Memória histórica em Espanha – “Juana Mir, a jornalista que o franquismo silenciou no muro em que foi fuzilada”. Por Danilo Albin

Seleção e tradução de Francisco Tavares

Juana Mir, a jornalista que o franquismo silenciou no muro em que foi fuzilada

A historiadora Ascención Badiola publica um romance baseado na história real desta repórter, condenada à morte em 1937, devido aos artigos que tinha escrito contra o bombardeamento de Guernika e Durango. Não há nenhuma fotografia que permita conhecer o seu rosto.

 Por Danilo Albin

Publicação de em 29/11/2020 (ver aqui)

 

Entrada das tropas franquistas em Bilbao em 19 de junho de 1937—CEDIDA

 

Tudo aconteceu muito rapidamente. Numa questão de semanas, a vida de Joan Mir foi destruída em pedaços. Os seus pensamentos calaram-se, os seus artigos foram silenciados, e a sua voz foi apagada. Tudo isto aconteceu à força de disparos contra o muro do cemitério de Derio, em Bizkaia, o local escolhido pelos franquistas para a assassinar. Depois o seu corpo foi atirado para uma fossa comum. Acreditavam que nada mais haveria senão silêncio e esquecimento, mas um livro escrito pela historiadora Ascensión Badiola acaba de pôr definitivamente fim a este plano macabro.

Nascida em 1893 em Pamplona, Juana Mir é hoje um nome sem rosto: não há uma única imagem que dê um rosto a esta jornalista, uma das poucas na imprensa da República Espanhola. Não há fotografias, mas há uma sentença que sobreviveu à época e foi localizada por Badiola: a condenação à morte ditada pela ditadura franquista, que foi cumprida naquele maldito 5 de Agosto de 1937.

Ao longo das 140 páginas que compõem o livro La decisión de Juana Mir (Editorial Txertoa), a historiadora basca – autora de outras obras relacionadas com a repressão franquista – chega precisamente àquele dia em que tudo terminou. Antes de chegar a esse momento atroz, o romance mostra “uma mulher coerente com o que pensa” no meio de uma “história muito forte e motivadora”, conta a sua autora ao Público.

Capa do livro “La decisión de Juana Mir”-TXERTOA

Mir – cujo pai, também jornalista, tinha trabalhado para diferentes jornais – trabalhou para o jornal de Bilbau La Tarde. “Desde 1936, ela foi a autora da coluna La mujer escribe, de onde denunciou a crueldade do exército rebelde“, diz a editorial Txertoa na sinopse deste livro, que recebeu o prémio Ramiro Pinilla 2020.

Porquê um romance para contar esta história verdadeira? A escritora salienta que escolheu este formato literário porque achou que era a forma mais apropriada “para mostrar uma série de emoções“. Nesse sentido, descreve Mir como uma jornalista com “uma grande força interior” misturada também “com alguma ingenuidade“. “Ela considerava que o exército não se iria meter com uma mulher que escrevia artigos de opinião. Quis captar tudo isso juntamente com o medo que se vivia naquele momento“, explica ela. De facto, Badiola assinala que Mir “manteve a sua decisão de não partir até ao último momento“. As tropas de Franco tinham entrado em Bilbau a 19 de Junho de 1937.

A jornalista foi presa no dia 6 de Julho e encarcerada na prisão de Larrinaga, passo prévio de uma anunciada sentença de morte sofrida por tantas outras vítimas da ditadura. Para Mir, tal como para outros prisioneiros do regime, isto significava o início do fim.

Artigo publicado por Juana Mir em “La Tarde” de Bilbau sobre os bombardeamentos de Gernika e Durango. – Cedido por Ascensão de Badiola

Aquela jornalista “não era republicana, antes vinha de uma família de direita“, sublinha a autora. Mesmo assim, os seus assassinos não lhe pouparam a vida. Num tribunal de guerra a 20 de Julho de 1937, foi marcada como “propagandista” da “causa separatista-vermelha“. O seu “crime” foi escrever artigos em que explicava a guerra e os seus efeitos aterradores, tais como os produzidos pelos bombardeamentos ordenados pelo franquismo contra as populações indefesas de Gernika e Durango, que tinham ocorrido alguns meses antes.

Castigaram-na com a pena de morte por cinco artigos mencionados no tribunal de guerra e que eu acrescentei no final do romance. Um deles fala simplesmente da crueldade desses bombardeamentos e da colaboração da força aérea alemã, algo de que se falava na altura mas que Franco negava“, diz Badiola.

Nesse texto, Mir falava das relações entre o regime franquista e os nazis. “Desde o início da guerra elas demonstram que o seu verniz religioso não é obstáculo aos apetites insaciáveis da sua ganância (…) Eles querem que a terra da nossa pátria para vendê-la a outras nações em troca da proteção do seu capital e privilégios“, escreveu ela a 5 de Maio de 1937.

 

 

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O autor: Danilo Albin, jornalista uruguaio, vive e trabalha atualmente em Espanha. Correspondente no País Basco para Diario Público desde 2013, tendo trabalhado anteriormente para Interviú.

 

 

 

 

 

 

 

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