Seleção e tradução de Francisco Tavares
8 min de leitura
Diplomacia dos EUA- a Guerra, nunca a Paz
Por
Medea Benjamin e
Nicolas J.S. Davies
Publicado por
em 4 de Abril de 2023 (ver aqui)
Publicação original por
em 3 de Abril de 2023 (ver aqui)
A retórica do excepcionalismo dos EUA por parte dos neoconservadores – agora habitual – conduz Washington a conflitos em todo o mundo, de uma forma inequívoca e maniqueísta, escrevem Medea Benjamin e Nicolas J. S. Davies.

Bem-aventurados os artesãos da paz, pois eles serão chamados filhos de Deus.
Mateus, 5:9
Num brilhante editorial de opinião no The New York Times, Trita Parsi do Instituto Quincy explicou como a China, com a ajuda do Iraque, foi capaz de mediar e resolver o conflito profundamente enraizado entre o Irão e a Arábia Saudita, enquanto que os Estados Unidos não estavam em posição de o fazer depois de se terem colocado do lado do reino saudita contra o Irão durante décadas.
O título do artigo de Parsi, “Os EUA não são um pacificador indispensável”, refere-se ao uso do termo “nação indispensável” pela ex-secretária de Estado Madeleine Albright para descrever o papel dos EUA no mundo pós Guerra Fria.
A ironia no uso do termo de Albright por Parsi é que ela o usou geralmente para se referir à atividade de guerra dos EUA, e não para o estabelecimento da paz.
Em 1998, Albright percorreu o Médio Oriente e depois os Estados Unidos para reunir apoio à ameaça do Presidente Bill Clinton de bombardear o Iraque. Depois de não ter conseguido ganhar apoio no Médio Oriente, foi confrontada com protestos e perguntas críticas durante um evento televisivo na Universidade Estatal de Ohio, e apareceu no Today Show na manhã seguinte para responder à oposição pública num ambiente mais controlado. Albright afirmou,
“… se temos de usar a força, é porque somos a América; somos a nação indispensável. Estamos de pé e vemos mais longe do que outros países no que respeita ao futuro, e vemos aqui o perigo para todos nós. Sei que os homens e mulheres americanos de uniforme estão sempre dispostos a sacrificar-se pela liberdade, pela democracia e pelo estilo de vida americano”.
A prontidão de Albright em tomar como garantidos os sacrifícios das tropas americanas já a tinha metido em problemas quando ela perguntou ao General Colin Powell: “De que serve ter este exército soberbo de que está sempre a falar se não o podemos usar”? Powell escreveu nas suas memórias: “Pensei que iria ter um aneurisma”.

Mas o próprio Powell cedeu mais tarde aos neoconservadores, ou os “malucos de merda“, como ele os chamava em privado, e leu conscienciosamente, no Conselho de Segurança da ONU em Fevereiro de 2003, as mentiras que eles inventaram para tentar justificar a invasão ilegal do Iraque.
Ceder aos ‘Loucos’
Durante os últimos 25 anos, as administrações de ambas os partidos [Republicano e Democrata] cederam aos “loucos” em cada momento. A retórica do excepcionalismo usada por Albright e pelos neoconservadores, agora habitual em todo o espectro político americano, leva os Estados Unidos a conflitos em todo o mundo, de uma forma inequívoca e maniqueísta que define o lado que apoia como o lado do bem e o outro lado como o lado do mal, excluindo qualquer hipótese de os Estados Unidos poderem mais tarde desempenhar o papel de mediador imparcial ou credível.
Hoje, isto é verdade na guerra do Iémen, onde os EUA optaram por se juntar a uma aliança liderada pela Arábia Saudita que cometeu crimes de guerra sistemáticos, em vez de permanecerem neutros e preservarem a sua credibilidade como mediador potencial.
Também se aplica, mais notoriamente, ao cheque em branco dos EUA à interminável agressão israelita contra os palestinianos, que condenam os seus esforços de mediação ao fracasso.

Para a China, porém, foi precisamente a política de neutralidade de Pequim que lhe permitiu mediar um acordo de paz entre o Irão e a Arábia Saudita, e o mesmo se aplica às bem sucedidas negociações de paz da União Africana na Etiópia, e à promissora mediação da Turquia entre a Rússia e a Ucrânia, que poderia ter acabado com o massacre na Ucrânia logo nos seus dois primeiros meses se não fosse a determinação americana e britânica de continuar a tentar pressionar e enfraquecer a Rússia.
Mas a neutralidade tornou-se um anátema para os decisores políticos dos EUA. A ameaça do Presidente George W. Bush, “Ou estás connosco ou contra nós”, tornou-se uma suposição central estabelecida, ainda que tácita, da política externa dos EUA no século XXI.
A resposta do público americano à dissonância cognitiva entre os nossos pressupostos errados sobre o mundo e o mundo real com que chocam continuamente tem sido a de se voltar para dentro e abraçar um ethos de individualismo. Isto pode variar desde a desvinculação espiritual da Nova Era até à atitude chauvinista do América Primeiro. Qualquer que seja a forma que assuma para cada um de nós, isso permite persuadir-nos de que o distante barulho das bombas, embora na sua maioria americanas, não é problema nosso.
Câmara de eco impulsionada pelos lucros
Os meios de comunicação social corporativos dos EUA validaram e aumentaram a nossa ignorância, reduzindo drasticamente a cobertura noticiosa estrangeira e transformando o noticiário televisivo numa câmara de eco com fins lucrativos povoada por especialistas em estúdios que parecem saber ainda menos sobre o mundo do que o resto de nós.
A maioria dos políticos dos EUA sobem agora através do sistema de suborno legal, do local ao estadual e até à política nacional, e chegam a Washington sem saber quase nada sobre política externa. Isto deixa-os tão vulneráveis como o público a clichés neoconservadores como os 10 ou 12 embalados na vaga justificação de Albright para bombardear o Iraque: liberdade, democracia, o modo de vida americano, manter-se de pé, o perigo para todos nós, somos a América, nação indispensável, sacrifício, homens e mulheres americanos de uniforme, e “temos de usar a força”.
Confrontados com um muro tão sólido de disparates nacionalistas, tanto republicanos como democratas deixaram a política externa firmemente nas mãos experientes mas letais dos neoconservadores, que durante 25 anos só trouxeram ao mundo o caos e a violência.
Todos os membros do Congresso, excepto os mais progressistas ou libertários com mais princípios, seguem em frente com políticas tão contrárias ao mundo real que correm o risco de o destruir, seja através de guerras em crescente escalada, seja pela inacção suicida ante a crise climática e outros problemas do mundo real que temos de resolver cooperando com outros países se quisermos sobreviver.
Não é de estranhar que os estado-unidenses pensem que os problemas do mundo são insolúveis e que a paz é inalcançável, porque o nosso país abusou totalmente do seu momento unipolar de domínio mundial para nos persuadir de que as coisas são assim.
Mas estas políticas são opções, e existem alternativas, como a China e outros países estão a demostrar de forma espetacular. O Presidente Lula da Silva do Brasil propõe formar um “clube da paz” de nações pacificadoras para mediar o fim da guerra na Ucrânia, o que oferece novas esperanças de paz.

Durante a sua campanha eleitoral e o seu primeiro ano no cargo, o Presidente dos EUA Joe Biden prometeu repetidamente iniciar uma nova era da diplomacia americana, após décadas de guerra e de gastos militares recorde. Zach Vertin, agora conselheiro principal da Embaixadora da ONU Linda Thomas-Greenfield, escreveu em 2020 que o esforço de Biden para “reconstruir um Departamento de Estado dizimado” deveria incluir a criação de uma “unidade de apoio à mediação… dotada de especialistas cujo único mandato é assegurar que os nossos diplomatas tenham as ferramentas de que necessitam para ter sucesso no estabelecimento da paz”.
A Nova Unidade de Mediação de Biden
A mísera resposta de Biden a este apelo de Vertin e outros foi finalmente revelada em Março de 2022, depois de ter rejeitado as iniciativas diplomáticas da Rússia e de a Rússia ter invadido a Ucrânia.
A nova Unidade de Apoio às Negociações do Departamento de Estado é constituída por três funcionários subalternos aquartelados dentro do Gabinete de Operações de Conflito e Estabilização. É esta a amplitude do compromisso simbólico de Biden para com a pacificação, enquanto a porta do celeiro balança ao vento e os quatro cavaleiros do apocalipse – Guerra, Fome, Conquista e Morte – correm à solta pela Terra.

Como Zach Vertin escreveu, “Presume-se frequentemente que a mediação e a negociação são competências prontamente disponíveis para qualquer pessoa envolvida na política ou diplomacia, especialmente os diplomatas veteranos e os altos funcionários governamentais nomeados. Mas não é esse o caso: A mediação profissional é um ofício especializado, muitas vezes altamente técnico, por direito próprio”.
A destruição maciça da guerra é também especializada e técnica, e os Estados Unidos investem agora anualmente perto de um milhão de milhões de dólares nela. A nomeação de três funcionários juniores do Departamento de Estado para tentarem fazer a paz num mundo ameaçado e intimidado pela máquina de guerra de triliões de dólares do seu próprio país apenas reafirma que a paz não é uma prioridade para o governo dos EUA.
Pelo contrário, a União Europeia criou a sua Equipa de Apoio à Mediação em 2009 e tem agora 20 membros de equipa a trabalhar com outras equipas de países da UE. O Departamento de Assuntos Políticos e de Construção da Paz da ONU conta com uma equipa de 4.500 pessoas, espalhadas por todo o mundo.
A tragédia da diplomacia americana hoje em dia é que é diplomacia pela guerra, não pela paz. As principais prioridades do Departamento de Estado não são fazer a paz, nem mesmo ganhar guerras, algo que os Estados Unidos não fazem desde 1945, à excepção da reconquista de pequenos postos neocoloniais em Granada, Panamá e Kuwait. As suas prioridades reais são intimidar outros países a aderirem a coligações de guerra lideradas pelos EUA e comprarem armas americanas, silenciar apelos à paz em fóruns internacionais, impor sanções coercivas ilegais e mortíferas, e manipular outros países para que sacrifiquem o seu povo nas guerras por procuração dos EUA.
O resultado é continuar a espalhar a violência e o caos por todo o mundo. Se quisermos impedir os nossos governantes de marcharem em direcção à guerra nuclear, à catástrofe climática e à extinção em massa, é melhor tirarmos as palas dos nossos olhos e começarmos a insistir em políticas que reflictam os nossos melhores instintos e os nossos interesses comuns, em vez dos interesses dos belicistas e mercadores da morte que lucram com a guerra.
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Os autores:
Medea Benjamin [1952-], do Partido Verde dos EUA, é cofundadora de CODEPINK for Peace e autora de vários livros, nomeadamente Inside Iran: The Real History and Politics of the Islamic Republic of Iran. É especialista em saúde pública e economia, ativista política e escritora estado-unidense. Liderou os protestos contra o governo de George Bush pela guerra no Iraque. É co-autora com Nicolas Davies de War in Ukraine: MakingSense of a Senseless Conflict.
Nicolas J.S. Davies [1953-], jornalista independente, investigador em CODEPINK e autor de Blood on Our Hands: the American Invasion and Destruction of Iraq. É co-autor com Medea Benjamin de War in Ukraine: MakingSense of a Senseless Conflict.

