Seleção e tradução de Francisco Tavares
Morre no esquecimento a escritora e sobrevivente do franquismo Elodia Zaragoza
Filha de mãe militante e republicana, nasceu em 1939, numa prisão valenciana. A sua mãe conseguiu escapar com ela nos braços para fugir primeiro para França e depois para a Tunísia. Em ambos os países desenvolveu uma carreira prolífica como escritora, poetisa e editora.
Autoria e publicação de
em 01/12/2020 (ver aqui)

PÚBLICO / EFE
A escritora, poetisa e editora Elodia Zaragoza ou Elodia Turki-Zaragoza (nome de casada), de nacionalidade espanhola, francesa e tunisina, morreu ontem, na Tunísia, com 81 anos de idade. Atrás de si deixa uma vida de filme, completamente ignorada em Espanha e contada no seu livro autobiográfico “La chiqueta”, o apelido dado à sua mãe, Amelia Jover. Amelia era uma militante anarquista, capturada no porto de Alicante pelas tropas de Franco, que a prenderam na prisão quando ela se encontrava num estado avançado de gravidez.
Aí deu à luz e conseguiu escapar disfarçada de enfermeira com Elodia nos braços. Mãe e filha atravessaram os Pirenéus e em Janeiro de 1940 chegaram à praia de Argelés-sur-mer, no sul de França, onde Amelia pôde descobrir que o seu marido, Antonio Zaragoza, um oficial do exército republicano, tinha conseguido escapar para a Tunísia com o único submarino da frota republicana que deixou Cartagena a 6 de Março de 1939.
Segundo conta Santiago Alba Rico no obituário que publicou em sua memória, a história dos 4000 refugiados republicanos (entre os quais o pai de Elodia), que fugiram de Cartagena para atracar no porto tunisino de Bizerta, está enterrada no esquecimento. Só em 2018 foi descoberto um cemitério espanhol na cidade de Kasserine, com sepulturas datadas entre 1940 e 1947 de espanhóis exilados, que tinham morrido longe das suas famílias e que tinham trabalhado em condições escravas para o protetorado francês. Antonio Zaragoza teve mais sorte do que os homens daqueles túmulos, porque foi capaz de reconstruir a sua vida na Tunísia com a sua esposa e Elodia, mas nunca regressou à Espanha que o viu partir.
Numa entrevista ao La Nación, ela falou do desenraizamento que a sua família sentia: “Quando chegámos à Tunísia, chamaram-nos espanhóis… Após vinte e três anos na Tunísia, enviaram-nos para França, e lá chamaram-nos tunisinos. Quando chegamos a Espanha, chamam-nos franceses! Pergunto-me o que seremos”.
Uma vida nómada
Elodia cresceu em Tunes. Sobre a vida dos seus pais naqueles primeiros anos comentou: “Eram como aqueles tubérculos de raiz aérea que, contra toda a lógica, só se alimentam de ar e água… A sua pátria permanente”, disse ela, que de alguma forma acabou por ser simultaneamente francesa, espanhola e tunisina. Mas, também, “diferente em todo o lado”.
Da sua juventude recorda-se dos seus tempos de nadadora: “Nos anos cinquenta fui campeã de todas as disciplinas de natação na Tunísia. Foi assim que conheci o meu marido, um dia a nadar na praia em Hamam-Lif (a sul da capital). Ele viu-me e apaixonou-se”, explicou à EFE com um sorriso fraco mas lúcido, que manteve até ao fim dos seus dias.
“É normal, era bonita”, disse mais tarde, recordando com modéstia aqueles anos de vida no protetorado francês quando ela também ganhou um título de beleza e participou no ‘salto em altura’ nos Jogos Olímpicos de Roma. O homem que se apaixonou por ela no mesmo mar que o seu pai atravessou para escapar à barbárie chamava-se Turki. Pouco tempo depois de a conhecer, tornou-se diplomata e juntos viajaram pelo mundo. Uma vez instalados em Paris, onde Turki foi embaixador, Elodia iniciou uma prolífica carreira literária.
Durante anos foi diretora da secção de poesia da livraria editorial e galeria Racine em Paris. Escreveu a sua autobiografia em francês. Amante de jogos de palavras (compôs um belo lipograma intitulado L’infini désir de l’ombre), manteve um penetrante sentido de humor: a artrite tinha deformado tanto as suas mãos que mal conseguia agarrar objetos – mas conseguia escrever no computador com esforço e habilidade.
Dizia aos seus netos e a todos os que a visitavam que se estava a transformar num pássaro. “Tive uma vida muito feliz, tive sorte” apesar do exílio e da nostalgia pelo país onde nasceu presa e ao qual os seus pais não puderam regressar “livres e em democracia”, argumentou ela.
“É preciso amar a vida. A mim não me roubaram a vida. Aos meus pais sim, e os espanhóis também,” disse ela numa das suas últimas conversas com a EFE, antes de a pandemia lhe ter roubado as visitas.

