CARLOS REIS – BOM DIA! – “HAITI”, por CAETANO VELOSO e GILBERTO GIL

 

https://www.youtube.com/watch?v=o90x2e98IdA

Poupo nas palavras vazias e de ocasião.

Este forte tema da dupla Caetano e Gil (1993) que adquiri em tempos de esperança e de valores (espero que todos vocês, também) é algo a que recorro de vez em quando e pelo qual mantenho uma admiração muda, talvez própria de gente sentada mais à esquerda, que o compreenda. E me compreenda.

Carlos

SAO PAULO, BRAZIL – SEMPTEMBER 16: Caetano Veloso and Gilberto Gil ao vivo no palco no Citibank Hall a 16 de Setembro de 2016 em São Paulo, Brazil. (Foto por Mauricio Santana/Getty Images)

 

Obrigado a Guilherme Schaidt e ao youtube

 

Haiti  (Caetano Veloso e Gilberto Gil)

Quando você for convidado
Pra subir no adro da Fundação Casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos

De ladrões mulatos
E outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
E são quase todos pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos, quase pretos de tão pobres são tratados

E não importa se olhos do mundo inteiro possam
Estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque, um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados
De escola secundária em dia de parada

E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada
Nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico

Nem o disco de Paul Simon
Ninguém
Ninguém é cidadão
Se você for ver a festa do Pelô’
E se você não for

 

Pense no Haiti
Reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

 

E na TV se você vir um deputado em pânico
Mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo
Qualquer, qualquer
Plano de educação

Que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino de primeiro grau

E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua
Sobre um saco brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina

Cento e onze presos indefesos
Mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos
Ou quase brancos, quase pretos de tão pobres

E pobres são como podres
E todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba

 

Pense no Haiti
Reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

 

Para ler sobre esta canção clique em:

HAITI, DAS QUESTÕES BRASILEIRAS AO LEGADO DA MÚSICA DE CAETANO VELOSO E GILBERTO GIL PARA O DIREITO E RELAÇÕES INTERNACIONAIS, de Simone Alvarez Lima e Eduardo Leal Silva, in ANAIS DO VII CIDIL – NARRATIVAS E DESAFIOS DE UMA CONSTITUIÇÃO BALZAQUIANA © 2019 BY RDL. O link:

513-Texto do Artigo-1727-2057-10-20191010.pdf

 

RDL – REDE BRASILEIRA DIREITO E LITERATURA

CIDIL – Colóquio Internacional de Direito e Literatura

 

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