Lisboa não seria das cidades portuárias mais tumultuosas. Outras as havia com pior reputação, como Sevilha, Marselha, Génova… Em todo o caso, a Justiça tinha algum trabalho a tentar resolver resultados de rixas e desacatos, furtos, homezios. Geralmente, o foco destes crimes situava-se em tavernas onde eram planeados e, por vezes, cometidos. Quando Lourenço chegou à conclusão de que o assassínio de Lopo não fazia perder o sono a meirinhos, oficiais de justiça e a juízes, que o caso fora remetido para a rotineira classificação de «assassínio de autor e motivo desconhecidos» e, portanto, arquivado tomou em mãos as investigações. O alcaide, Nuno Soares, porque conhecera e estimara Lopo, deixou-lhe mão e tempo livres para inquirir e diligenciar. Lourenço lembrou-se então do grupo de homens que subia a Rua de São João e com quem se cruzara. Mas, naquela tarde, ia demasiado preocupado para neles ter reparado com atenção. Podiam nada ter a ver com o crime, mas, estava certo, não eram vizinhos. Trabalhou, pois, com os poucos dados que tinha.
Interrogou primeiro Nicolau, o aprendiz. Era um jovem tímido e de índole pacífica. Chorara agarrado ao cadáver do mestre e benfeitor, pois tendo por mãe uma manceba que o abandonara, pondo-o, com oito anos, a pedir esmola no escadório da Sé, fora Lopo quem, quinze anos atrás, o acolhera e ensinara a ler e a escrever, adestrando-o depois nos rudimentos da profissão. A pouco e pouco, Nicolau foi tornando-se útil, indo buscar à botica os pigmentos ou os materiais para os produzir as emulsões, ou entregar trabalhos feitos. Aventurava-se, sob o olhar benévolo do mestre, a desenhar pequenos troços dos portulanos. O rapaz assimilara os ensinamentos e Lopo orgulhava-se, quando via nele um futuro desenhador de cartas. Nos primeiros tempos, dormia na oficina e comia à mesa da família Mateus. Recentemente, com a soldada que Lopo lhe pagava tornara-se mais independente, alugado um alojamento junto à Porta do Chafariz dos Cavalos. Não se lhe conheciam vícios. Das mancebas, lembrando-se de sua mãe – que, segundo parece, ainda era viva e exercia o seu mester – fugia quanto podia. Nicolau, segundo disse, saíra pelo toque das Trindades na Sé, quando o mestre conversava ainda com os amigos do costume, o médico José Vizinho, o mestre Rodrigo e Martinho da Boémia. Despedira-se dos sábios que estavam em acalorada conversa, deixara tudo em condições para Lopo poder terminar o mapa que ficara de entregar na manhã seguinte, e saíra. Viera até à sua casa, onde a dona, uma viúva lhe servira, como de costume, a ceia. Com Brites Pereira, a cristã-nova senhoria de Nicolau e que foi chamada a depor, Lourenço confirmou o depoimento do aprendiz. Chegara pouco depois das trindades, comera e, como habitualmente acontecia, lera em voz alta um romance para recreio de ambos. A viúva era uma mulher ainda nova e atraente, impositiva, altaneira, e Lourenço percebeu melhor porque não recorria o moço aos serviços de mancebas. Fez ideia do que se seguia á leitura do romance… Contas de outro rosário. Nicolau não era um suspeito.
Falou em seguida com os cientistas, amigos de seu pai. Estavam desolados como se tivessem perdido um irmão. Porém, nada de útil acrescentaram à investigação. Tinham conversado quase após o jantar até depois das Trindades. Confirmaram a saída de Nicolau que, aliás, se viera despedir de todos. Haviam recolhido à aljama, onde foram para casa de Rodrigo. A esposa e a filha servira uma ceia abundante, pois o dia seguinte era o sagrado sábado, o Yom Shabba e, não podiam comer entre o pôr-do-sol de sexta-feira e o pôr-do-sol de sábado. Por outro lado, precisavam de falar na viagem que os três iriam em breve fazer à Guiné, a mandado de el-rei, para aperfeiçoarem o funcionamento do astrolábio. Nem pensar em suspeitar de tão honrada gente!
Foi depois a vez da família – pormenores dolorosos, mas irrelevantes: Matilde, com o coração destroçado, Beatriz, também desolada, Simão, muito confuso, e Francisco, o carniceiro, marido de Beatriz. Lourenço sabia que Lopo e seu tio Francisco não se davam muito bem, o que não significava que se dessem mal. Ignoravam-se mutuamente. Lopo, reconhecendo a honestidade de Francisco, achava-o ignorante e boçal, entendendo que Beatriz teria merecido um marido diferente, Francisco, que tinha grande respeito pelo saber do cunhado, sentia-se despeitado pela forma distraída como Lopo o cumprimentava, sem nunca travar com ele uma conversa que não fosse sobre a temperatura, a chuva ou a falta dela, sem uma palavra de encómio para o seu sucesso no negócio a que se dedicara. Em todo o caso, nada disto justificava que Francisco lhe quisesse mal ao ponto de o matar. A consternação que demonstrava era, aparentemente, muito sincera. A dúvida, aliás, nem se colocava. Quando Matilde lhe pedira para ir chamar o pai, Beatriz e Francisco e a jovem Joana Mafalda, filha de ambos, estava com Matilde e o avô Simão, em casa, pois ceavam todos em conjunto naquela noite. Além destas pessoas, Lourenço chamou a depor Julião Fernandes. Nicolau revelou que o escrivão estivera na oficina dias antes do crime e que ambos, ele e Lopo, tinham falado animadamente, embora em voz baixa, pelo que o rapaz não se apercebera do que diziam. Alguém se lembrou da rivalidade que, em tempos, na disputa do coração de Matilde, dividira os dois homens. Faltava, portanto, interrogar Julião.
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Julião Fernandes, companheiro de Lopo na escola catedralícia, era um escrivão conceituado que exercia funções de tabelião. Com alguma frequência, era visto com álcool a mais. Não casara e, ao contrário do jovem Nicolau, recorria à companhia de mancebas. Manteve com Lopo uma relação amistosa, tratando-lhe de contratos e temas afins. Porém, não se coibia, sobretudo quando o vinho lhe subia à cabeça, de recordar que o debuxante lhe roubara a noiva. O que não era verdade – Matilde nunca admitira a ideia de desposar o aprendiz de escrivão. Homem bem-parecido, apesar dos estragos causados pela vida desregrada, apresentava um ar carrancudo quando estava sóbrio. Quando foi à presença de Lourenço não tinha bebido ainda e, por isso, chegara de semblante fechado, um pouco nervoso. Começou por dizer o quanto lamentava o crime, parecendo ser a sua dor sincera. Afirmou que sempre mantivera com Lopo uma relação de grande amizade, o que Lourenço sabia ser verdade. Quando lhe foi perguntado o que fizera no dia e à hora do crime, entre as trindades e o anoitecer, embaraçado, não respondeu. Não se lembrava. Lourenço compreendeu que estaria embriagado. Insistindo e mesmo ameaçando-o de prisão, lá lhe extraiu a confissão de que ficara com uma meretriz, a Leonor Gorda, numa alfurja da Rua das Fangas da Farinha.
A meretriz foi trazida à alcaidaria. Tinha mais de trinta anos, magra, escanzelada. Soube então que o sobrenome fora herdado da avó, uma Laurinda Gorda que, quarenta anos antes, se celebrizara por ser anafada e pelo número de clientes que atendia numa só noite. Confirmou que no dia e na altura do crime, Julião estava em sua casa. E que nunca saíra. Tinham estado a beber e adormeceram. Um meirinho que o estava a ajudar nas diligências, aventou a hipótese de tabelião, apanhando a manceba bêbeda e a dormir, tivesse saído, praticado o crime, voltando depois a deitar-se junto dela. Era uma hipótese, mas Lourenço achou-a rebuscada. Era pouco para prender o homem. Ficaria de olho nele. Dava que pensar, quando Julião era o principal suspeito, dele quase não se podendo suspeitar. Por voltas que desse e inquirições que fizesse, não descobriu um inimigo a seu pai. Ninguém tinha motivos para o matar. Todos os que foram chamados a depor, assinavam um auto de perguntas. Lourenço estava atento à mão que assinava. De todos os depoentes, só o insuspeito Martinho da Boémia era canhoto. E, assim, as investigações chegaram a um impasse.
Lourenço ficou com a ideia de que o crime fora cometido por alguém que Lopo conhecia, pois continuara a trabalhar com o assassino nas costas. Não desistiu, mas, de momento, nada mais podia fazer. O grupo de homens que subia a Rua Direita de São João, não lhe saía da memória. Por que escondia o rosto o da frente, o mais bem vestido? Por que o traziam os outros a descoberto. Preocupado com a demora do pai, apenas lhes deitara um olhar de relance, notando que o mais velho tinha uma grande cicatriz no rosto. Um dos outros era magro e alourado e o último calvo e anafado. Reparara mais no homem bem trajado que cobria o rosto e quase não vira os outros. Preocupado com o atraso do pai, não dera importância àqueles passantes. Afinal, as ruas fizeram-se para que as pessoas as percorram.
Nos dias seguintes entrou em tavernas de Alfama, da Ribeira, de São Nicolau, com a esperança de os ver, mas sem resultado. Foi então que, numa manhã de Outubro, o fidalgo Pêro Vaz da Cunha, que estivera fora em missão do Estado, o procurou no castelejo da Alcáçova e lhe falou na história do mapa. E mencionou também a questão das ameaças.