Dorindo Carvalho: «O Sentido Trágico dos Limites» – 4. O mundo onírico e a temática do homem interior – por José Fernando Tavares

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Dizíamos, no início da nossa reflexão acerca do trabalho de Dorindo, que o artista é um produto incondicional do tempo que o viu nascer. Na verdade, este princípio cumpre-se por inteiro na fase que se inicia em 1972. E cumpre-se se pensarmos que o decénio de 70 é caracterizado por um conjunto de texturas, matizes e cores que definitivamente se fixam nesta época, fixando também uma período cultural que se caracteriza, na sua generalidade, por um profundo mau gosto, anunciador, talvez, de uma ambiência decadentista que não passou despercebida à própria sensibilidade social. Confirma-se essa consciência social do gosto através de um conjunto de metamorfoses estéticas, nas quais se incluem os modismos circunstanciais (seja na decoração, seja no design, seja, até, no estilismo ou na alta costura), que revelam uma tentativa inquieta de adaptação a um estilo que não colidisse com a sensibilidade do quotidiano. Essa adaptação progressiva a um estilo mais equilibrado e coerente era também um combate intempestivo contra o mal-estar; ou seja, um combate contra a própria infelicidade.

Basta que um só homem se sinta só, para que o peso do mundo se abata sobre ele de uma forma inexorável. A imagem do homem-sombra corresponde à metáfora da solidão, mas ela também corresponde à face mais obscura da condição humana. Para onde poderá fugir o homem contemporâneo senão para dentro do seu próprio «eu»? Acaso haverá refúgio mais seguro do que a sua verdade interior?

Em plena Guerra Fria, perante o reflexo da ameaça nuclear, este momento de viragem é propício a todas as manifestações. O homem aprende a reivindicar: reivindica, até, a sua capacidade de ser. Perante a perplexidade do ser perante si mesmo, a arte cumpre, cada vez mais, o seu papel questionador perante os problemas do mundo. Mais do que questionar, a arte também consegue dar algumas respostas. A arte tem ainda a capacidade para resolver certos mistérios que ao homem comum, ao homem individual, se afigura difícil resolver. A dificuldade reside na própria incapacidade para formular a interrogação.

A arte de Dorindo Carvalho possui uma gramática interna que permite a uma sensibilidade mais apurada fazer a leitura certa do seu conteúdo. Seja como for, já não adianta dizer que a leitura de uma obra de arte é polissémica: há nela uma verdade interior que se adapta à clarividência (ou à obscuridade) do olhar. Essa flor discreta que se pode contemplar e que se anuncia diante da imagem-sombra do homem simbólico aqui presente, pode ser comparada à pedra filosofal dos alquimistas: ela impõe-se ao nosso olhar na inteireza do seu mistério; esse mistério, afinal, que confere grandeza e dignidade aos próprios actos humanos. Essa pedra (que é como quem diz: essa flor) existe para nos dar respostas, mesmo que essas respostas não sejam a consequência de uma interrogação objectivamente firmada.

É aqui que se estabelece um dos conflitos, se não o conflito principal, entre a arte e a razão:

na dificuldade, ou na impreparação, para formular as questões essenciais que se adaptem às respostas que já existem no seio do espírito criador.

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