ANDREA CAMILLERI E O COMISSÁRIO MONTALBANO – por MANUEL SIMÕES

(1925 – 2019)

 

Não se pode imaginar a cultura mediterrânica sem considerar a obra narrativa de Andrea Camilleri (1925-2019), o genial autor que em 1989 era conhecido pela sua ligação ao teatro (foi professor na Academia Teatral) e que, em 1994, publicou o primeiro romance policial, criando a figura do comissário Montalbano, como homenagem ao conhecido escritor espanhol Manuel Vásquez Montalban.

Camilleri nasceu em Porto Empédocle, perto de Agrigento, na costa sudoeste da Sicília, virada precisamente para o mar Mediterrâneo, e aí se desenvolve a acção dos seus romances, com o nome da cidade disfarçado em Vigata (nome que a câmara de Porto Empédocle agora juntou à sinalética local, numa promoção turística). O comissariado, por sua vez, situa-se ficcionalmente em Montelusa, com o esclarecimento do próprio escritor: « Agrigento seria a Montelusa dos meus romances, mas Montelusa não é uma invenção minha mas de Pirandello, que usou este nome muitas vezes nos seus romances: à Agrigento de hoje chamava-a Girgenti e também Montelusa, e eu roubei-lhe o nome, agora já não pode protestar».

Embora se tenha revelado tarde, Andrea Camilleri depressa se tornou um autor de “culto”, ainda que a editora Sellerio, de Palermo (a mesma de Leonardo Sciascia) tenha renunciado a qualquer tipo de publicidade. Em pouco tempo o comissário Montalbano entrou na cena literária da Sicília, ao lado de personagens como Don Fabrizio do Gattopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Para isso contribuiu decididamente a composição da figura de Montalbano: amigo da boa mesa (deliciosa é a descrição dos pratos predilectos, como “sardinhas albardadas”, “pasta e sardinhas”, etc.), é culto e eloquente – mas atrapalha-se nas conferências de imprensa -, humanista com o sentido da ética e do gosto pela vida, e que não esconde a frustração quando a investigação o leva a enfrentar os grandes proprietários ou políticos em colusão com a Máfia, processos que depois se dissolvem como bolas de neve.

Com um espírito arguto, Camilleri descreve também os meandros da burocracia italiana e a animosidade entre setentrionais e meridionais. Nos seus policiais, mas igualmente nos romances históricos, o autor não precisa de pretexto para repropor um quadro das tradições sicilianas, nas quais se inclui o crime passional, onde acabam por ir parar todos os homicídios ligados à corrupção.

Autor de mais de 100 títulos, os seus livros compõem-se sempre de 18 capítulos, segundo ele uma medida mental mas também disciplina de escrita, num italiano pontilhado aqui e ali por expressões dialectais sicilianas ou genovesas, estas justificadas pela namorada que de Génova se desloca frequentemente à ilha, talvez aqui usada como símbolo da unidade política e como elemento transgressivo numa Sicília plena de paradoxos, simultaneamente arcaica e moderna. E como já acontecia com Leonardo Sciascia, a sua obra não é um livro mas um projecto, o de tentar aplicar uma ética a uma “civilização” que os ventos históricos (ocupações várias) “ensinaram”a funcionar pela violência.

 
Nota: Traduzido para l5 línguas, o autor está igualmente traduzido em português. A RTP2 exibiu recentemente uma série de episódios sobre “O Comissário Montalbano”, uma produção da RAI, cada um dos quais inspirado num romance de Camilleri.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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