Lá em cima, no céu azul, andava o sol pelo meio da tarde. Sentada no velho banco do caramanchão, olhos quase dormidos de paz e sossego, apenas ouvia dentro de mim a suave melodia do rumor do vento na folhagem. Faltava o chilrear dos pássaros, meus habituais companheiros no silêncio da tarde. Eles sabiam que eu os esperava e não demoraram muito a entrar nesta deliciosa sinfonia de poesia e saudade.
Carregadinha de cachos de bolinhas amarelas, muito pequenas, a nespereira oferecia-se às mãos de quem tivesse a coragem de subir tão alto para as colher. No entanto, à mão de semear, alguns ramos descaídos, ao dependuro, faziam crescer água na boca. Lá as fui tirando e comendo, muito doces e saborosas, enquanto um chincharravelho, cantando uns metros acima da minha cabeça, as ia depenicando com ar desafiador. Provavelmente estaria a conversar comigo, dizendo que é triste não saber trepar nem cantar. Entretanto, saciado e cansado do monólogo, foi à vida dele.
Lembrei-me, então, de uma conversa com o meu marido sobre nêsperas e magnórios. Para ele eram frutos diferentes e provou-me que assim era. Era minhoto, e um dia levou-me a um mercado na sua terra, onde tive a oportunidade de ver os dois frutos. Julgo serem da mesma família, mas diferentes no aspecto e sabor. A nêspera é um fruto pequeno, muito maduro, acastanhado, com sabor a maçã, nascido da nespereira da Europa. O magnório é este fruto amarelo, doce, com cinco sementes castanhas e lustrosas lá dentro, a que vulgarmente chamamos nêspera, e é filho da nespereira do Japão. Nunca mais vi os primeiros à venda, as ditas nêsperas, em parte alguma. Parece que a árvore vive agora solitária ou serve de adorno em jardins.
Magnórios ou nêsperas pouco interessa. O que conta é o delicioso sabor com que adoçaram, a mim e a toda a passarada rabaceira que por ali anda, esta bela tarde de Primavera musicada pelo sussurro nostálgico do vento na copa das árvores.

