CARTA DE PORTO ALEGRE – «VIOLINOS»-por Carlos Reni da Silva Melo

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Não sei por quais estranhos desígnios, mas, em média, as mais belas instrumentistas são as que tocam violinos, sem desfazer das demais, que optaram por outros aparelhos para executarem suas músicas.

                Já vi, por óbvio, maravilhosas mulheres tocando pianos, à guisa de exemplo, com uma maestria impressionante -e piano induz-nos a pensar em maestros-, com garbo e uma segurança que parecem desafiar aos autores das melodias, bem como tantas outras componentes de uma orquestra, cônscias de suas habilidades musicais, e, algumas vezes -mesmo até-, dos vorazes olhares masculinos fixados em suas aparências, gestos ao tocarem, compenetração e envolvimento pela ária, como se pautadas para elas por um compositor que lhe rendeu justas e merecidas homenagens.

                 Mas, indubitavelmente, a primeira imagem feminina que me desperta a atenção, em qualquer grupo musical, é a portadora do violino. Tenho observado garotinhas (sem malícia, por favor!) que escolheram-no, talvez porque melhor pudessem portá-lo e subjugá-lo, tornando-se, quando adultas, fantásticas intérpretes, de tal sorte que, hodiernamente, existem grupos famosos de mulheres tocando apenas violinos. Entendo que tal opção é em razão, também, da sensibilidade feminina, pois as notas neles obtidas, seu som, que, em muitas vezes, assemelham-se a verdadeiros gemidos da alma, se coadunam com o que as mulheres nos repassam desde um olhar, de apenas um movimento, com lamentos que expressam sem palavras.

                   Consigno, porque necessário, que não desconheço virtuosistas masculinos que honram a difusão de STRADIVARIUS (1644-1737), o italiano de Verona, maior fabricante de violinos. Conheci um senhor que o tocava em praças, amealhando bons trocados pelo grande acúmulo de ouvintes tão-logo seus primeiros acordes, e que já tinha seu queixo um tanto alterado, perceptível para um melhor observador, acompanhando a harmoniosa curva do bojo do aparelho, que era um virtuose. Parecia-me um desperdício de talento, pois merecia uma plateia de um ANDRÉ RIEU, o famoso maestro holandês de Maastricht que, nos tempos atuais, com sua alta técnica e indiscutível bom gosto, está popularizando o violino como nunca.

               Por oportuno, saúdo, de igual sorte, aos modernos flash mobs (é assim que se escreve?), ainda pouco divulgados, porque oportunizam, inesperadamente, a transeuntes ou a frequentadores de  centros comerciais, de  aeroportos ou em tantos locais públicos, beneficiarem-se de melodias maravilhosas, as quais, em alguns casos, tocam profundamente a alguém, como, por exemplo, a MARIA TOMÁSIA, minha correspondente de outro Estado, que respondeu-me sobre um, que lhe remeti ontem, nos quais crianças tocavam e cantavam “Ode an die Freund”, do meu velho amigo VICO, o Beethoven (compositor alemão, 1770-1827), escrevendo que a música e a sua execução levaram-na às lágrimas. Ainda existe gente sensível e é preciso investir nisso.

                   Inesquecível, para mim (e este texto, com se lê, é muito pessoal), que meu pai, GENTIL MELLO, quando teimou em aprender a tocar violino (ele afinava instrumentos e tocava no programa de maior audiência aos domingos, aqui no Extremo Sul do Brasil, “O Grande Rodeio Coringa”, mas usava bandoneon e acordeão, nós, seus quatro filhos mais velhos, saíamos de casa, porque seus toques pareciam-nos guinchos, um bando de gatos ensacados. Mas dominou-o! provavelmente por haver sido criado nesse ambiente musical, sou, como sempre afirmei, “movido à música”. Dentre os meus programas de rádio, sempre mantive um musical. E violinos, meus caros, se bem manuseado, é um dos instrumentos que mais sensibiliza, que melhor expressa a nossa sensibilidade.

3 Comments

  1. Como bem o diz meu nobre amigo, sejamos todos “movidos à música” e impulsionados pelos maviosos acordes de um violino.
    Parabéns pela bela crônica!
    Forte e fraterno abraço

  2. A música é como um amor que estava distante e chegou de surpresa…
    você, amigo, que diz ‘movido a música’ é um ser apaixonante cuja alma eleva-se ao céu ao som dos violinos.
    Bela crônica, e verdadeiramente digo: o violino é a alma de uma orquestra.
    Parabéns, Carlos.
    BEIJOS COM CARINHO
    Yna

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