O MISTÉRIO DA POMBA, por EVA CRUZ

 

Não era a pomba branca da paz e muito menos a pomba do Espírito Santo. Era uma pomba real, de cabecita preta e de penas brancas com algumas manchas escuras nas asas e na cauda.

Tinha eu acabado de comer o meu jantar, habitualmente feito de sopa e fruta, neste caso um suculento pêssego, obedecendo à frugalidade a que a velhice nos obriga. Andava o relógio pelas oito da tarde, com o sol ainda alto, como acontece nestes dias em que está quase a atingir o solstício. Não demorará muito que comece a baixar mais cedo, fazendo a tristeza subir.  Quando cedo anoitece e tarde amanhece… a noite parece não ter fim.

Estava eu nesta cogitação, saboreando o solene e luminoso momento antes do cair do dia, quando oiço um pequeno ruído na varanda deste meu oitavo andar. Não me atemorizei porque ali ninguém chega. Decidi espreitar e deparo com uma pomba poisada na grade, meneando o pescocito, mirando-me, ora de lado, ora de frente, sem se assustar minimamente com a minha presença. Ali se manteve impávida e serena naquela quietude, olhando alternadamente a lonjura do horizonte e a minha cara espantada. Aproximei-me, e penso que se lhe tocasse ela não fugiria. Fui buscar cinco pedacinhos de pão e coloquei-os em fila ao longo da grade, frente ao biquito, mas ela manteve-se acintosamente indiferente. Nem lhe tocou. Estranho! Estará doente? Tirei-lhe uma fotografia, mas pareceu-me que nem a isso deu importância. Peguei no telefone para ligar à minha vizinha e querida amiga do andar debaixo que, da sua varanda, tentou imitar o arrulhar das pombas, na tentativa de obter qualquer gesto ou resposta. Nada. Fiz o mesmo junto à sua cabecita e o desdém pareceu-me ainda maior. A minha amiga veio a minha casa, foi comigo à varanda, mas por advertência do marido achou melhor não lhe tocar, nem tentar apanhá-la, não só por nos poder transmitir alguma doença, mas também porque, já agora, não nos agradaria vê-la fugir. Desistimos da pomba, mas volta e meia espreitávamos.  Lá continuava ela, naquele seu estado meditativo, sempre no mesmo sítio, sem se mexer.

Anoiteceu. A pomba não se moveu um centímetro que fosse e o pão continuava intacto. Deitei-me pelas onze horas, encolhi os ombros e deixei a pombinha continuar na sua pacífica solidão. Apesar de estar abusivamente no que era meu, achei que não tinha o direito de a escorraçar.  Pela meia-noite, os meus amigos vieram de novo à varanda para uma última olhadela. A pombinha lá continuava, decididamente senhora do seu poiso.

Acordei cedo com o nascer do sol e a primeira coisa que fiz foi voltar à varanda, convencida de que a teimosia do bicho a faria não arredar pé, ou melhor, não arredar asa. Mas nem pomba nem pão. Tinha comido todos os pedacinhos e, por gratidão, deixou-os sob a forma de cócó no mesmo sítio.

Por alguns momentos interroguei-me sobre a razão daquela inesperada visita. Será que confundiu a minha casa com algum pombal, será que estava cansada de alguma longa viagem, será que pensou ser uma boa companhia para alguém que está só? Se vivêssemos no século passado e a razão se deixasse iludir, até poderíamos pensar numa aparição. Só ela saberá o interesse de querer pernoitar na minha varanda.

Esqueci a pomba. Como ela, bati as asas e voei pelos céus da memória e da saudade. Fiz um raminho branco de gipsofila e levei-o à sepultura branca de minha mãe que também há muito voou… para o infinito. Faria hoje cento e dezassete anos.

 

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