Porque dizemos sobre alguém que se trata de uma figura histórica? Sem dúvida porque se trata de uma pessoa cuja vida e cujos feitos foram registados por se achar que deviam ser recordados no futuro. Esta definição vale sobretudo para os que já morreram, é verdade. Contudo há pessoas sobre as quais, sendo ainda vivas, formamos a opinião de que são figuras históricas e que vão ser recordadas no futuro. Mário Soares foi sem dúvida uma delas.
Independentemente das suas qualidades e dos seus defeitos, dos seus acertos ou dos seus erros, goste-se ou não dele, há que reconhecer que teve um papel de destaque na história de Portugal, a partir da década de 1940. Opositor sem quebra da ditadura imperante, a partir da década seguinte, evoluiu para posições que podemos designar genericamente por europeístas, que foram determinantes nas suas opções, antes e depois do 25 de Abril de 1974.
Curiosamente, as censuras mais duras que se lhe fazem são as que respeitam à sua acção no processo de descolonização, afinal o capítulo da história portuguesa onde a sua acção terá sido a mais certeira, por todas as razões e porque o isolamento de Portugal na cena internacional condicionava fortemente todas as alternativas. Ainda ontem, na televisão, o insuspeito António Vitorino referia que, quando se fala numa descolonização precipitada cabe sim a interrogação de se não deveria ter sido feita muito anteriormente. Acrescentamos nós que isso sim poderia ter poupado muitos sofrimentos aos portugueses e aos povos colonizados. E Mário Soares não ignorava isso.
Entretanto, Portugal caminhou no sentido da aproximação da Europa, o que Mário Soares sempre apoiou. Não foi o único artífice da integração europeia, mas foi sem dúvida um dos principais. Reconhecendo que ninguém é futurista, nem consegue prever tudo, há que salientar que os alertas já estavam a ser dados desde a década de 1960. Mário Soares seria das pessoas melhor colocadas para avaliar os perigos que a adesão à União Europeia iria trazer a um país periférico, para usarmos um qualificativo agora muito usado. Portugal continuou a ter enormes desigualdades sociais e as melhorias havidas, nomeadamente ao nível da prestação de alguns serviços públicos, estão em risco. Cremos que a recordação de Mário Soares terá de incluir estes aspectos.