Lisboa noite de, sexta–feira, 26 de Julho de 1487.
Nesta narrativa, chegámos a uma encruzilhada entre os infortúnios de um jovem audaz, mas imprudente, com a sua entrada numa densa teia de subterrâneas intrigas e numa densa rede de perigos. Há um momento nas nossas existências, em que as ilusões ficam para trás e a vida deixa cair aquela máscara risonha com que até então nos olhara e se nos apresenta com a sua face cruel – a sua verdadeira face, afinal. Diga-se, no entanto, que a alguns a vida nunca os fitou com essa máscara de bondade. São os que foram pela sorte despojados das alegrias da infância e das ilusões da adolescência – saem do ventre de suas mães para a crua realidade. É boa altura para falarmos um pouco mais deste homem, que, ainda jovem, fitava Lourenço, de sobrolho erguido e com o ar severo e astuto de um ancião, Parecia querer, com o olhar penetrante, medir o tamanho da sua coragem, avaliar a sua lealdade e o seu carácter, ler-lhe a profundidade dos pensamentos e sopesar com o máximo rigor a sua capacidade para desempenhar a importante tarefa de que pretendia encarregá-lo. Era o homem que estava no centro da teia em que Lourenço ia ser enredado, talvez fosse mesmo a aranha que urdia a teia e tecia a rede.
Porém, não é fácil nem pacífico, descrever uma personagem tão complexa e rica em contradições e em matizes de sentimentos e atitudes, numa estranha mistura de súbita bondade, de explosiva crueldade, de fina inteligência e também, por vezes, de uma fúria cega, raivosa e quase irracional. Isto dizem os coevos, pois, quando nasci, el-rei D. João II já morrera da forma que o que se conhece ou que, pelo menos alguns julgam conhecer. Ou que talvez ainda, segundo outros, nunca venha a ser conhecida, pois ainda hoje persistem os rumores de que foi envenenado. Inimigos, na verdade, não lhe faltariam. Adiante, caso não me esqueça, como por vezes me acontece, dir-vos-ei aquilo que meu pai e outros da sua geração a tal respeito me contaram. Por ora, limito-me a recorrer ao testemunho de quem com ele privou de perto, embora a experiência me tenha já ensinado que nem sempre sejam de fiar as descrições do cronista que vai comer à mão de quem descreve ou do pintor cuja vida e sustento dependem da boa ou da má vontade do modelo que retrata. Machiavelli, o meu secreto mestre, descreve-nos com rigorosa simplicidade os mecanismos que regulam a relação entre patrono e patrocinado, entre Mecenas e Virgilios, Horácios e Propércios.
Rui de Pina, depois, nomeado pelo senhor D. Manuel, cronista-mor do Reino e guarda-mor da Torre do Tombo e da Livraria Régia, foi homem da íntima confiança de el-rei D. João, encarregado pelo soberano de cumprir numerosas missões oficiais dentro e fora do Reino, confiança que foi ao ponto de Sua Majestade o ter nomeado seu testamenteiro. Na sua Crónica sobre esta importante figura de estadista, descreveu-o «como um homem de corpo, mais grande que pequeno (…) mui proporcionado; que teve o rosto mais comprido que redondo e de barba em boa conveniência povoado. Teve os cabelos da cabeça castanhos e corredios e porém em idade de trinta e sete anos, na cabeça e na barba era já mui cão, de que se mostrava receber grande contentamento pela autoridade que à sua dignidade real suas cãs acrescentavam; e os olhos de perfeita vista e às vezes mostrava nos brancos deles umas veias e mágoas de sangue, com que nas coisas de sanha, quando era delas tocado, lhe faziam aspecto mui temeroso».
Uma personalidade da corte inglesa, de passagem por Lisboa, comentou, descrevendo el-rei que «era ver um homem que mandava todos e ninguém mandava nele». O próprio rei dizia claramente que «por menos-mal haveria a um rei ser puto» – ou seja, homem que mantém relações carnais com outros homens – «ou herege, que era as piores partes que podia ter, que ser mandado». Em todo o caso, e feitas estas ressalvas, a descrição parece além de sóbria, arguta e prudente, bastante objectiva e muito assisada. Garcia de Resende traçou também um sucinto retrato do monarca: «El-rei D. João era homem de muito bom parecer e bom corpo, de meã estatura, porém mais grande que pequeno, muito bem feito e em tudo muito proporcionado, airoso e de tanta gravidade que ante todos logo era conhecido por rei.» Coincidindo com a opinião de Resende, Lourenço, que apenas vira antes o soberano de longe, entre uma multidão de cortesãos e de guardas, e que nunca estivera, assim como agora, a dois passos de Sua Majestade, logo, sem que fosse preciso que alguém lho dissesse, soube quem tinha diante de si e, como lhe competia, ajoelhou-se com genuína reverência, curvando a cabeça e aguardou que o rei lhe dirigisse a palavra.
Terminada esta observação, com um ar sempre austero, o rei expôs-lhe a questão, resumindo-a: Lourenço cometera um crime muito grave, quase matando uma importante pessoa da Corte. A intenção que o movera fora a de defender uma donzela incomodada por ébrios, o que constituía uma boa intenção. Fez uma breve pausa e prosseguiu, mantendo sempre uma expressão fechada. Porém, as boas intenções não bastam, pois quem puxa da espada sempre deve saber, não só por que motivo o faz, mas também contra quem o faz. Mantendo sempre um respeitoso silêncio, Lourenço não estava, contudo, de acordo, pois lhe parecia que quem se comporta de maneira tão vergonhosa como o fidalgo e seus sequazes, merece severa punição. Por outro lado, se antes de puxarmos da espada temos de saber contra quem o fazemos, bem mal podemos estar, pois corremos o risco de acordar no Céu ou no Inferno, sem sequer sabermos quem nos matou. Apesar das divergências de opinião, manteve-se calado. Talvez o monarca tivesse usado o termo «espada» numa acepção metafórica. Neste assunto não havia margem para cometer mais imprudências e contestar a afirmação do soberano, fosse ela ou não metafórica, seria, não só uma imprudência, como igualmente uma loucura.
O rei continuou o discurso: se a saúde do fidalgo melhorasse, seria condenado ao degredo ou às galés. E, perscrutando com o rosto do jovem durante segundos, lhe propôs um pacto de honra: em alternativa ao justo e merecido castigo poderia prestar um serviço à Coroa e, em sendo bem sucedido nesse encargo, ver o seu nome reabilitado e a pena derrogada ou, muito suavizada. E aqui el-rei calou-se, sendo evidente que esperava uma resposta. Lourenço, sempre de olhos baixos, afirmou que faria fosse o que fosse, menos para se livrar da pena, a qual considerava merecer e estar disposto a sofrer sem queixumes, do que pela subida honra de servir o seu país e o seu rei e senhor. Dera a resposta certa, a única que havia a dar. Uma semana no infecto cárcere valera a Lourenço por mil lições de retórica.
Lisboa noite de, sexta-feira, 26 de Julho de 1487.
Nesta narrativa, chegámos a uma encruzilhada entre os infortúnios de um jovem audaz, mas imprudente, com a sua entrada numa densa teia de subterrâneas intrigas e numa densa rede de perigos. Há um momento nas nossas existências, em que as ilusões ficam para trás e a vida deixa cair aquela máscara risonha com que até então nos olhara e se nos apresenta com a sua face cruel – a sua verdadeira face, afinal. Diga-se, no entanto, que a alguns a vida nunca os fitou com essa máscara de bondade. São os que foram pela sorte despojados das alegrias da infância e das ilusões da adolescência – saem do ventre de suas mães para a crua realidade. É boa altura para falarmos um pouco mais deste homem, que, ainda jovem, fitava Lourenço, de sobrolho erguido e com o ar severo e astuto de um ancião, Parecia querer, com o olhar penetrante, medir o tamanho da sua coragem, avaliar a sua lealdade e o seu carácter, ler-lhe a profundidade dos pensamentos e sopesar com o máximo rigor a sua capacidade para desempenhar a importante tarefa de que pretendia encarregá-lo. Era o homem que estava no centro da teia em que Lourenço ia ser enredado, talvez fosse mesmo a aranha que urdia a teia e tecia a rede.
Porém, não é fácil nem pacífico, descrever uma personagem tão complexa e rica em contradições e em matizes de sentimentos e atitudes, numa estranha mistura de súbita bondade, de explosiva crueldade, de fina inteligência e também, por vezes, de uma fúria cega, raivosa e quase irracional. Isto dizem os coevos, pois, quando nasci, el-rei D. João II já morrera da forma que o que se conhece ou que, pelo menos alguns julgam conhecer. Ou que talvez ainda, segundo outros, nunca venha a ser conhecida, pois ainda hoje persistem os rumores de que foi envenenado. Inimigos, na verdade, não lhe faltariam. Adiante, caso não me esqueça, como por vezes me acontece, dir-vos-ei aquilo que meu pai e outros da sua geração a tal respeito me contaram. Por ora, limito-me a recorrer ao testemunho de quem com ele privou de perto, embora a experiência me tenha já ensinado que nem sempre sejam de fiar as descrições do cronista que vai comer à mão de quem descreve ou do pintor cuja vida e sustento dependem da boa ou da má vontade do modelo que retrata. Machiavelli, o meu secreto mestre, descreve-nos com rigorosa simplicidade os mecanismos que regulam a relação entre patrono e patrocinado, entre Mecenas e Virgilios, Horácios e Propércios.
Rui de Pina, depois, nomeado pelo senhor D. Manuel, cronista-mor do Reino e guarda-mor da Torre do Tombo e da Livraria Régia, foi homem da íntima confiança de el-rei D. João, encarregado pelo soberano de cumprir numerosas missões oficiais dentro e fora do Reino, confiança que foi ao ponto de Sua Majestade o ter nomeado seu testamenteiro. Na sua Crónica sobre esta importante figura de estadista, descreveu-o «como um homem de corpo, mais grande que pequeno (…) mui proporcionado; que teve o rosto mais comprido que redondo e de barba em boa conveniência povoado. Teve os cabelos da cabeça castanhos e corredios e porém em idade de trinta e sete anos, na cabeça e na barba era já mui cão, de que se mostrava receber grande contentamento pela autoridade que à sua dignidade real suas cãs acrescentavam; e os olhos de perfeita vista e às vezes mostrava nos brancos deles umas veias e mágoas de sangue, com que nas coisas de sanha, quando era delas tocado, lhe faziam aspecto mui temeroso».
Uma personalidade da corte inglesa, de passagem por Lisboa, comentou, descrevendo el-rei que «era ver um homem que mandava todos e ninguém mandava nele». O próprio rei dizia claramente que «por menos-mal haveria a um rei ser puto» – ou seja, homem que mantém relações carnais com outros homens – «ou herege, que era as piores partes que podia ter, que ser mandado». Em todo o caso, e feitas estas ressalvas, a descrição parece além de sóbria, arguta e prudente, bastante objectiva e muito assisada. Garcia de Resende traçou também um sucinto retrato do monarca: «El-rei D. João era homem de muito bom parecer e bom corpo, de meã estatura, porém mais grande que pequeno, muito bem feito e em tudo muito proporcionado, airoso e de tanta gravidade que ante todos logo era conhecido por rei.» Coincidindo com a opinião de Resende, Lourenço, que apenas vira antes o soberano de longe, entre uma multidão de cortesãos e de guardas, e que nunca estivera, assim como agora, a dois passos de Sua Majestade, logo, sem que fosse preciso que alguém lho dissesse, soube quem tinha diante de si e, como lhe competia, ajoelhou-se com genuína reverência, curvando a cabeça e aguardou que o rei lhe dirigisse a palavra.
Terminada esta observação, com um ar sempre austero, o rei expôs-lhe a questão, resumindo-a: Lourenço cometera um crime muito grave, quase matando uma importante pessoa da Corte. A intenção que o movera fora a de defender uma donzela incomodada por ébrios, o que constituía uma boa intenção. Fez uma breve pausa e prosseguiu, mantendo sempre uma expressão fechada. Porém, as boas intenções não bastam, pois quem puxa da espada sempre deve saber, não só por que motivo o faz, mas também contra quem o faz. Mantendo sempre um respeitoso silêncio, Lourenço não estava, contudo, de acordo, pois lhe parecia que quem se comporta de maneira tão vergonhosa como o fidalgo e seus sequazes, merece severa punição. Por outro lado, se antes de puxarmos da espada temos de saber contra quem o fazemos, bem mal podemos estar, pois corremos o risco de acordar no Céu ou no Inferno, sem sequer sabermos quem nos matou. Apesar das divergências de opinião, manteve-se calado. Talvez o monarca tivesse usado o termo «espada» numa acepção metafórica. Neste assunto não havia margem para cometer mais imprudências e contestar a afirmação do soberano, fosse ela ou não metafórica, seria, não só uma imprudência, como igualmente uma loucura.
O rei continuou o discurso: se a saúde do fidalgo melhorasse, seria condenado ao degredo ou às galés. E, perscrutando com o rosto do jovem durante segundos, lhe propôs um pacto de honra: em alternativa ao justo e merecido castigo poderia prestar um serviço à Coroa e, em sendo bem sucedido nesse encargo, ver o seu nome reabilitado e a pena derrogada ou, muito suavizada. E aqui el-rei calou-se, sendo evidente que esperava uma resposta. Lourenço, sempre de olhos baixos, afirmou que faria fosse o que fosse, menos para se livrar da pena, a qual considerava merecer e estar disposto a sofrer sem queixumes, do que pela subida honra de servir o seu país e o seu rei e senhor. Dera a resposta certa, a única que havia a dar. Uma semana no infecto cárcere valera a Lourenço por mil lições de retórica.
