CALDEIRADA ANGLO-PORTUGUESA, por ADÃO CRUZ

Porque é que sendo a nossa língua tão rica e tão versátil, deixando-nos exprimir como nenhuma outra, de qualquer modo e feitio, permitindo toda uma comunicação inesgotável, desde a mais simples forma à mais sofisticada retórica, abrangendo uma dinâmica e uma capacidade inigualável de nos entendermos, há tanta gente a introduzir, abusivamente e inesteticamente nos seus textos, em reuniões e conversas, toda uma mistela de anglicismos metidos mais ou menos a martelo, absolutamente desnecessários e, na minha opinião, dando a quem os profere um ar de prosápia, bem longe da erudição que pretende mostrar, hoje apenas aceite pela banalidade da comunicação daqueles que não sabem nada de português, dando erros veniais e outros de bradar aos céus. À parte um ou outro vocábulo, introduzido por necessidade de uma maior precisão que a palavra portuguesa por vezes pode não permitir, qual a razão para estar sempre a inglesar aquilo que pode e deve ser dito com precisão, beleza e elegância por palavras nossas? Penso que uma das maiores riquezas é a nossa fantástica língua. Assim como o piano é o instrumento do pianista, a palavra é o instrumento de quem escreve e de quem fala. Em qualquer dos casos, nem o pianista se pode impor como virtuoso se tocar mal, nem o que escreve se pode fazer acreditar se escrever ou falar mal e com erros. Uma coisa é saber línguas, o que é muito bom e muito importante, sobretudo nos tempos que correm. Outra coisa é a perda de respeito pela nossa língua. Aprendamo-la o melhor possível e, sem margem para dúvidas, disporemos do mais útil, do mais bonito e nobre instrumento de toda a nossa relação humana e social. Não temos o direito de a conspurcar, como hoje se faz a torto e a direito, por ignorância, indigência mental, snobismo ou exibicionismo, remetendo-a a um mero ingrediente de uma caldeirada anglo-portuguesa.

 

2 Comments

  1. Em minha modesta opinião há algumas razões para isso. Destaco duas aqui.
    Em primeiro lugar julgo ter a ver com certa INSATISFAÇÃ00O de se pertencer a um PAÍS SUBDESENVOLVIDO que não anda nem para a frente nem para trás. As “estrangeirices” que se adoptam vêm geralmente via IMPÉRIO “Mandão” e “DESENVOLVIDO” que trás “novidades” que se julgam sempre “de frentex”. Este “complexo” poderia ser denominado de PAROLICE SALOIA e denuncia um PAÍS de longa emigração, sem BASE de SUSTENTAÇÃO, de ignorantes políticos e em dissolução acelerada rumo à DEPENDÊNCIA da EUROPA CONNOSCO.

    Em segundo lugar e o mais “preocupante”, é a PASSIVIDADE CATÓLICA do TUGA que lhe vem impondo o “MARIA VAI COM AS OUTRAS”. Basta ouvir um Tuga um minuto para verificar que nada existe naquela cabecinha a não ser a Composição dos jogadores dos Clubes de Futebol – a que se vai juntar agora o elemento feminino para fazer em àgua a cabeça das mulheres portuguesas.
    Num panorama degradante destes, há que perguntar: porque está isto acontecendo? E mais: QUEM ESTÁ A BENEFICIAR DE TUDO ISTO…E A FAZÊ-LO?
    Aceitam-se propostas…
    Mas será o “nosso” BURGUÊS RENTISTA TARDO-CAPITALISTA e SUBDESENVOLVIDO que está por trás de tudo isto? Se for, só há uma solução: REFORMÁ-LO…até porque já tem idade para isso.

  2. A sua análise, caro Leonel L. Clérigo, é verificável todos os dias, para nosso desespero.
    Hoje a moda é a dos anglicismos -há um com que embirro particularmente: implementar-, mas muitos outros poderiam ser referidos.
    Ontem, a moda estava na utilização dos galicismos. Alguns andam por aí como se fossem palavras portuguesas, como, por exemplo, detalhe (em vez de pormenor ou minúcia), rentável (em vez de rendível), de que os economistas abusam (e quase todos que publicam textos, a começar pelos jornalistas), etc. etc.
    A defesa da Língua Portuguesa é preocupação de uma minoria cada vez mais minoritária. Atente-se na dificuldade em deitar abaixo o novo acordo ortográfico de 1990; nem as petições entregues na Assembleia da República foram discutidas, acordo este que a Assembleia da República, POR UNANIMIDADE, decidiu aplicar na própria AR a partir de 1 de Janeiro de 2012, o que é a maior PAROLICE SALOIA, para utilizar as suas palavras.

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