O MAPA (A saga do anadel/55) . Veneza . por Carlos Loures

Já vos falei sobre a história da República de Veneza. Mas uma coisa é a crónica dos estados e outra são as casas, as ruas, os hábitos e, as pessoas que os constituem. Falemos agora um pouco mais da magnífica cidade por cujas ruas, pontes e canais, meu pai passeava no distante Outono de 1487.

Diz-se que vista de cima, por Deus, pelos anjos e pelos pássaros, Veneza tem a forma de um peixe nadando de Leste para Oeste. O aglomerado urbano, concentra-se no espaço reduzido de cerca de 2200 toesas, no sentido oeste-este, entre o Quartiere Santa Marta e o Quartiere Santa Elena, e de 1430 toesas no sentido norte-sul, entre o Quartieri Grimani e o Quartiere San Giacomo. Assenta toda a urbe em 118 pequenas ilhas, tendo o núcleo original partido da zona de Rialto, e crescido depois à custa da laboriosa escavação de uma densa rede de canais. A terra retirada nessas escavações servira para consolidar o ambicioso plano de construção insular. A consolidação dos fundamentos fez-se com recurso à edificação de paliçadas feitas com grossos troncos de árvores, em cima das quais se construíram então casas e palácios. De noroeste para sudeste, a urbe é atravessada por um conjunto de vias aquáticas formado pelo canal Santa Chiara, pelo Grande Canale ou Canalazzo, que descreve uma curva sinuosa, como um gigantesco S invertido, e também pelo Canale di San Marco Esta rede, no seu conjunto, constitui uma via privilegiada de trânsito de barcos, de pessoas e de mercadorias. O Grande Canale tem cerca de 2000 toesas de extensão e percorre quase toda a Veneza. A profundidade deste extenso canal oscila entre as 14 e as 32 braças. Ao longo das suas margens, erguem-se formosos edifícios, palácios residenciais na sua maioria, com os respectivos cais de atracagem e amarração dos barcos em frente das suas majestosas portarias.

É uma cidade cheia de tesouros arquitectónicos, tantos eles são que se afiguram demasiados para tão reduzido espaço. Ostenta ainda numerosos vestígios do seu passado ligado a Bizâncio e outros mais recentes, dos séculos XI e XII, incluindo influências da arquitectura do norte de França. A jóia mais rutilante é a Piazza San Marco, a que os venezianos, com orgulho e talvez algum exagero tão próprio da sua condição de latinos, não hesitam em considerar «a mais bela praça do mundo». De forma quase rectangular, este largo tem cerca de 80 braças de comprimento por um pouco menos de 40 de largura. Se a compararmos com as dimensões da nossa tão celebrada Rua Nova, podemos avaliar a sua grandeza. A basílica ofusca como uma jóia resplandecente tudo aquilo que a rodeia.

Segundo uma tradição de que não se ousa duvidar, em 828, dois mercadores trouxeram para a cidade o corpo de São Marcos, um dos quatro evangelistas, o qual haviam roubado em Alexandria. Quando o corpo arribou a Veneza, Justiniano mandou iniciar a construção do templo, atribuindo-lhe a função de capela palatina do doge. Consagrada três anos mais tarde, foi em 976 destruída por um incêndio provocado por uma revolta popular contra a tirania de Pietro Candiano IV. Reconstruída pelo doge San Pedro Orseolo, foi consagrada em 978. Porém, foi Domenico i Contarini, senhor que governou a República entre 1043 e 1071, que deu à basílica as proporções que hoje possui, embora a obra de reconstrução do templo só tenha sido terminada alguns meses após a sua morte. Muitos outros edifícios embelezam esta cidade. Refira-se, por exemplo, o Palazzo Ducale, o qual constitui uma das mais elevadas expressões do poder e do esplendor da República. Residência dos doges e sede das mais altas magistraturas, teve a sua origem num castelo incendiado pelo povo em fúria durante a tal revolta contra Candiano IV. Reconstruído por Pietro Orseolo I, foi pasto de novo incêndio em 1105, governava Ordelaf Falier Dodoni. Novamente restaurado, hospedou o imperador Frederico Barba Ruiva que, em 1177, visitou Veneza onde se encontrou com o papa Alexandre III. Até há cerca de cem anos atrás, o palácio sofreu alterações e hoje apresenta uma estrutura distante das suas origens. O seu interior, principalmente a faustosa Sala do Senado, é um deslumbramento de riqueza. No ano em que Lourenço ali esteve, o palácio apresentava ainda as marcas do incêndio que, oito anos antes, destruíra sobretudo o seu interior. Estava na altura em restauro e, pelo menos exteriormente, fora já  reposta a sua imponência e grandiosidade.

Uma lista completa das coisas admiráveis seria cansativa. A Ca’Giustinian, ou Casa de Justiniano, o Palazzo Contarini-Fasan, o maior de todos os que orlam o Grande Canale, o Palazzetto Falier, a Ca’da Mosto, residência da família Mosto, famosos navegadores, dos quais saliento Alvise Ca’da Mosto ou Cadamosto, como nós dizemos, que em meados de Quatrocentos conviveu com D. Henrique, tendo prestado serviços à Coroa portuguesa. Prosseguindo esta visita, referirei o Palazzo Segredo, o Palazzo Pisani, o Palazzo Foscari, mandado construir pelo doge Francesco Foscari, o Palazzo da Mula, o Palazzo Loredan, o Palazzo Contarini dal Zaffo, o Palazzo Dario são alguns dos mais belos palácios da cidade. A Punta della Dogana era digna de ser vista, sabendo-se que até décadas atrás eram ali descarregadas as mercadorias que, por mar, chegavam a cidade. As igrejas de Santa Maria Gloriosa dei Frari, inicialmente ocupada por franciscanos, de SS. Giovanni e Paolo, destinada os Dominicanos na era de Duzentos, San Zaccaria, de Sant’Alvise, da Madonna dell’Orto, votada a São Cristóvão, de Santa Maria dei Miracoli, de San Moisé, erigida em honra de São Vítor, de Santa Maria Formosa, de San Giacomo dall’Orio, de Santo Stefano, de I Carmini, construída para os Carmelitas, entre outras, são maravilhas dignas de ser vistas. Em suma, Veneza é cidade difícil de descrever, pois as suas belezas ultrapassam a limitada paleta de cores da nossa imaginação e os recursos do pobre verbo de um frade hortelão que descreve tais maravilhas, em segunda boca, com base nas conversas que teve com seu pai e também em algumas leituras que sobre o tema fez.

Como dizia o mestre Afonso, quem faz o que pode, faz o que deve.

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