A Universidade Lusófona, aquela que fez do Relvas doutor, paga 5,00 euros por hora a muitos dos seus professores.
Outras há que pagam 600 euros por mês a docentes contratados a tempo parcial, mas que acabam por desempenhar funções a tempo inteiro.
Há jornalistas (11,6%) que recebem mensalmente menos de 500 euros e, desses, 7% nem sequer auferem 300 euros.
E há funcionários públicos que, depois de 30 anos de trabalho, levam para casa pouco mais do que um Salário Mínimo Nacional (SMN).
Os motoristas ao serviço da Uber ganham 1,50 euros por hora.
E milhares de reformados trabalharam 40 anos para agora receber 340 euros de pensão mensal.
Também há quem pague para trabalhar.
Como, por exemplo, os recém-licenciados em Arquitectura que fazem estágios “à borla” em gabinetes premiados e generosamente pagos.
Portugal é, pois, um país uberizado.
Tem trabalhadores com deveres mas com cada vez mais menos direitos.
Hoje, somos todos Uber.
Uberizados.
Trabalhadores com contratos precários. Mesmo que, aparentemente, não o sejam.
Um exemplo: quando Oliveira, ex-patrão-único da Global Média, quis despedir centenas de jornalistas e outros trabalhadores do grupo, não hesitou em socorrer-se do “despedimento colectivo” para “limpar” o “DN”, o “JN” e a “TSF”.
Assim, garantiu duas coisas:
– Poupou uns “milhares” em salários e impostos;
– Purgou as redacções daqueles que sabiam que fazer jornalismo é mudar o mundo.
A Caixa Geral de Depósitos (CGD) também vai despedir 2500 funcionários. Domingues deixou-lhes a “guia de marcha”, que Macedo confirmará. Ambos lêem pela mesma cartilha.
Os trabalhadores da CGD juntam-se, assim, a todos os outros dos outros bancos que foram para o olho da rua por via da gestão fraudulenta que os “banqueiros” protagonizaram.
Hoje, somos todos Uber.
Trabalhadores mal pagos e precários.
Ao serviço de uma cada vez mais escassa elite económica.
Aquela que, por via da uberização em curso, é cada vez mais a Dona Disto Tudo (DDT). Uma DDT que escolhe os seus serviçais a dedo. Isto é, aqueles que nas televisões, rádios e jornais cumprem o seu papel de mensageiros. Com zelo.
Mas desiludam-se aqueles que pensam que chegamos ao fim da história. “Mesmo na noite mais triste/em tempo de servidão/há sempre alguém que resiste/há sempre alguém que diz não”.
Os insurrectos da Comuna de Paris, os mártires de Haymarket, em Chicago, os revoltosos da Marinha Grande, todos os mortos e todos os vivos que tomam partido pela emancipação e pela fraternidade, merecem que os honremos. Eles, os nossos filhos e os nossos netos.