros. Em:   http://www.triplov.com/pimb/serra_d_aire/index.htm

mapa guiné-bissau

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