Pelas cotas de malha, lorigas de cabedal, pelas cabeças protegidas por bacinetes, pareciam ser guardas, gente do doge, pela certa. Eram colegas de trabalho ali em Veneza. Mas, na situação em que se encontrava, não poderia apelar para o sentido de camaradagem. O rei fora claro e Navarro lembrara-lho: em caso algum podia invocar a condição de agente da Coroa – Nem perante o potro, a polé ou a forca poderia revelar a sua identidade. Os guardas teriam sido chamados por quem assassinara o livreiro ou por alguém relacionado com essa pessoa. O homem que saíra, o mais provável assassino, devia ter feito a denúncia. Quem mais poderia saber que Saul jazia morto no interior da tenda? Não perdendo tempo em cogitações inúteis, subiu o lance de escadas que levavam ao sobrado superior. Não conhecia aquele piso e pôde verificar que se compunha apenas de um estreito corredor com uma janela ao fundo, no lado oposto ao da escada, e de dois pequenos compartimentos, divididos por frágeis tabiques de madeira, pejados de livros e gravuras, ambos também com janelas. Num deles, viu uma escrivaninha onde, por certo, Navarro guardava valores e documentos. Não havia ali ninguém. Após breve vistoria às diversas soluções de fuga, optou por sair pela pequena janela situada ao fundo do corredor, passando dali para o telhado. Os homens de armas estavam já dentro de casa, passando revista aos recantos da tenda criados pelas pilhas de livros, estantes, mesas com objectos e gravuras.
Ao cabo de alguns momentos, ouviu as exclamações de espanto provocadas pelo achamento do cadáver. Sentiu-os logo depois subir em tropel as escadas. Tentando não produzir o mínimo ruído, como um furtivo gato, rastejou pelo telhado até ao beiral. Pôde ver então que a rua se estava a encher de vizinhos que, atraídos pelos gritos dos alabardeiros, tinham saído de suas casas empunhando archotes e velas. O vozear indistinto da multidão que se ia aos poucos juntando e crescendo na estreita rua, reflectia o alarme que a presença dos alabardeiros provocava entre os hebreus. Agitados pelo clamor, alguns cães ladravam. Encostado à chaminé e ocultando-se tanto quanto possível atrás dela, temendo que algum dos guardas assomasse à janela e investigasse depois o telhado, não podia conseguir deixar de pensar que o assassínio do livreiro hebraico estava relacionado com a sua actividade de espionagem. O crime devia-se ao envolvimento do judeu na tentativa de recuperação do mapa de Vaz da Cunha. O mapa do Bisagudo continuava a provocar vítimas. Agora, em vez das informações que esperava obter e das quais tanto dependia a sequência da missão, estava confinado a um papel que podia nada ter a ver com o assunto e à liberdade das suas deduções. Com alívio, ouviu, após momentos que lhe pareceram horas, os guardas descer as escadas. Tinham dado como terminada a busca naquele sobrado. Os homens deviam ter-se limitado a percorrer o piso, esquecendo-se, felizmente, de investigar o telhado. Tentou apreciar a situação em que se encontrava de forma optimista: se tivesse sido descoberto, as coisas podiam ter corrido pior. Teria sido difícil de explicar a sua presença no local do assassínio. Mas havia um problema imediato – teria de passar despercebido até que a manhã chegasse, saindo depois da judiaria o mais discretamente possível.
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Como um riacho que a chuva transformasse em caudaloso rio, na rua, à medida que o tempo passava e que um pequeno e sussurrante ajuntamento se fora convertendo em grande e ruidosa multidão, o ruído de vozes e de excitados cães ladrando e uivando, ia também aumentando de volume. Os guardas não permitiam que, quem quer que fosse, entrasse na livraria e a custo continham os exaltados vizinhos a alguma distância da porta, empurrando os mais ousados com as hastes de madeira das suas lanças e alabardas. Algum tempo após, a ansiosa curiosidade da vizinhança foi premiada, pois o corpo do livreiro assassinado foi trazido pelos guardas para fora e, depois, estendido à vista de todos sobre o empedrado. A visão do cadáver com a cabeça quase decapitada provocou gritos de mulheres misturando-se com o vozear indignado dos homens e com a crescente excitação dos cães, que ladravam e uivavam desalmadamente. Num singelo gesto de piedade e respeito para com o desventurado livreiro, uma senhora idosa foi a sua casa buscar um lençol com o qual cobriu o corpo de Saul, que, a julgar pelo pesar que a sua morte provara, parecia gozar de grande estima no seio da comunidade. Reconheceu Sara, a mulher que fazia a limpeza da livraria. Os vizinhos lamentavam, com gritos e choros das mulheres e protestos indignados dos homens, a morte de Navarro. Lourenço manteve-se imóvel, bem oculto atrás de uma chaminé, procurando quase não respirar. Um pombo, perante a sua imobilidade de estátua, vinha bicar-lhe os pés com teimosa fúria. Pontapeava-o com movimentos discretos, mas o tonto animal voltava sempre, movendo a cabeça com precisão mecânica. As botas de cabedal resistiam às fortes bicadas da ave, que, bem vistas as coisas, talvez estivesse apenas a defender galhardamente o seu território daquele gigantesco intruso.
Os hebreus estavam agora unidos numa murmurante oração pelos mortos – o kaddish – habitualmente rezada pelos familiares, naquele caso substituídos pelos vizinhos e amigos. Terminada a oração, um soldado que parecia chefiar a patrulha deu uma ordem e os guardas abandonaram a rua, transportando na direcção das portas da judiaria o corpo em cima de alabardas cruzadas e a multidão que se juntara, saciada a mórbida curiosidade e feitos os últimos comentários ao acontecimento, foi, aos poucos, dissolvendo-se. Os cães foram também acalmando a sua excitação. As conversas foram apagando-se. Era a hora da ceia e os vizinhos iam recolhendo as suas casas. A rua acabou por ficar silenciosa e imersa na escuridão a que apenas o luar emprestava alguma claridade. Como sempre quando alguém morre, a vida continuava. Lourenço tinha forçosamente de passar ali a noite, encostado à chaminé, pois os guardas, após a sua rápida vistoria ao sobrado de cima, tinham trancado por dentro as janelas e fechado as portadas de madeira que davam acesso ao telhado. Partir uma vidraça, tentar forçar uma portada e entrar em casa, não sendo tarefa impossível, seria algo arriscado, pois algum vizinho podia ouvir o ruído que tais acções provocariam. Assim, conformado com a inevitável fatalidade, sentou-se tão comodamente quanto lhe foi possível. O pombo, sacudido e afastado agora com maior violência, deve ter entendido ser mais prudente deixar de o incomodar, como que conformando-se também e aceitando a invasão dos seus domínios por aquele estranho e inamovível ser.
Felizmente que, apesar do desaparecimento do sol, não arrefeceu demasiado, como às vezes acontece mesmo nas noites de Verão. A capa protegia-o bem. Nele embrulhado, dormitou primeiro, acabando por adormecer. Quando, horas depois, acordou, saindo de agitados sonhos, amanhecia. O céu avermelhava-se com a subida do astro. Era a incomparável aurora de Veneza, a celestina luz da alvorada. Gatinhou cuidadosamente até ao beiral. A rua tinha já algum movimento, embora ainda escasso. Um ou outro passante, pequenas carroças puxadas à mão, transportando pão, frutas, hortaliças, bilhas de leite… Agora era a melhor altura para tentar sair dali sem dar demasiado nas vistas.
Tentando confundir-se com a própria sombra, embrulhado na capa preta, curvado, procurando a todo o custo não ser visto de nenhuma das muitas janelas das casas vizinhas, passou com facilidade, descendo um insignificante desnível de um pouco mais de uma braça, para o telhado da casa contígua, um pequeno prédio de um só piso. Daqui atingiu um quintal, plantado de hortaliças e rodeado de capoeiras, onde só um negro cão o veio pacífica e silenciosamente farejar, emitindo um leve latido a que Lourenço lhe correspondeu com uma carícia na cabeça. Logrou, deste modo, chegar assim à rua sem ser notado e por uma vereda estreita foi dar a um caminho que corria paralelo a um canal. Pôde sair do gueto sem ser referenciado, misturado com outras pessoas que atravessavam também nos dois sentidos os portões de madeira guarnecida a ferro. Ao contrário do que temia, os guardas não lhe deram maior importância do que aos outros transeuntes.
Atravessou o Campo de San Geremia e tomou um pequeno barco que, descendo o Canal Grande o levou em pouco tempo e por módica quantia até ao Molo Riva degli Schiavoni, perto do local onde a carraca flamenga estava ancorada. Descendo da gôndola junto da Piazetta, atravessou a Praça de São Marcos, onde os fiéis acorriam às missas matinais, e dirigiu-se à nova estalagem, situada na tortuosa Calle Merceria. O dono da hospedaria estava, no seu posto e viu-o chegar. Era um senhor também idoso, mas bastante mais polido do que o estalajadeiro da anterior hospedaria. Porém, embora mais bem-educado, era um estalajadeiro, apesar de tudo e, como tal, muito curioso. Fazendo-se mais sonolento do que estava, esquivou-se com um sorriso à conversa, refugiando-se na ignorância do italiano e iludindo deste modo as insinuações do estalajadeiro que aludia ao facto de ter passado toda a noite fora, tentando conhecer as verdadeiras razões para tal. Subiu ao quarto. Lembrando-se do que sucedera na outra hospedaria onde lhe tinham devassado os haveres, fechou-se por dentro com a chave e, como reforço, pegou num escano e equilibrando-o sobre dois pés, encostou os outros dois à porta. Se a abrissem, o escano cairia e ele acordaria.
Sentando-se na cama, tirou da sacola o livro. Estava escrito em hebraico, língua de que Lourenço nada sabia, nem sequer o alfabeto. Folheou as páginas com belas iluminuras. Foi então que uma pequena folha de papel caiu de entre as páginas. Pegando-lhe, pôde ver que tinha apenas duas palavras: San Miguel. Guardou o livro e o pequeno papel. Deitou-se. San Miguel – o que poderia significar? Pensou nisso durante alguns minutos, mas o cansaço venceu-o e adormeceu profundamente.