Selecção de Júlio Marques Mota
O tempo dos golpes de Estado desenfreados – o caso Dilma
Jérôme Leroy, escritor e redactor-chefe da revista Causeur
Agradecimentos a Rachel Gutiérrez, Roberto d’Ávil e ao senador Cristovam Buarque.
Dilma Rousseff, final de Março (Photo : SIPA.00748182_000005)
Finalmente, hoje, quando se quer fazer um golpe de Estado, já não se tem nenhuma necessidade do folclore sangrento de outrora: tanques nas ruas, paraquedistas mais que armados em todas as esquinas, estudantes enfiados nos estádios, ministros presos pela manhã à hora do pequeno almoço, ou três brutamontes de galões, se possível de óculos escuros, a falar sobre uma única cadeia de televisão e em que as estações de rádio difundem apenas música clássica.
Isto, era no mundo de outros tempos, o protótipo do golpe de Estado que se verificou no dia 11 de Setembro de 1973, no Chile. Em geral, o golpe de Estado é de direita por uma razão simples: o exército é raramente de esquerda e quando a esquerda chega ao poder, é sempre considerada pela direita como um horrível acidente de percurso que perturba a ordem legítima das coisas. Certamente, o golpe de Estado, também chamado putsch ou pronunciamiento, é às vezes de esquerda como na Rússia em 1917 ou como em Portugal em 1974. Mas é seguido de um processo revolucionário enquanto que o golpe de Estado de direita é seguido de um processo reaccionário. É toda a diferença que há, por exemplo, entre Pinochet em Santiago e os capitães de Abril em Portugal, um guitarrista de dedos bem firmes e um cravo no canhão de um carro de assalto.
Agora em matéria de golpe, as coisas são simultaneamente mais complicadas e mais simples. Mais complicadas porque na época da Internet, ainda é muito difícil bloquear informações e fechar as suas fronteiras, mesmo que apenas temporariamente, duas coisas são absolutamente necessárias quando se quer arrumar a nossa casa e ensinar a estes defensores das partilhas de terra a comportarem-se em linha. Mas é também mais fácil porque a informação não precisa ser bloqueada porque está nas mãos de qualquer um e que os bancos, por exemplo, são mais eficazes do que os blindados para colocar de joelhos um qualquer país.
Lembremo-nos no ano passado, na Grécia. Gente muito educada, com boas e belas gravatas, em gabinetes climatizados de Bruxelas explicaram com muita calma, mas muito firmemente a Alexis Tsipras que pedir a opinião do seu povo não era uma coisa a fazer e que, se ele não assinasse ali um memorando que lhes permitisse pressionar a Grécia até à última gota, eles fariam com que o país regresse à idade da pedra, cortando-lhes a liquidez, ou seja, não lhes fornecendo moeda banco central: em suma, viu-se como é que uma máquina multibanco vazia foi mais eficaz do que uma arma pesada para fazer dobrar a espinha a toda uma população.
O golpe é, por vezes, quase que invisível. Se aceitarmos como definição o facto de se impor a um país o oposto daquilo em que ele votou, dir-se-á que houve então um golpe de Estado na França em 8 de Fevereiro de 2008. Depois de ter feito rever a Constituição a 4, o Presidente Sarkozy faz ratificar o Tratado de Lisboa por voto parlamentar, quatro dias depois, o Tratado de Lisboa, que foi, recordemo-lo, uma versão levemente modificada do Tratado Constitucional Europeu (TCE) que foi rejeitado por 55% dos eleitores menos de três anos antes.
Uma destituição pós-moderna
Um desses golpes de Estado de novo visual, pós-moderno, poder-se-ia dizer porque rompe com as velhas formas da História, está-se a desenrolar neste momento no Brasil e é a presidente Dilma Rousseff, que corre o risco de ser a sua vítima. Acontece que Dilma é de esquerda, um membro do PT (Partido dos Trabalhadores) no poder no Brasil desde que Lula foi eleito pela primeira vez em 2002. No plano político, o balanço do PT está longe de ser uma vergonha se nós considerarmos o estado em que se encontrava o Brasil no momento da sua chegada. Um dos países em que a desigualdade era das mais elevadas no mundo, respeitando sempre a ortodoxia financeira exigida por um FMI sempre alerta, foi capaz de aumentar o seu crescimento de forma significativa, foi capaz de electrificar todo o país e especialmente graças ao programa Bolsa Família, reduziu significativamente a pobreza extrema e eliminou a fome e a mortalidade infantil, simplesmente pela assistência financeira condicionada para famílias com escolaridade e vacinação infantil. É estúpido, a esquerda, a verdadeira: é questionarem porque é que os países ricos produzem pobres e perceberem que deve aí haver um problema de redistribuição e repartição. As coisas foram bem mais difíceis para Dilma Rousseff, mas ainda aqui os resultados estão bem visíveis. Obviamente, houve o escândalo Petrobras que viu os altos dignitários PT se servirem da caixa da grande empresa petrolífera. Isso não é bom, não bom, de modo nenhum.
Mas devemos sublinhar duas coisas. A primeira é que os antecessores do PT fizeram a mesma coisa, mas nunca lhes terá vindo a ideia de ir para as favelas enviar algo diferente dos esquadrões da morte. Pelo menos, a diferença entre um corrupto de esquerda à brasileira e um corrupto de direita é que o corrupto de esquerda mantém um certo superego social. Ele pode encher bem a barriga mas não deixa os pobres com fome. Nós preferimos os virtuosos incorruptíveis, é claro, mas ao mesmo tempo não somos nós que vamos morrer de fome.
A segunda é que Dilma não tem nada a ver com o caso Petrobras. Na verdade, ela é acusada de ter manipulado as contas do país através do financiamento de despesas do orçamento com empréstimos contraídos junto de bancos públicos, a fim de facilitar a sua reeleição. Bem, isso não é para dizer, mas se isso chegasse para destituir um chefe de estado, o procedimento em curso actualmente no Brasil, muitos líderes europeus deveriam então muitas razões para se preocuparem. Além disso, os membros que acabam de votar o procedimento de destituição, eles, quanto ao golpe, estão envolvidos em corrupção e enriquecimento comprovado.
Além disso, quando por azar nós falam da situação ao Brasil, é para nos mostrarem as manifestações anti Dilma e anti-PT falando-nos da cólera do povo brasileiro em face e da desonestidade dos seus líderes e da política de austeridade que fazem reinar. No entanto, não são eles os que sofrem mais no Brasil, estes manifestantes. O jornal Zero Hora diz- nos que 40% entre eles ganham mais de 10 vezes o salário mínimo e que 76% votaram em prol do candidato de direita Aécio Neves aquando da última eleição presidencial de 2014. E quando nos falam do Brasil é-se muito mais discreto sobre os ajuntamentos pro Dilma igualmente muito numerosos. Estar-se-ia em presença, muito banalmente, de uma luta das classes à antiga com uma burguesia que não suporta ver o poder escapar-lhe desde 2002? O todo apoiado pelo próprio Vice-Presidente de Dilma, Michel Temer, vindo da direita, nomeado numa preocupação de unidade nacional, mergulhado até aos olhos na corrupção de Petrobras e que se volta contra Dilma multiplicando as promessas de ministérios aos deputados hesitantes.
Dilma salvará a sua posição com o ainda sólido apoio das classes trabalhadoras? Neste momento nada se pode afirmar mas estejamos certos de que esta antiga guerrilheira que deve ser o único chefe de Estado juntamente com Putin a saber desmontar e montar uma kalach, que é apelidada de «durona» do tempo da ditadura militar em que ela foi torturada e onde nada deixou escapar, não se deixará abater, não se deixará abater de braços cruzados. E que a sua derrota seria uma má notícia para a esquerda, isso é claro, mas para quem é que acredita nesta velha e querida coisa que se chama democracia.
Jérôme Leroy, Revista Causeur, Le temps des coups d’Etat rampants- Le cas Dilma. Texto disponível em : http://www.causeur.fr/bresil-dilma-rousseff-coup-d-etat-petrobras-37903.html



