MARCOS CRUZ – UM RACIOCÍNIO SIMPLES

 

Vamos por um raciocínio simples: o sim é o oposto do não. Eu sei, faz lembrar a Lili Caneças quando disse que estar vivo é o contrário de estar morto, mas a ideia é partirmos de algo com que todos possamos concordar. Ora, a vida ter-nos-á ensinado, julgo, que por baixo de um sim ou de um não pode esconder-se um mundo ou absolutamente nada. Nestes estranhos tempos, porém, constato uma tendência crescente para não se ir além da aparência ou da pele dos significados. Em quase todas as entrevistas políticas feitas pelas nossas televisões se verifica uma obsessão por extrair respostas “sim” ou “não” dos entrevistados. É contra isto? Vota a favor daquilo? E quando o alvo deste modelo inquisitório tenta explicar os fundamentos que permitirão enquadrar a resposta pretendida, logo o entrevistador o interrompe: “Não foi isso que lhe perguntei: sim ou não?”.

Com a sociedade mais polarizada do que nunca, a quem aproveita isto? Aos extremismos, claro. De um lado temos cada vez mais os sins e de outro os nãos, sem hipótese de se entenderem porque partem de pontos diametralmente opostos e lhes rareia a substância argumentativa para isso. Alegam as televisões que não há tempo para o desenvolvimento de raciocínios. Perdoem-me aqui um assomo de assertividade, mas eu considero esta justificação surreal e inadmissível. É a mesma coisa que dizerem que não há tempo para ajudar à construção de uma sociedade harmoniosa e sã porque se lhe antepõe o imperativo de virar as pessoas umas contra as outras. Tal é o desnorte da maior parte da comunicação social (sobretudo não impressa) hoje em dia.

Arriscando que ex-colegas me critiquem, não vejo como não reprovar este paradigma de raquitismo dialéctico. É, além do mais, de onde me parece espreitar um dos maiores perigos com que nos deparamos. Onde está a ERC, pergunto a propósito? Há alguém que possa efectivamente regular esta erupção vulcânica de irresponsabilidade e autocentrismo negocista por parte das nossas televisões, incluindo a pública?

Enquanto a minha pergunta não vê resposta ao fundo do túnel, tenho andado a pensar em fazer eu próprio um programa online de debate sobre os temas mais importantes de sempre à luz do olhar actual de especialistas nas mais variadas áreas de actividade social – médicos, professores, artistas, políticos, estudantes, sem-abrigo, filósofos, economistas, crianças, gente de direita e de esquerda, todos à mesma mesa (ou melhor, como se estivessem, porque hoje não é possível). E isto assente na premissa inegociável de os ouvir, dure o debate o que durar.

Não sei se é lirismo meu ou um sintoma da descrença em que, mesmo perante a pungência do que estamos a viver, os patrões dos nossos media venham a tirar a mão do bolso e a pô-la na consciência. Mas é a dúvida que me faz avançar em tudo. Ou o infinito de caminho que existe entre um sim e um não.

(20+) Facebook

Leave a Reply